Trump quer envolvimento internacional para garantir tráfego no Estreito de Ormuz

O estreito está com o tráfego marítimo praticamente paralisado, no início da terceira semana após os ataques dos EUA e Israel contra o Irã. Crédito: AFP

O CEO da Roubini Macro Associates, Nouriel Roubini, prevê que o preço do barril de petróleo deve estacionar em um patamar 10% acima das cotações anteriores ao início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro. Isso, no entanto, levará a uma situação de aumento de inflação nos Estados Unidos e forçará o presidente Donald Trump a recuar na sua intenção de continuar atacando o país persa.

Por isso, de acordo com Roubini, que participou na terça-feira, 17, do Nomad Global Invest Day, evento apoiado pelo Estadão, o seu cenário básico contempla um cessar-fogo no Irã.

“O preço do petróleo vai estagnar a economia americana e, como faltam nove meses para a eleição de meio de mandato nos EUA, Trump pode voltar atrás e ordenar um cessar-fogo”, disse Roubini.

No entanto, de acordo com o economista que ganhou fama mundial por ter previsto a crise da bolha imobiliária de 2007 e 2008, não se pode descartar a possibilidade de o Irã querer manter a guerra e o Estreito de Ormuz fechado para machucar os EUA e a Europa.

Se isso ocorrer, de acordo com Roubini, os países asiáticos vão festejar porque o petróleo do Irã será direcionado a eles a preços mais baixos.

“Não se trata apenas de Trump recuar, mas também de o Irã querer ou não interromper a guerra para prejudicar EUA, Israel e Europa”, disse Roubini, reforçando que isso, na avaliação dele, é pouco provável e que seu cenário básico aponta para um cessar-fogo.

Duração da guerra

O economista avalia que a guerra no Irã não deve durar mais do que alguns meses. Se a previsão for confirmada, projetou o economista, haverá uma reversão de boa parte da escalada na cotação internacional do petróleo.

“Mesmo que ainda permaneça um prêmio de risco nos preços do petróleo, porque o Irã sempre pode tentar bloquear o Estreito de Ormuz, o impacto econômico, financeiro e sobre os mercados tende a ser mais limitado”, comentou.

Roubini enfatizou a visão de que o período de excepcionalismo americano não acabou, já que a inteligência artificial tende a manter a maior economia do mundo em crescimento. “Eu acredito que o impacto dessa inovação, elevando o crescimento potencial dos EUA, vai empurrar o crescimento americano, até o fim da década, de 2% para 4%.”

Com os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã levando o preço do petróleo para acima de US$ 100, Roubini disse que as economias que dependem da importação da commodity, como Europa e Ásia, enfrentam um risco maior do choque tanto de preço quanto de oferta.

Já os Estados Unidos, comparou, são exportadores líquidos de energia, o que leva a um impacto, no saldo, mais limitado da guerra na economia, ainda que com perdas para os consumidores de energia.

Inflação com recessão

Roubini disse que a guerra no Oriente Médio alimenta preocupações sobre a volta a um cenário que marcou a economia no fim da década de 1970, com choque do petróleo provocando inflação e recessão, esfriando a empolgação de investidores com a revolução tecnológica.

Para ele, a evolução tecnológica, com os ganhos de produtividade e redução de custos a partir da adoção da inteligência artificial, despertou um otimismo sobre um “boom econômico secular”, ao invés de uma estagnação secular.

“Mas, desde o início dessa guerra com o Irã, há preocupações de que vamos voltar aos anos 70, com outro choque do petróleo, grande e severo, desorganizando a economia global e causando inflação e recessão”, disse o economista.

Segundo Roubini, em economias exportadoras de petróleo, como o Brasil, a escalada nos preços da commodity pode representar uma melhora nos termos de troca comerciais, mas que, ponderou, beneficia apenas os produtores de petróleo. Para quem consome petróleo e energia, caso das famílias e empresas, o impacto, ressaltou, é negativo.

“Como nos anos 70, se eventualmente essa situação levar não apenas à inflação, mas também a uma recessão global, o Brasil e os países exportadores de energia vão ser prejudicados”, observou. “Foi o que aconteceu no fim dos anos 1970, quando o segundo choque do petróleo acabou levando a um colapso dos preços do petróleo e, depois, à crise da dívida latino-americana”, acrescentou.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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