O Banco Central (BC) tem repetido que a política monetária exige cautela. O princípio é correto. O problema é que, em determinadas circunstâncias, cautela excessiva também pode gerar custos relevantes para a economia.

A escalada do conflito no Oriente Médio tende a provocar severos choques de oferta, pois ameaça cadeias produtivas e rotas comerciais. O impacto inicial é o aumento do custo de insumos estratégicos, como petróleo, fertilizantes, matérias-primas industriais e transporte internacional.

Depois podem vir os efeitos secundários desses choques, com elevação de outros preços da economia. Por ora, porém, trata-se de um caso típico de choque de oferta, não de elevação da demanda, e assim deveria ser tratado pelo BC.

Esse tipo de inflação coloca a política monetária diante de um dilema: reagir de forma excessivamente dura, com juros elevados que pouco fazem para resolver o choque de custos, ou adotar atitude mais amena e tolerar temporariamente uma inflação um pouco mais alta.

Se o atual conflito geopolítico se prolongar, é provável que vejamos exatamente esse tipo de pressão inflacionária em escala global. No caso brasileiro, os efeitos podem ir além da energia. Fertilizantes importados, matérias-primas industriais e até medicamentos, muitos deles produzidos com insumos vindos da Índia, podem enfrentar dificuldades logísticas.

Nesse contexto, seria prudente que o BC evitasse reagir de forma precipitada. O ideal é manter a estratégia já anunciada de redução gradual da Selic. Claro, deve permanecer vigilante caso o choque de custos gere efeitos secundários, como pressões salariais mais disseminadas ou um processo mais intenso de indexação da inflação.

Hoje, o Brasil convive com uma taxa Selic ao redor de 15% ao ano, enquanto a inflação acumulada em 12 meses está em 3,81%. Manter juros tão elevados por muito tempo cobra um preço alto da economia, acelerando o endividamento público e privado.

O impacto já começa a aparecer no balanço das empresas, inclusive no eficiente setor agropecuário. Em 11 de março, a Raízen, uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do mundo, entrou com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas.

Os juros elevados têm peso relevante nisso, embora não sejam a única causa. A Raízen é apenas um exemplo eloquente de muitas empresas em dificuldades.

A política monetária não afeta apenas a inflação. Ela também influencia o custo da dívida pública, a saúde financeira do setor privado e a capacidade de investimento da economia. Choques de oferta exigem vigilância. Mas exigem também cautela na dose de cautela.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

You May Also Like
‘Fatos envolvendo ex-presidente do BRB são de competência da Justiça’, diz governadora do DF

Entenda a acareação entre Daniel Vorcaro e o ex‑presidente do BRB: impactos políticos e judiciais no Distrito Federal

Governadora do DF destaca competência do Judiciário e cooperação do Governo na investigação
Flávio Bolsonaro defende remuneração por hora trabalhada como alternativa ao fim da escala 6x1

Flávio Bolsonaro propõe remuneração por hora como alternativa ao fim da escala 6×1 buscando maior flexibilidade e novos direitos para trabalhadores

Senador defende modelo de remuneração por hora garantindo benefícios trabalhistas proporcionais para oferecer mais liberdade ao mercado brasileiro
Dia da marmota: setor elétrico está preso no mesmo lugar anos a fio

Setor elétrico está preso no mesmo lugar há anos: entenda por que as tarifas de energia continuam subindo e quem realmente paga a conta

Análise dos custos, subsídios e a CDE que elevam a conta de luz no Brasil
Tecnologia transformou as pessoas em matéria-prima econômica, e a humanidade virou negócio

Como a economia da atenção transformou o comportamento infantil em um ativo valioso para as gigantes de tecnologia globais no cenário atual

O impacto da tecnologia nas relações familiares e o crescimento financeiro das Big Techs através da exploração do tempo e dados de cada usuário