A corrida por chips de memória volátil (RAM) para uso em sistema de inteligência artificial (IA) já afeta preços de diversos eletrônicos, mas os notebooks podem estar em risco de desabastecimento global. No ano passado, o segmento de PCs e notebooks cresceu 6,6%, segundo a consultoria IDC, mas o novo baque pode reduzir as vendas desses produtos. No cenário pessimista, o mercado terá retração de 8,9%.

O segmento de PCs e notebooks foi pego no que os especialistas chamam de uma tempestade perfeita. A escassez de chips ocorre em um momento em que o setor está em uma etapa de transição. Com o fim do suporte do sistema operacional Windows 10 em outubro, que deve impulsionar a demanda por novos dispositivos, e a cadeia de fornecimento de memória defasada, os produtos podem ficar mais raros e caros no mercado global.

Segundo a IDC, as grandes fabricantes de computadores estimam aumentos de preços entre 15% e 20% e renegociações de contratos como resposta generalizada do setor. No Brasil, o aumento de preços pode ser ainda maior, a depender da trajetória do dólar.

“Fabricantes de PCs estão sinalizando aumentos generalizados de preços à medida que as pressões de custos se intensificam no segundo semestre de 2026. Lenovo, Dell, HP, Acer e Asus alertaram seus clientes sobre condições mais difíceis pela frente, confirmando aumentos de 15% a 20% e renegociações de contratos como resposta generalizada do setor”, segundo análise do IDC.

Os grandes nomes do mercado global do setor devem estar melhor posicionados por anteciparem as compras de chips, antevendo a escassez desses componentes para os PCs e notebooks.

Na prática, o que pode ocorrer neste ano diante do cenário atual é uma maior concentração das vendas de dispositivos nas mãos das maiores marcas, com as menores perdendo espaço por falta de capacidade de investimento antecipado e força de negociação por buscarem volumes menores de chips.

Em relatório de fevereiro, a consultoria Gartner estima um aumento de 130% nos preços combinados de memória DRAM (memória volátil) e unidades de estado sólido (SSDs, usados para armazenamento permanente de dados) até o final de 2026. A previsão global é de um aumento de preços de computadores em 17%, enquanto os de smartphones devem subir 13%, ambos em comparação com os níveis de 2025. Por isso, prevê a consultoria, a demanda se voltará a dispositivos mais caros, reduzindo a demanda por aparelhos de entrada.

“Esta é a maior contração nas remessas de dispositivos vista em mais de uma década. Os preços mais altos reduzirão a gama de dispositivos disponíveis, levando os compradores a manterem seus dispositivos por mais tempo, alterando fundamentalmente os ciclos de atualização”, diz, na análise, Ranjit Atwal, diretor sênior de análises do Gartner.

Para Carlos Rafael Gimenes das Neves, professor do curso de ciência de dados e negócios da ESPM, lembra que o computador ainda é muito utilizado para tarefas de trabalho mais intensas, que muitas vezes não são tão bem executadas por meio do celular.

“Mesmo quem historicamente não usava computador para trabalhar, com a explosão da IA generativa, muita gente começou a ir para um computador para poder ter esse tipo de ferramenta, para poder ter esse aparato de ganho de produtividade”, afirma.

Neves também conta que os dispositivos mais básicos, aqueles computadores pensados só para acessar à internet, devem estagnar, com fabricantes se voltando a aparelhos mais sofisticados devido ao aumento de preços de componentes.

“As empresas vão focar em lançamentos de mais alto desempenho. É onde a margem fica um pouquinho maior, diferente do notebook do tipo ‘carro popular’”, diz.

De acordo com Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, as empresas mais verticalizadas, que produzem partes importantes do que precisam para fabricar seus produtos, tendem a se beneficiar nesse cenário.

“A Apple, por exemplo, ao longo do tempo apostou no seu chip próprio e agora usa essa vantagem competitiva para não só ter ele no iPhone, mas para lançar o MacBook Neo com o mesmo chip. Ou seja, ter essa independência parece que vai ser uma vantagem competitiva importante”, afirma.

Igreja também lembra que, se a escassez de chips de memória atinge as grandes fabricantes globais de PCs e notebooks, as empresas brasileiras podem observar um maior impacto nas suas operações.

“É uma questão de escala e de poder de negociação. A tendência é que, nos mercados que não são tão pujantes em dólar, como é o caso do Brasil, com as questões de moeda e tributárias, os fabricantes ou integradores locais devem ficar num segundo plano nessa escala de prioridade e suprimento”, diz o especialista.

Computadores com IA

Na era da IA, os computadores estão adentrando uma tendência tecnológica conhecida como edge computing, computação de borda, no jargão do mercado. Trata-se de ter um chip dedicado para o processamento de soluções de IA, como geração de texto ou edição de imagem. Esse componente é chamado de Unidade de Processamento Neural (NPU). A diferença é que uma parte é processada por esse chip, localmente, enquanto a outra é enviada para o processamento na nuvem da empresa que é dona do software em questão.

Na prática, essa é uma forma de reduzir o custo de servidores, manter a privacidade do usuário no caso de dados sensíveis e também oferecer resultados mais rápidos para os usuários de computadores.

Porém, a escassez global de chips também pode impactar essa tendência de mercado. Mesmo que os produtos tenham esses novos NPUs, ainda vão precisar da memória RAM, que está em falta no mundo. Isso cria um dilema: esses produtos poderiam ajudar a reduzir o uso de RAM nos servidores de empresas de IA, mas o mercado não consegue produzi-los em larga escala porque falta memória RAM para eles.

Segundo análise do IDC, a escassez de chips de memória ameaça comprometer a narrativa de crescimento da indústria em torno dos PCs com IA. “Justamente quando a indústria percebe a necessidade de adicionar mais RAM, o custo para isso se tornou proibitivo, mesmo para quem consegue obter o fornecimento. Isso resultará em preços mais altos, margens menores ou uma potencial redução na quantidade de RAM em novos sistemas, no pior momento possível para isso acontecer”, segundo o relatório.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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