A relação entre Brasil e China costuma ser analisada sob a lente do comércio e da geopolítica tradicional. Fala-se em superávit, dependência e diversificação de mercados. No entanto, há um eixo mais estrutural, ainda pouco incorporado à estratégia nacional: a estabilidade climática como condição para a segurança alimentar global e para a própria sustentabilidade da relação bilateral.

Nas últimas décadas, o comércio agrícola internacional cresceu de forma acelerada, enquanto a produção se concentrou cada vez mais nos trópicos. Aproximadamente metade das commodities agrícolas globais é produzida por países dessa região. O Brasil ocupa posição central nesse arranjo, liderando ou figurando entre os maiores produtores e exportadores de soja, carne bovina, açúcar, café e milho.

Para a China, maior importadora mundial de alimentos e insumos para ração, essa centralidade brasileira é estratégica. Segurança alimentar não é apenas questão de abastecimento, mas também de estabilidade social e política. O que raramente aparece no debate público é que a previsibilidade dessa oferta depende, em grande medida, de fatores ecológicos dentro do território brasileiro.

Cerca de 90% da agricultura brasileira é de sequeiro, ou seja, de culturas dependentes do regime de chuvas. Isso significa que a base competitiva do agronegócio nacional está diretamente ligada à manutenção de condições climáticas regionais estáveis. Quando o clima oscila, a produtividade média cai e a variabilidade aumenta, gerando efeitos que ultrapassam o campo e chegam aos mercados globais por meio da volatilidade de preços.

As evidências científicas tornam essa vulnerabilidade concreta. Estudo publicado em 2021 na revista Nature projeta que, em um cenário intermediário de emissões, cerca de 70% das propriedades rurais brasileiras poderão estar fora de seu espaço climático ideal até 2050. Isso implica maior exposição a estresse térmico e hídrico, com impactos sobre produtividade e risco de oferta.

A pesquisa também demonstra que mudanças no uso da terra alteram o microclima regional. Em áreas como o Xingu, observam-se elevações significativas de temperatura associadas à conversão florestal, com efeitos nos fluxos de energia e no ciclo hidrológico. Em municípios de Mato Grosso, o avanço do desmatamento está correlacionado a aumento de até 3°C na temperatura local, elevação de 22% na aridez e redução de 25% na reciclagem de água.

Esses dados deslocam o debate para além da dicotomia expansão versus preservação. A vegetação nativa exerce função física no sistema produtivo: ajuda a regular temperatura, sustentar a umidade atmosférica e manter a reciclagem de água por evapotranspiração. Em um país cuja agricultura depende majoritariamente da chuva, esse papel é estrutural.

Há também evidências de efeito direto na produtividade. A soja pode apresentar rendimento até 20% superior quando cultivada próxima a áreas florestais, especialmente em faixas de até cerca de 100 metros da vegetação nativa. A configuração da paisagem, portanto, influencia o desempenho produtivo.

O conjunto dessas pesquisas conduz a uma conclusão estratégica: floresta não é apenas ativo ambiental, mas infraestrutura produtiva. Em termos econômicos, trata-se de capital natural que reduz risco climático e protege a estabilidade da oferta agrícola.

Essa constatação também reposiciona a relação Brasil–China. Como grande importadora de grãos e proteínas, qualquer aumento no risco de ruptura de oferta ou na volatilidade de preços impacta diretamente a economia chinesa. Se a base produtiva brasileira se torna mais vulnerável ao clima, esse risco deixa de ser apenas nacional e passa a ser bilateral.

O 15º Plano Quinquenal da República Popular da China fixa um novo momento para a relação bilateral. Os chineses adotarão como regra a preservação como indicador. Até 2030, vão investir no aumento da capacidade de produção de grãos, ampliando área de cobertura florestal e reduzindo emissões de carbono.

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Nesse contexto, ganha relevância uma agenda de cooperação voltada à transição ecológica no uso da terra. Iniciativas recentes apontam nessa direção, desde a adoção de padrões de sustentabilidade por empresas chinesas até a discussão de instrumentos financeiros capazes de valorizar a conservação florestal. A relação comercial entre os dois países — que já representa o maior fluxo global de commodities agrícolas — cria escala suficiente para testar novos mecanismos que associem acesso a mercado, estabilidade climática e manutenção de capital natural.

No Brasil, o setor produtivo responde a incentivos claros. Hoje, manter vegetação nativa frequentemente implica custo imediato para o produtor, enquanto o ganho em estabilidade climática aparece de forma difusa e no longo prazo. O desafio estratégico é transformar a redução de risco climático em valor econômico concreto nas cadeias comerciais e financeiras.

Isso envolve incorporar métricas de risco climático ao crédito e ao investimento, estruturar instrumentos que reconheçam a estabilidade territorial como ativo econômico e ampliar mecanismos que remunerem práticas produtivas compatíveis com a conservação. Iniciativas internacionais de financiamento florestal, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), apontam caminhos possíveis para fortalecer essa arquitetura.

A vantagem comparativa brasileira no século 21 dependerá da capacidade de sustentar produtividade em um cenário de estresse climático crescente. Se o País conseguir integrar floresta e agricultura como dimensões de um mesmo sistema produtivo, poderá oferecer ao mercado internacional algo cada vez mais escasso: regularidade de oferta em um planeta instável.

Mais do que uma agenda ambiental, trata-se de uma questão de competitividade econômica e de segurança alimentar global. Em um mundo marcado por mudanças climáticas aceleradas e pela fragilização do multilateralismo, a cooperação entre Brasil e China pode transformar estabilidade ecológica em um novo pilar da relação estratégica entre produtores e consumidores de alimentos.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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