BRASÍLIA – O escritório de advocacia do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), recebeu R$ 25 milhões da J&F, empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista em transações consideradas “atípicas”, de acordo com documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) obtidos pelo Estadão.
O montante foi repassado em dez transferências realizadas entre fevereiro e outubro de 2025, com Ibaneis no exercício do cargo.
O grupo J&F tem relação formal com o governo do Distrito Federal desde meses antes ao início dos pagamentos ao escritório do governador. Uma parceria foi firmada em 16 de setembro de 2024 por meio do PicPay, banco digital do conglomerado, que passou a oferecer um serviço de “antecipação salarial” a 200 mil servidores distritais.
O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, em entrevista no Palácio do Buriti, em Brasília, em 2023 Foto: Wilton Junior/Estadão
Embora venha dizendo que está afastado do escritório desde 2018, quando foi eleito, o governador se mantém como sócio da banca, da qual também faz parte seu filho, Caio Carvalho Barros, de 27 anos, e tem direito aos lucros auferidos por ela. A administração do negócio cabe a Luzineide Getro de Carvalho, ex-mulher de Ibaneis.
Procurado pela reportagem, Ibaneis não respondeu. A assessoria dele disse que o pedido deveria ser direcionado ao escritório. Os advogados do governador reiteraram que ele está afastado do escritório desde 2018 “de modo que desconhece tais informações”.
O escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria afirmou que “prestou e presta serviços advocatícios para o referido grupo em centenas de ações judiciais em múltiplas esferas”. Em nota, não detalhou o motivo dos pagamentos de R$ 25.057.735,00 citados e registrou um repúdio ao que chamou de “tentativa de criminalizar a advocacia, sem a qual não há de se falar em Estado Democrático de Direito”.
A J&F Participações afirmou que todos os pagamentos que faz se referem “a produtos ou serviços comprovadamente prestados, mediante emissão de nota fiscal e recolhimento de todos os tributos devidos”. Em nota, a empresa destacou que “mantém auditorias independentes que certificam e confirmam a governança e a retidão dos processos internos”.
J&F firmou parceria com governo Ibaneis
A parceria firmada entre a Secretaria de Economia do governo de Ibaneis Rocha e o PicPay, em setembro de 2024, foi possível graças a um decreto baixado pelo governador em 7 de agosto de 2024, quando ele autorizou o governo a firmar convênios relacionados a empréstimos consignados.
A partir do termo de compromisso, os servidores podiam acessar o aplicativo do PicPay e pedir para que o banco antecipasse uma parte do salário que ainda seria pago pelo governo. Segundo a empresa, não há cobrança de taxas.
A reportagem procurou a assessoria da secretaria de Economia do DF em busca de informações sobre o convênio e não obteve respostas.
Dois meses depois de fechar com o governo do DF, o PicPay usou essa parceria para apresentar ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) um serviço de empréstimo consignado, possibilitando a ampliação do volume de clientes.
Em e-mail enviado ao gabinete do então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, em 4 de novembro de 2024, o PicPay relatou que concluiu o “bem-sucedido credenciamento” junto ao governo de Brasília e, a partir disso, convidou a autarquia federal a “considerar o credenciamento junto à nossa instituição, assegurando que todo o processo foi validado pelos setores jurídicos competentes”.
Batizado de “Meu INSS Vale+”, o programa criado junto ao INSS e operado pelo PicPay foi suspenso após descumprimento de normas que proíbem a cobrança de taxas não autorizadas. Esses acordos firmados pelo banco digital do conglomerado J&F estão na mira da CPI do INSS.
Stefanutto ioi preso pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que apura uma série de fraudes em descontos associativos e consignados a beneficários do INSS. Entre as suspeitas, a de Stefanutto recebia propina mensal. A CPI apura se a criação do Meu INSS Vale+ ocorreu mediante pagamentos irregulares feito via empresas de consultorias.
Filho do governador comprou duplex que foi de executivo
Em março de 2025, o filho de Ibaneis comprou em uma área nobre de Brasília um apartamento duplex de R$ 9,2 milhões que pertenceu ao José Antônio Batista Costa, como mostrou o Estadão. Sobrinho de Wesley e Joesley Batista, ele é presidente da J&F Participações e chefe do Conselho de Administração do Picpay.
Essa negociação imobiliária ocorreu no mesmo período dos pagamentos da J&F ao escritório de Ibaneis, do qual Caio é um dos donos.
A compra não foi feita de forma direta. Caio Barros adquiriu o imóvel do empresário Claudio França, que, oito meses antes, havia se tornado dono do apartamento porque o aceitou como parte do pagamento feito por José Antônio Batista Costa ao comprar uma casa de R$ 28 milhões que pertencia a Cláudio França.
Em nota na época, o intermediário afirmou que trabalha com compra e venda de imóveis há anos e que essa negociação só ocorreu depois que uma grande imobiliária de Brasília indicou o comprador. França disse que não teve negociação direta com Caio Barros e que só depois da venda soube que se tratava do filho do governador.
Na escritura, ficou declarado que o filho de Ibaneis pagou R$ 3.346.000 diretamente a Claudio França. Os outros R$ 5.904.000 foram financiados pelo BRB, o banco público de Brasília, com parcelas de R$ 64.844,69 mensais.
Ao Estadão, Caio Barros declarou que a compra do apartamento não teve qualquer relação com contratos do escritório da família e que contou com doações do pai e da mãe para reunir o valor da entrada do imóvel. Disse ainda que o apartamento foi o primeiro dos três que visitou quando procurava uma residência e classificou o duplex como “um espetáculo”.
“Minha mãe me deu um pedaço, meu pai me deu outro pedaço. Nenhum dos valores veio do escritório, foi completamente fora do escritório. Eu paguei, financiei o saldo e estou pagando as parcelas hoje”, disse.
O escritório de Ibaneis Rocha entrou em evidência por causa da relação com fundos ligados ao Banco Master e à Reag Investimentos — investigados por fraude na Operação Compliance Zero e com suspeitas de terem operacionalizado fraudes financeiras bilionárias.
Como mostrou o Estadão, a banca vendeu pelo menos R$ 85,5 milhões em honorários a esses fundos, em negócios fechados entre 2019 e 2024. Portanto, do o início do primeiro mandato do governador até o começo das negociações do Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo distrital, com o Master, de Daniel Vorcaro.
A investigação federal aponta que o BRB foi envolvido em uma operação para tentar salvar o Master e chegou a anunciar a compra da instituição financeira que ofereceu créditos podres na negociação.
Veja a íntegra da nota da J&F:
Todo pagamento realizado pela J&F Participações se refere a produtos ou serviços comprovadamente prestados, mediante emissão de nota fiscal e recolhimento de todos os tributos devidos. Caso o relatório mencionado pela reportagem exista, configura um grave crime de quebra ilegal de sigilo bancário que as autoridades competentes têm o dever de investigar. A J&F mantém auditorias independentes que certificam e confirmam a governança e a retidão dos processos internos.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







