Queimando caixa desde 2022 para pagar juros de uma dívida crescente, o Grupo Pão de Açúcar resolveu seguir os passos de nomes como Casas Bahia e a rede de supermercados St Marche e anunciou hoje uma recuperação extrajudicial para tentar reduzir uma dívida de R$ 4,5 bilhões.
Nesse período, o grupo viu suas ações despencarem na bolsa, saindo de um valor de mercado de R$ 24 bilhões em 2021 para apenas R$ 1,2 bilhão agora.
Nos últimos anos, o grupo não vinha conseguindo uma geração de caixa suficiente para cobrir os custos da dívida, dos quais o principal é o pagamento de juros aos credores. Dados do quarto trimestre de 2025 mostram um fluxo de caixa livre operacional de R$ 669 milhões, enquanto os custos financeiros somaram R$ 920 milhões. Em 2024, foram R$ 595 milhões de custo da dívida ante uma geração de caixa operacional de R$ 256 milhões.
Nos últimos 4 anos, o GPA passou por várias trocas de comando, das quais o último nome é a chegada do novo CEO aprovado em janeiro, Alexandre Santoro e o diretor financeiro, Pedro Albuquerque, que assumiu o cargo na semana passada.

GPA vinha tendo dificuldade para gerar caixa suficiente para honrar compromissos Foto: Divulgação/Pão de Açúcar
Além da troca da administração, houve uma verdadeira mudança da composição acionária, com a entrada da família mineira Coelho Diniz ao controle, enquanto as agências de classificação de risco cortavam o rating da companhia.
No fim de fevereiro, a Fitch colocou a nota em “CCC”, nível especulativo e de empresas à beira de uma reestruturação financeira. No balanço do quarto trimestre, o grupo admitiu “incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”.
Para uma fonte que já ocupou cargo alto na rede de supermercados, decisões estratégias erradas e erros do conselho acabaram contribuindo para agravar a situação da companhia. Esta fonte menciona que o grupo interrompeu vendas de ativos que poderiam reforçar o caixa, incluindo operações no Centro-Oeste, que poderiam ser vendidas por mais R$ 300 milhões, e outras no Rio de Janeiro, que renderiam mais R$ 150 milhões.
Para um interlocutor, o problema da empresa de supermercados não era estrutural, mas de gestão do processo de desalavancagem, que exigia venda de ativos e reforço de caixa ao longo do tempo. A geração de caixa até vinha melhorando, e poderia ajudar a equilibrar a situação financeira da companhia se medidas como a venda de ativos estivessem em curso.
Para especialistas, uma recuperação extrajudicial, como a feita pelas Casas Bahia e a rede de supermercados St Marche, que conseguiram sair do processo no ano passado, é um movimento menos dramático que uma recuperação judicial, mas ainda assim fornecedores tendem a ficar desconfortáveis, o que para varejistas não é um bom sinal, pois o setor depende muito de uma boa relação com eles.
Diante desse quadro de elevada incerteza, um ex-CEO do grupo diz que o investidor perdeu a paciência. Só nos últimos 30 dias, até ontem, a ação despencou 50%. E o novo CEO prometeu organizar a casa com a RE. “Essa medida é o início de um processo de reestruturação das nossas dívidas não operacionais. Ela não envolve pagamento a fornecedor, aluguel de loja ou salário de colaborador. A operação segue funcionando normalmente”, disse Santoro ao Estadão/Broadcast.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







