Petróleo e gás disparam; Bolsas operam em queda após ataques ao Irã

Guerra lançada pelos EUA e Israel contra o Irã afeta a economia mundial. Hoje, preço do petróleo e do gás dispararam enquanto as Bolsas operavam em queda. Crédito: Crédito: AFP

RIO – Os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã no fim de semana adicionaram uma camada de volatilidade ao mercado futuro de petróleo, semanas depois da investida americana na Venezuela. As ações da Petrobras encerraram a segunda-feira, 2, em alta de 4,96% (ordinárias) e 4,58% (preferenciais), sob o impulso do salto de 7,68% do petróleo Brent e de 6,98% do WTI, com a percepção de risco à oferta global da matéria-prima. A extensão do conflito, porém, pode pressionar a estatal a rever preços dos combustíveis e pressionar a inflação no Brasil.

O mercado mantém o foco no Estreito de Ormuz, rota por onde transita cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do planeta. O tráfego de navios-tanque no corredor marítimo já diminuiu de forma expressiva, reflexo da maior cautela de produtores e armadores após relatos de embarcações danificadas.

Navios petroleiros acima do estreito aguardam para descer, enquanto os posicionados abaixo do acesso aguardam para subir, explica o presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (IBP), Roberto Ardenghy.

“O Oriente Médio é importante pela exportação de petróleo, 80% do petróleo produzido é exportado pelo Estreito de Ormuz. Hoje em dia tem muita resistência das empresas de navegação de passarem por ali”, informa Ardenghy. Ele ressalta que é muito difícil saber por quanto tempo isso será sustentado, mas que o Brasil tem a vantagem de ter segurança energética: “É talvez até uma oportunidade de negócio para o petróleo do Brasil”.

Pelos cálculos do Goldman Sachs, se apenas 50% do fluxo pelo estreito for mantido por um mês, o reflexo no prêmio de risco é estimado em US$ 4 por barril. O banco manteve inalterado o cenário base para o preço da energia.

Em nota, a Petrobras afirma que possui rotas alternativas à região do conflito que garantem segurança e custos competitivos. “Os fluxos de importação são majoritariamente fora da região de crise, e as poucas rotas de importação que existem podem ser redirecionadas. Não há risco de interrupção das importações e exportações no momento”, comenta.

E a importação de derivados?

Já Evaristo Pinheiro, presidente da Refina Brasil, entidade representante das refinarias independentes, teme que o País possa sofrer problemas no suprimento de derivados diante da corrida global pelos insumos. O executivo defende que, no curto prazo, seja elevado o Fator de Utilização Total (FUT) das refinarias brasileiras para 97%/98%, além do incremento nos estoques.

“Com o petróleo a US$ 100, deixamos na mesa quase R$ 30 bilhões por ano em preço de transferência de petróleo, royalties, participações especiais, lucro em óleo e imposto de renda”, afirma. O preço de transferência do petróleo é uma bandeira antiga da Refina Brasil para estimular a expansão do refino.

Para o presidente da associação que representa as empresas de bens e serviços do setor, Abespetro, Telmo Ghiorzi, não haverá problemas de abastecimento. Pelo contrário, na avaliação do executivo, se o preço continuar subindo, alguns projetos de exploração que hoje no Brasil seriam inviáveis do ponto de vista econômico se tornem viáveis. “Mas vamos ter de esperar de três a seis meses para ter certeza de que o cenário de conflito vai ser duradouro, mas acho isso improvável”, afirma. O impacto para o Brasil seria residual, diz.

Qual é o impacto para a Petrobras?

A Petrobras não pratica a política de paridade de importação (PPI) desde 2023, como forma de evitar que a volatilidade do mercado externo seja incorporada automaticamente ao mercado doméstico, o que deve adiar o anúncio de aumento para os seus derivados.

Por outro lado, a receita da companhia, exportadora de petróleo, deve crescer no curto prazo, abrindo uma janela para que projetos arquivados por conta do baixo preço do petróleo saiam do papel. No seu Plano de Negócios 2026-2030, a estatal separou US$ 10 bilhões em projetos que não se mostravam economicamente viáveis e que são revistos trimestralmente pela diretoria.

Ainda assim, os investidores tendem a cobrar uma posição da estatal se a pressão dos acontecimentos globais vier acompanhada de um câmbio mais depreciado por algumas semanas, diz o analista da Ouro Preto Investimentos, Sidney Lima.

“Não existe um prazo fixo”, diz, “mas, historicamente, quando a diferença de preços se mantém relevante por um período mais longo, aumenta a pressão para algum tipo de recalibração, porque o mercado precifica quase de forma automática a melhora no potencial de geração de caixa do segmento de exploração e produção”.

O analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, observa que a alta do petróleo reduz o risco de execução do Plano de Negócios da Petrobras para o período 2026-2030. “Eu fui crítico quando eles (Petrobras) colocaram US$ 67 o barril na previsão do plano, quando tínhamos petróleo mais baixo, de US$ 60″, lembra. “Mas esse petróleo mais alto agora tira o risco de execução do plano.”

E se o petróleo chegar a US$ 100?

Considerando que o conflito não ganhe larga escala, como uma retaliação direta contra a infraestrutura energética do Golfo, onde estão instalações petrolíferas de aliados dos EUA, o Scotiabank não vê suporte para a commodity avançar para a casa dos US$ 100 o barril. Na avaliação do banco, o ataque não surpreendeu, já que os EUA vinham reunindo forças militares na região e houve a recomendação de evacuação feita pelo embaixador americano em Israel.

David Zylberstajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e professor da PUC-Rio, também aponta um grau altamente especulativo para o avanço da commodity, como aconteceu na guerra da Rússia contra a Ucrânia.

“Muita gente vai ganhar dinheiro com a especulação, não é petróleo físico”, diz. “O barril a US$ 100 hoje é muito mais barato do que o barril a US$ 100 há 15 anos e, mesmo naquela época, a economia reagiu bem.”

Em termos macroeconômicos, a leitura inicial da Eleven Research é de que, se o conflito não for solucionado no curto prazo, o aumento do preço da commodity pode elevar a inflação e dificultar a redução da taxa básica de juros da economia, a Selic.

“O mesmo vale para outros bancos centrais ao redor do mundo, principalmente na Ásia e na Europa, que podem reduzir drasticamente as expectativas de novos cortes de juros ou até levar alguns países a aumentar a taxa de juros”, diz o estrategista Fernando Siqueira.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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