Um dos nomes mais tradicionais do mercado livreiro paulista, a Livraria Cultura encerrou definitivamente as atividades neste ano, colocando fim a uma trajetória de quase oito décadas no setor. O Estadão/Broadcast apurou que o encerramento ocorre após a confirmação da falência pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, notificada à empresa neste mês. O passivo total atualizado da companhia é de R$ 288,3 milhões.

Procurado, o diretor-presidente da Cultura, Sérgio Herz, da família fundadora, não se manifestou até a publicação desta reportagem.

A rede chegou a operar 16 lojas em diferentes capitais, com presença em cidades como Rio de Janeiro, Brasília, Recife e Porto Alegre. Nos últimos anos, tentava manter operações em formato reduzido, com unidades em Higienópolis, Pinheiros e Vila Leopoldina, na capital paulista. Todas foram desativadas entre o fim de 2025 e o início de 2026. A plataforma de comércio eletrônico da empresa também saiu do ar.

A crise financeira se arrastava desde 2018, quando o grupo protocolou pedido de recuperação judicial. Desde então, houve sucessivos questionamentos de credores e pedidos de conversão do processo em falência. No fim de 2025, a administradora judicial Laspro Consultores comunicou ao juízo que constatou o encerramento das atividades sem aviso prévio, após diligências realizadas em endereços na Rua Fernão Dias, em Pinheiros, e na Avenida Angélica, em Higienópolis.

A empresa sustentou na ocasião que enfrentava dificuldades operacionais agravadas por decisões judiciais anteriores que chegaram a decretar a falência, posteriormente suspensa por decisão liminar de instância superior, e que não conseguiu retomar integralmente as operações após a lacração das lojas. De acordo com pessoas ligadas ao processo, ainda há recurso pendente, mas as atividades permanecem interrompidas há cerca de um mês.

O elevado endividamento é apontado como fator central para o desfecho. Pessoas próximas à companhia estimam cerca de R$ 70 milhões em dívidas extraconcursais, contraídas após o pedido de recuperação judicial. Desse total, aproximadamente R$ 30 milhões estariam relacionados a débitos de aluguel, apurou o Estadão/Broadcast.

A deterioração financeira, segundo relatos de pessoas que acompanharam a trajetória da empresa, antecede a saída do Conjunto Nacional. Desde então, a varejista promoveu sucessivos fechamentos de unidades e tentou reformular seu modelo de negócios, mas não conseguiu reequilibrar as contas.

Crise

A trajetória da Cultura começou em 1947, como livraria familiar em São Paulo, e ao longo das décadas consolidou-se como uma das principais redes do País. A partir dos anos 2010, porém, passou a enfrentar queda de receitas e aumento de custos, em meio à retração do mercado editorial, à digitalização do consumo e à concorrência crescente do comércio eletrônico.

Mesmo diante desse cenário, a empresa manteve um plano de expansão e, em 2017, adquiriu a operação brasileira da Fnac. No comércio digital, também foi proprietária da Estante Virtual, posteriormente vendida ao Magazine Luiza em 2020. A combinação de expansão, retração do setor e dificuldades de capitalização pressionou o caixa da empresa.

Em outubro de 2018, a companhia ingressou com pedido de recuperação judicial, declarando dívidas próximas de R$ 285 milhões à época. Durante o processo, apresentou aditivos ao plano aprovado pelos credores, mas enfrentou dificuldades no cumprimento das obrigações, além de impactos adicionais decorrentes da pandemia de covid-19, que afetou as vendas em lojas físicas.

Em fevereiro de 2023, a Justiça paulista decretou a falência após apontar descumprimento do plano e outras irregularidades. A decisão foi alvo de recursos e chegou a ser suspensa temporariamente por liminar. Ainda assim, a sequência de decisões judiciais, restrições operacionais e agravamento financeiro culminou no encerramento definitivo das atividades físicas e digitais da rede.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

You May Also Like
Perspectiva de capitalização da Raízen melhora clima com credores

Perspectiva de capitalização da Raízen melhora clima com credores

Na semana passada, os títulos da Raízen no exterior eram negociados a…
The Economist: A onda de investimentos que toma conta do Paraguai

Novo ‘el dorado’? Veja por que brasileiros estão decidindo migrar para o Paraguai e abrir negócios!

Com carga tributária de apenas 1% em alguns setores e economia em alta, o Paraguai atrai recorde de investidores e novos moradores.
CEO da Cosan diz ser ‘bastante razoável’ que companhia deixe de existir em 3 a 5 anos

Cosan pode deixar de existir em até cinco anos após mudanças estratégicas e redução de alavancagem para acionistas diretos no mercado financeiro

Marcelo Martins, CEO da empresa, projeta o fim da estrutura de holding nos próximos anos, focando na distribuição direta de participações aos sócios
Suíço Lombard Odier tem melhor ano no Brasil ao adotar assessoria local

Suíço Lombard Odier tem melhor ano no Brasil ao adotar assessoria local

Sede do banco Lombard Odier, em Genebra, na Suíça Foto: Divulgação/Lombard Odier Após…