A liquidação extrajudicial do Banco Master e a Operação Compliance Zero não são apenas mais um capítulo policial. Revelam uma falha de supervisão que permitiu que um problema regulatório se transformasse em escândalo criminal, com impacto sistêmico e uma conta elevada para todo o sistema financeiro.
Os sinais estavam à vista. O Master ganhou mercado oferecendo CDBs acima do padrão de bancos médios, enquanto investigações apontam créditos fictícios e manobras contábeis hoje alvo da Polícia Federal. Parte desses papéis foi parar em fundos de investimento e regimes de previdência, ligando investidores de varejo e servidores públicos a uma instituição com graves problemas de governança.

A diferença do mercado financeiro americano está na rapidez, na integração e na previsibilidade da resposta das autoridades Foto: Timothy A. Clary/AFP
Nada disso acontece no vácuo. O caso Americanas expôs um rombo contábil relevante; Ambipar, Reag e a operação Carbono Oculto trouxeram suspeitas de manipulação de preços, estruturas opacas e lavagem de dinheiro com uso de fundos. Em comum, a promessa de retornos “fáceis” e o mercado de capitais usado para empurrar risco excessivo adiante.
Esse roteiro não é exclusividade brasileira. O mercado americano conviveu com fraudes como a de Bernard Madoff e casos de insider trading e manipulação que terminaram em penas e multas bilionárias. A diferença está na rapidez, na integração e na previsibilidade da resposta das autoridades.
É aqui que o Brasil se mostra mais vulnerável. Nosso mercado é pequeno, concentrado e com baixa participação de pessoas físicas. Em um ambiente raso, cada escândalo fragiliza a confiança, encarece o capital e afasta projetos produtivos.
A pergunta central, portanto, não é se fraudes continuarão a existir, mas se o arranjo institucional brasileiro está preparado para identificá-las e contê-las antes que virem crises de confiança.
No caso Master, juros acima da média, concentração em poucos fundos, uso intenso do FGC como argumento de venda e operações complexas já justificariam supervisão especial. Banco Central, CVM, Coaf e o FGC tinham elementos para agir de forma coordenada, cruzando sinais de crédito, de mercado e de movimentações suspeitas.
O Brasil avançou ao fortalecer a autonomia do Banco Central e modernizar a CVM, mas falta transformar essa arquitetura em supervisão integrada, com dados compartilhados e capacidade de intervenção preventiva.
Em um país cujo mercado de capitais é frágil e em formação, tratar cada escândalo como episódio isolado é um luxo que não temos. Finanças vivem de confiança; quando ela se rompe, quem paga a conta não é só a empresa que quebrou, mas o projeto de desenvolvimento baseado no mercado de capitais.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







