O Governo Federal está avaliando a criação de uma linha de crédito específica para auxiliar motoristas de aplicativo na compra ou troca de veículos. A iniciativa busca atender a uma demanda crescente de milhares de profissionais que dependem de um carro para exercer suas atividades diárias.

Dados do setor revelam que a necessidade é significativa: nove em cada dez motoristas expressam interesse em adquirir um novo automóvel ou substituir o atual. Além disso, muitos profissionais optam pelo aluguel de veículos, indicando a dificuldade de acesso à propriedade.

Embora a proposta esteja em discussão interna há alguns meses, questões técnicas e o cenário de mudanças ministeriais, devido às eleições de outubro, têm desafiado seu avanço. A informação foi primeiramente publicada pelo jornal Valor Econômico e confirmada por integrantes do governo ao Estadão/Broadcast.

Linha de Crédito para Motoristas de Aplicativo: Uma Necessidade Crescente

Um estudo do Instituto Datafolha, realizado em 2025 com motoristas ativos da Uber, mostra que 87% dos condutores têm o desejo de comprar ou trocar de carro nos próximos três anos. Desses, a vasta maioria, 88%, pretende recorrer ao financiamento, enquanto apenas 12% consideram o pagamento à vista.

Para aqueles que não planejam a troca, a principal justificativa é que o veículo atual ainda é relativamente novo. A pesquisa também apontou que três em cada quatro motoristas, ou 74%, são proprietários do carro que utilizam para trabalhar, e mais da metade (56%) ainda está pagando o financiamento, geralmente com prazos superiores a três anos.

Entre os profissionais que não possuem veículo próprio, mais da metade (57%) utiliza um carro fornecido por empresas, e a maioria deles, 73%, paga aluguel por esse uso. Nesse contexto, um programa de crédito ou subsídio seria fundamental. As opções mais úteis identificadas incluem financiamento com juros reduzidos e a isenção ou redução de impostos.

Desafios e Próximos Passos para o Crédito

Apesar da clara demanda e do potencial benefício para os motoristas de aplicativo, a implementação da linha de crédito enfrenta obstáculos. Integrantes do governo apontam dificuldades técnicas que precisam ser superadas para que a proposta possa, de fato, avançar e se concretizar em uma medida efetiva.

O cenário político atual, com ministros deixando suas pastas para concorrer às eleições de outubro e a subsequente nomeação de sucessores, adiciona uma camada de incerteza. As definições ministeriais, que têm prazo final para desincompatibilização em 4 de abril, ainda estão em andamento e podem impactar o ritmo das discussões sobre a medida.

Renovação de Frotas de Caminhões e o Programa Move Brasil

Paralelamente, o governo federal estuda uma nova fase da linha de renovação da frota de caminhões, conhecida como programa Move Brasil. Essa iniciativa, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), tinha previsão inicial de seis meses, mas esgotou seus recursos em apenas três meses, desde o início em 8 de janeiro de 2026.

A alta procura demonstra o sucesso da medida, que também contribuiu para a manutenção de empregos nas montadoras de caminhões, que estavam operando com capacidade ociosa. Foram destinados R$ 10 bilhões em crédito, combinando recursos do Tesouro Nacional e do BNDES, com juros abaixo do mercado.

O financiamento foi ofertado para a aquisição de caminhões novos ou seminovos, beneficiando profissionais autônomos, cooperados e empresas de transporte. O limite estabelecido por usuário do programa é de até R$ 50 milhões, com prazo máximo de cinco anos para pagamento e carência de até seis meses.

O Sucesso do Move Brasil e Seus Impactos

O sucesso e a rápida exaustão dos recursos do Move Brasil levaram o governo a avaliar uma nova edição do programa. Nessa próxima etapa, alguns critérios de financiamento podem ser revisados. Atualmente, os juros anuais máximos variam entre 13% e 14%, dependendo da classificação de risco dos mutuários, já incluindo custos financeiros e o spread bancário.

Todas as operações podem ser protegidas pelo Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), oferecendo garantias de até 80% do valor financiado. Um incentivo adicional é a possibilidade de reduzir ainda mais os juros da operação para quem comprovar a entrega de um caminhão velho para reciclagem. O financiamento de caminhões novos é restrito a veículos de fabricação nacional, alinhando os recursos públicos aos objetivos da Nova Indústria Brasil (NIB).

Motos e Carros Populares Fora do Radar Governamental

Apesar das discussões sobre o crédito para motoristas de aplicativo e a renovação da frota de caminhões, o governo não tem, por ora, planos para medidas voltadas a motos e carros populares, ou “de entrada”. No caso das motos, o principal impedimento é a concentração da fabricação nacional na Zona Franca de Manaus, que já usufrui de benefícios fiscais.

Embora tenham sido propostas contrapartidas pelas montadoras, um acordo com o setor não foi alcançado. Além disso, o mercado de motos está em alta, com produção e vendas batendo recordes no país. Outro fator crucial considerado pelo governo é o alto índice de inadimplência neste segmento, o que eleva os riscos.

Para os carros populares, a percepção do governo é que as montadoras consideram os modelos “de entrada”, com custos até R$ 70 mil (como Mobi, Kwid e C3), pouco lucrativos, sendo fabricados apenas no Brasil. Com o aumento da renda da população brasileira, a demanda se deslocou para veículos com maior valor agregado.

Por Que Carros Populares e Motos Ficam de Fora?

Em dezembro de 2025, durante a inauguração da linha de montagem do elétrico Chevrolet Spark no Ceará, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a importância de melhorar a distribuição de renda e de as marcas oferecerem carros mais acessíveis, declarando: “A gente trabalha para ter acesso às coisas que a gente produz.”

Contudo, fontes dentro do próprio governo argumentam que os brasileiros têm optado por veículos mais caros, influenciados pelo crédito mais acessível e pelo ganho real do salário mínimo. De modo geral, interlocutores afirmam que o setor automotivo, como outros bens de consumo duráveis, sofre intensamente com os juros elevados, já que poucos consumidores compram veículos à vista.

A avaliação é que os carros de entrada dificilmente retornarão ao patamar de R$ 50 mil, e a retomada da atratividade para a compra de veículos depende, fundamentalmente, da redução das taxas de juros no país.

A fonte original desta notícia é o Estadão, e a matéria completa pode ser acessada em Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo.

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