Pressão política por corte de juros no meio da guerra pode atrapalhar trabalho do BC
Autoridade monetária está calada e aconselha-se que os economistas e políticos do PT façam o mesmo. Crédito: Raquel Landin | Estadão
Apesar de a taxa de juro elevada ser o denominador comum das crises de grandes empresas brasileiras, ela não é a única explicação para o fato de companhias bilionárias estarem renegociando seus débitos com credores. Cada uma dessas empresas em crise enfrenta dificuldades específicas decorrentes de problemas na gestão ou na governança.
No Pão de Açúcar, por exemplo, que pediu recuperação extrajudicial na terça-feira, 10, decisões de negócios como o uso de recursos levantados com a venda da Via Varejo sendo redirecionados para a França são apontadas como alavancas para a crise.
Na Raízen, por sua vez, a aposta em usinas de etanol de segunda geração — que requerem investimentos bilionários e uma demanda que não se concretizou — drenou recursos do caixa da companhia. A companhia também anunciou recuperação extrajudicial na terça-feira.
“Houve questões estratégicas (desencadeando as crises). Eventualmente, a entrada em um segmento que não se comprovou ou uma aquisição quando a empresa já estava alavancada”, diz Renato Donatti, diretor de rating de empresas da agência de classificação de risco Fitch.

Loja do Grupo Pão de Açúcar; empresa tenta renegociar R$ 4,5 bilhões em dívidas Foto: Werther Santana/Estadão
Há também casos de problemas de governança. A Ambipar, que entrou em recuperação judicial em outubro passado, perdeu a credibilidade no mercado, com bancos desconfiados em relação ao caixa da empresa. Parte desse caixa estaria aplicada em certificados de depósitos bancários (CDBs) do Banco Master.
Confira, abaixo, fatores que ajudaram a desencadear crises recentes em grandes empresas:
Raízen
Na expectativa de que o mundo teria de reduzir suas emissões de carbono e que pagaria por isso, a empresa apostou no etanol de segunda geração (E2G) — um combustível mais sustentável do que o etanol comum, mas que demanda bilhões em investimento. O projeto não se tornou viável financeiramente. Ao mesmo tempo, o grupo ampliou sua área de atuação, criando a rede de mercados Oxxo. Ambos investimentos, sobretudo os no E2G, pesaram no balanço da empresa.
No seu plano de recuperação extrajudicial, a Raízen cita ainda como fatores de sua crise “mudanças no cenário macroeconômico e setorial — decorrente de ciclos de colheita de menor produtividade, queda das margens e alto custo do endividamento financeiro”.
Grupo Pão de Açúcar
A companhia sentiu os efeitos da elevada taxa básica de juros e renegocia uma dívida de R$ 4,5 bilhões não operacional — e boa parte desse valor vence no curto prazo. Segundo a empresa, do montante devido, cerca de R$ 500 milhões vencem em maio, enquanto entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão têm vencimento previsto para julho.
A companhia enfrentou uma série de conflitos entre os seus executivos e optou por decisões de negócios hoje contestadas. Em 2012, o grupo francês Casino assumiu o controle do grupo, depois de uma intensa batalha entre os empresários Abilio Diniz e o franco-argelino Jean-Charles Naouri.
Nos últimos anos, a empresa se desfez de série de ativos, como da Via Varejo, e, em 2019, comprou ações da varejista colombiana Éxito, controlado pelo Casino. Os recursos levantados pela venda da Via Varejo acabaram sendo redirecionados do Brasil para a França, sem ganhos para a operação local.
Ambipar
A companhia cresceu de modo agressivo por meio de aquisições, grande parte delas feita no exterior. A empresa se endividou para bancar essa estratégia, e a alta dos juros tornou a dívida mais cara.
Com problemas de governança, a Ambipar também perdeu sua credibilidade no mercado, com bancos desconfiados em relação ao caixa da empresa. Parte desse caixa estaria aplicado em CDBs do Banco Master.
Antes mesmo de solicitar recuperação judicial, a companhia pediu proteção por meio de cautelar de antecedentes contra antecipação do vencimento de R$ 60 milhões em dívidas. À época, porém, a Ambipar afirmava ter R$ 5 bilhões em caixa, o que gerou estranhamento entre investidores. Em seu pedido de recuperação judicial, a companhia entregou as informações sobre sua situação de caixa lacradas.
Americanas
A empresa pediu recuperação judicial em janeiro de 2023 por inconsistências contábeis. As fraudes contábeis na companhia somavam R$ 25,2 bilhões. Depois de anunciada a fraude, quando apresentou o pedido de recuperação judicial, a varejista declarou uma dívida de R$ 40 bilhões.
CSN
A empresa também se endividou para expandir os negócios. Historicamente, a CSN já opera com um nível de endividamento mais elevado que os padrões do mercado. Mas, com a crescente concorrência chinesa e com a alta dos juros, ela passou a ser mais pressionada por investidores para reduzir a alavancagem.
Em janeiro, a companhia anunciou que pretende se desfazer de até R$ 18 bilhões em ativos para reduzir as dívidas.
Casas Bahia
Em janeiro de 2024, a empresa anunciou um pedido de recuperação extrajudicial para negociar uma dívida de R$ 4,1 bilhões. Como boa parte do varejo, a companhia sofreu com o cenário de juros elevados. A empresa já concluiu esse processo.
No plano de recuperação, lançado em agosto de 2023, a companhia reduziu o quadro de funcionários em 20 mil pessoas, cortou 40% dos cargos de liderança e muitas lojas foram fechadas.
Em agosto passado, a gestora Mapa Capital se tornou dona de 85,5% da empresa, após converter títulos de dívida (as chamadas debêntures) em ações ordinárias (com direito a voto) da varejista.
Braskem
Nos últimos anos, a companhia vem enfrentando uma combinação de problemas. Envolvem alta alavancagem financeira, incertezas em relação ao incidente geológico em suas operações de sal-gema, em Maceió, e uma crise nos preços dos petroquímicos.
Na semana passada, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a transferência do controle da Braskem da Novonor (ex-Odebrecht) para a gestora IG4 Capital. Com a decisão, a IG4 pode se tornar sócia da Petrobras na companhia e encaminhar uma reestruturação interna.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







