O Brasil vive a expectativa de mais uma safra recorde de soja, mantendo o país como protagonista no mercado global de alimentos. Essa evolução foi impulsionada por anos de investimento tecnológico e ganho de escala.

Entretanto, um paradoxo silencioso ameaça o produtor rural brasileiro, mesmo com recordes sucessivos de produção, o retorno financeiro real está sob pressão. Os custos elevados e juros altos mudaram as regras do jogo.

É preciso entender que a produtividade máxima nem sempre é sinônimo de riqueza acumulada ou eficiência, conforme divulgado pelo Estadão em análise sobre o cenário econômico do setor para os próximos anos.

O desafio da lucratividade no agronegócio brasileiro

Nas últimas décadas, o sucesso do agronegócio foi pautado pela eficiência técnica e exploração de vantagens naturais. Contudo, essa transformação exigiu uma base de capital muito maior para sustentar máquinas e insumos.

Atualmente, produzir mais exige investimentos crescentes, enquanto o ambiente macroeconômico apresenta taxas de juros restritivas. Nesse cenário, o lucro operacional pode esconder uma deterioração real dos resultados financeiros.

Emerge, então, a necessidade de utilizar o conceito de Valor Econômico Agregado (EVA). Essa métrica verifica se o negócio realmente remunera a estrutura de capital de forma superior ao risco assumido na operação.

Lucro contábil versus valor econômico real

A distinção entre o lucro que aparece no papel e o valor econômico real é fundamental. Em sua obra The Quest for Value, G. Bennett Stewart III afirma que métricas tradicionais não capturam o desempenho real.

Segundo o autor, métricas como lucro líquido e retorno sobre patrimônio podem gerar distorções, pois não refletem o valor de mercado dos ativos. O EVA surge como solução ao descontar o custo de oportunidade do capital.

Para o gestor moderno, o indicador primordial deve ser apurado somente após considerar o custo de todo o capital investido. Sem essa visão, o produtor pode estar, na verdade, perdendo dinheiro sem perceber.

O peso invisível do capital imobilizado

Em setores intensivos em capital, a omissão do valor real dos ativos é um risco grave. A terra, mesmo que esteja quitada, possui um valor de mercado e representa um capital que poderia estar rendendo em outras áreas.

Ao ignorar esse custo de oportunidade, o produtor toma decisões ineficientes. O sucesso do agronegócio depende de reconhecer que a terra é um ativo financeiro que precisa de uma remuneração compatível com o mercado.

O EVA funciona como um alerta, ele mostra o excedente real após remunerar toda a estrutura. Em tempos de juros elevados, essa ferramenta torna-se essencial para garantir a sobrevivência e o crescimento no longo prazo.

Exemplo prático de destruição de valor

Imagine uma propriedade avaliada em R$ 100 milhões que gera um lucro operacional de R$ 10 milhões. À primeira vista, o desempenho parece positivo, mas o cálculo do custo de capital pode revelar uma realidade diferente.

Se o custo médio de capital for de 18% ao ano, o custo implícito dessa propriedade seria de R$ 18 milhões. Nesse caso, embora exista lucro contábil, há uma destruição de valor de R$ 8 milhões para o proprietário.

Essa mudança de perspectiva é o que pode salvar muitos negócios rurais. Entender que o capital tem um preço ajuda a ajustar metas, melhorar a precificação e focar no que realmente traz retorno financeiro sustentável.

A nova era da gestão financeira rural

O avanço necessário para o campo agora é estratégico e financeiro. O setor já provou sua excelência técnica, mas precisa internalizar uma cultura de alocação eficiente de capital para continuar competitivo.

Tratar propriedades como ativos financeiros e mensurar o risco de forma sistemática deve ser a prioridade. É preciso abandonar a ideia de que bater recordes de produtividade garante, automaticamente, a criação de valor real.

No futuro, prosperarão os gestores que se posicionarem como alocadores disciplinados. A busca pelo valor real deve ser o alvo principal, subordinando todas as decisões operacionais a critérios rigorosos de retorno financeiro.

A fonte original é a Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo.

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