A liquidação extrajudicial do Banco Master e a Operação Compliance Zero não são apenas mais um capítulo policial. Revelam uma falha de supervisão que permitiu que um problema regulatório se transformasse em escândalo criminal, com impacto sistêmico e uma conta elevada para todo o sistema financeiro.

Os sinais estavam à vista. O Master ganhou mercado oferecendo CDBs acima do padrão de bancos médios, enquanto investigações apontam créditos fictícios e manobras contábeis hoje alvo da Polícia Federal. Parte desses papéis foi parar em fundos de investimento e regimes de previdência, ligando investidores de varejo e servidores públicos a uma instituição com graves problemas de governança.

Nada disso acontece no vácuo. O caso Americanas expôs um rombo contábil relevante; Ambipar, Reag e a operação Carbono Oculto trouxeram suspeitas de manipulação de preços, estruturas opacas e lavagem de dinheiro com uso de fundos. Em comum, a promessa de retornos “fáceis” e o mercado de capitais usado para empurrar risco excessivo adiante.

Esse roteiro não é exclusividade brasileira. O mercado americano conviveu com fraudes como a de Bernard Madoff e casos de insider trading e manipulação que terminaram em penas e multas bilionárias. A diferença está na rapidez, na integração e na previsibilidade da resposta das autoridades.

É aqui que o Brasil se mostra mais vulnerável. Nosso mercado é pequeno, concentrado e com baixa participação de pessoas físicas. Em um ambiente raso, cada escândalo fragiliza a confiança, encarece o capital e afasta projetos produtivos.

A pergunta central, portanto, não é se fraudes continuarão a existir, mas se o arranjo institucional brasileiro está preparado para identificá-las e contê-las antes que virem crises de confiança.

No caso Master, juros acima da média, concentração em poucos fundos, uso intenso do FGC como argumento de venda e operações complexas já justificariam supervisão especial. Banco Central, CVM, Coaf e o FGC tinham elementos para agir de forma coordenada, cruzando sinais de crédito, de mercado e de movimentações suspeitas.

O Brasil avançou ao fortalecer a autonomia do Banco Central e modernizar a CVM, mas falta transformar essa arquitetura em supervisão integrada, com dados compartilhados e capacidade de intervenção preventiva.

Em um país cujo mercado de capitais é frágil e em formação, tratar cada escândalo como episódio isolado é um luxo que não temos. Finanças vivem de confiança; quando ela se rompe, quem paga a conta não é só a empresa que quebrou, mas o projeto de desenvolvimento baseado no mercado de capitais.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

You May Also Like
Casas de luxo a sócios e cuidados para ocultar sociedade: a longa ligação de Toffoli com o Tayayá

Casas de luxo a sócios e cuidados para ocultar sociedade: a longa ligação de Toffoli com o Tayayá

Convidados de Toffoli não foram cobrados em festa de Ano Novo no…
Ajuda aos endividados que o governo promete hoje traz um desserviço para a economia de amanhã

Ajuda aos endividados prometida pelo governo: entenda os benefícios, custos e impactos na economia brasileira

Governo anuncia medida de alívio financeiro, mas especialistas alertam sobre riscos macroeconômicos
União Europeia prepara eliminação de tarifas industriais dos EUA, com gatilho de suspensão

União Europeia prepara eliminação de tarifas industriais dos EUA, com gatilho de suspensão

O Parlamento Europeu aprovou nesta quinta-feira, 26, salvaguardas para o acordo comercial…
‘Operação abafa’ enterra CPIs no Congresso por medo de descobertas sobre o caso Master

Operação Abafa: fim das CPIs do INSS e do Crime Organizado aumenta risco de impunidade no Caso Master e pode envolver STF, Congresso e Executivo

Entenda como o encerramento das comissões parlamentares pode afetar as investigações sobre o Banco Master e a participação de ministros da Suprema Corte