O Brasil aprendeu, nas últimas décadas, a celebrar o agro apenas quando os números impressionam: recordes de safra, superávits comerciais, protagonismo nas exportações. Quando os números ficam aquém do esperado, torna-se vilão.

Mas quem está no campo sabe que, por trás de cada estatística, há risco, endividamento, noites maldormidas e uma enorme responsabilidade. Não produzimos apenas commodities; produzimos alimento para o Brasil e para boa parte do mundo. E isso exige mais do que discursos: exige um projeto de País.

O produtor rural brasileiro assumiu, com eficiência e tecnologia, a missão de garantir segurança alimentar a milhões de pessoas. Em regiões que antes eram vistas como inóspitas, a agricultura floresceu com inovação, pesquisa e trabalho duro.

Hoje, o Brasil é um dos maiores exportadores globais de soja, milho, carnes e fibras. Somos parte essencial do equilíbrio alimentar internacional. Mas continuamos operando sob incerteza permanente.

A cada Plano Safra, a expectativa é a mesma: haverá crédito suficiente? As taxas serão compatíveis com a realidade do campo? O seguro rural terá recursos para proteger a produção diante de secas, enchentes e geadas cada vez mais frequentes?

Não é razoável que um setor responsável por parcela tão expressiva do PIB e das exportações dependa de anúncios anuais, sujeitos a contingenciamentos e cortes.

É hora de pensar grande. O Brasil precisa de um verdadeiro “Projeto Brasil” — um programa estruturante, de longo prazo, inspirado em iniciativas consolidadas como os Farm Bills dos Estados Unidos — para o desenvolvimento sustentável das cadeias produtivas ao longo de 10 a 20 anos.

Lá, o campo é tratado como questão estratégica de Estado. Há previsibilidade, políticas plurianuais, mecanismos robustos de crédito, seguro e apoio à renda. O produtor planeja cinco, dez anos à frente. Aqui, muitas vezes, mal conseguimos enxergar a próxima safra com segurança.

Um “Projeto Brasil” deve começar pelo fortalecimento do crédito rural. Não basta ampliar volumes anunciados; é preciso garantir que os recursos cheguem na ponta, com juros compatíveis, prazos adequados e menos burocracia.

Pequenos, médios e grandes produtores precisam de linhas que dialoguem com suas realidades, que incentivem tecnologia, irrigação, agricultura de precisão, sustentabilidade e recuperação de áreas degradadas.

O seguro rural, por sua vez, não pode continuar sendo tratado como acessório. Com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, produzir virou um exercício de coragem. Sem cobertura ampla e previsível, o risco recai quase integralmente sobre o produtor.

Um sistema consistente de subvenção ao prêmio do seguro, com recursos estáveis e regras claras, é fundamental para garantir renda, evitar quebras em cadeia e dar tranquilidade a quem planta e cria.

Infraestrutura é outro pilar inadiável. Estradas precárias encarecem o frete, aumentam perdas e corroem a competitividade. Falta armazenagem em muitas regiões, obrigando o produtor a vender na colheita, pressionado por logística e fluxo de caixa.

Investir em rodovias, ferrovias, portos e armazéns não é gasto: é estratégia. Cada real aplicado em infraestrutura reduz custos, amplia margens e fortalece a posição do Brasil no comércio internacional.

Um “Projeto Brasil” precisa ser política de Estado, não de governo. Deve atravessar mandatos, oferecer estabilidade regulatória, segurança jurídica e respeito aos contratos. O produtor rural não quer privilégio; quer previsibilidade. Quer saber que, ao investir em tecnologia, abrir novas áreas ou modernizar sua propriedade, haverá um ambiente confiável para colher os frutos do seu trabalho.

Somos responsáveis por alimentar parte significativa da população mundial. Essa missão exige coragem, mas também exige apoio. Se o Brasil deseja continuar sendo potência agropecuária e protagonista na segurança alimentar global, precisa tratar o campo como prioridade estratégica permanente. Chegou a hora de transformar o potencial em política de longo prazo, com investimentos de longo prazo. O produtor rural brasileiro está fazendo a sua parte.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

You May Also Like
Medidas parafiscais somaram R$ 220 bilhões em 2025

Ajuste fiscal de R$ 2,6 trilhões até 2036: as medidas propostas pelo economista Manoel Pires e seus impactos na dívida pública

Especialista do FGV-IBRE apresenta plano que pode gerar superávit primário a partir de 2028 e mudar a trajetória fiscal do Brasil
Membros do conselho fiscal do BRB apadrinhados por Ibaneis e Reag renunciam ao cargo

Desembargador derruba decisão e autoriza governo do DF a usar imóveis para capitalizar BRB

BRASÍLIA – Após recurso do governo do Distrito Federal (GDF), o desembargador…
Parte da população ainda não entende como uma apólice de seguros pode ser um diferencial na sua vida

Por que o seguro continua caro no Brasil: falta de adesão, baixa renda e desconhecimento impedem a expansão do mercado

Entenda o ciclo vicioso que mantém os seguros inacessíveis e como o mutualismo pode ser a solução
Guerra terá impacto desigual na América Latina, mas inflação subirá em toda a região, diz FMI

FMI alerta: guerra no Oriente Médio elevará a inflação em toda a América Latina e Caribe, mas Brasil pode ganhar com preços altos de petróleo

Impactos econômicos divergentes e recomendações fiscais para a região