O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) decidiu aprofundar a apuração sobre a forma como o Google utiliza conteúdo jornalístico sem remunerar os veículos de imprensa. A deliberação, ocorrida em Brasília, inclui agora a análise da inteligência artificial (IA) generativa que vem sendo usada para criar resumos de notícias diretamente na página de busca.
Originalmente, o inquérito, iniciado em 2019, investigava a prática de “scraping” de matérias, que faria o Google exibir trechos de artigos sem que o usuário precisasse acessar o site original. Agora, a presença de IA que gera resumos – o chamado AI overview – está sendo considerada como possível violação da ordem econômica.
Segundo o Estadão, a decisão foi tomada por unanimidade e determina o retorno dos autos à Superintendência‑Geral para eventual imposição de sanções, ampliando a investigação que já durava quase cinco anos.
Aprofundamento da investigação e argumentos dos conselheiros
Na sessão de 23 de julho, o plenário aprovou o voto‑vista do conselheiro Diogo Thomson, presidente interino do Cade, com ajustes da conselheira Camila Cabral. Ela ressaltou a necessidade de uma análise mais densa dos custos editoriais e da estrutura econômica do jornalismo, apontando que a IA pode “desviar tráfego” dos sites de mídia.
Os conselheiros Carlos Jacques e José Levi, ainda que não tenham apresentado votos formais, manifestaram apoio ao aprofundamento, destacando que a IA representa “uma ruptura tecnológica” que pode gerar abuso de exploração ou dependência econômica.
Histórico do caso no Cade
O tema está em pauta no órgão de defesa da concorrência desde 2019. Após ser arquivado no fim de 2024, a conselheira Camila Cabral solicitou avocação em março de 2025, levando o processo à pauta do tribunal. O ex‑conselheiro Gustavo Augusto, relator anterior, havia recomendado o arquivamento, alegando que os resumos do Google aumentariam o tráfego para os veículos.
Reação dos veículos de mídia
Associações como a Ajor, Repórteres Sem Fronteiras e o Idec apresentaram dados do Pew Research Center mostrando que a presença de AI overview reduz a taxa de cliques de 15 % para 8 % e aumenta o abandono de sessões de 16 % para 26 %. Apenas 1 % das visitas resultam em cliques nos links citados nos resumos de IA.
O Idec destacou que, mesmo em dispositivos móveis, a exibição de IA pode reduzir em até dois terços os cliques nos sites dos publishers, comprometendo a viabilidade econômica do jornalismo profissional.
Posição da Associação Nacional de Jornais (ANJ)
A ANJ alertou que o arquivamento do inquérito seria “retrocesso injustificável” e poderia gerar danos irreparáveis ao mercado de notícias, ameaçando a diversidade informativa no ambiente digital brasileiro.
Perspectivas para a economia digital
O presidente interino Diogo Thomson destacou que o plenário julgou dois casos “importantíssimos” relativos à economia digital, incluindo o uso de chatbots de IA no WhatsApp. Ele afirmou que a avocação e os votos‑vista demonstram um esforço colegiado claro para priorizar investigações sobre grandes plataformas digitais.
A fonte original da matéria é a Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo.







