O protagonismo privado na preservação ambiental
Um levantamento inédito conduzido pelo Instituto Arapyaú revelou que 45,2% de todas as florestas legalmente protegidas no território brasileiro estão situadas dentro de propriedades rurais privadas. O dado destaca como o setor agropecuário, muitas vezes visto apenas como causa de pressão ambiental, atua hoje como um guardião fundamental de biomas estratégicos para o país, conforme divulgado pelo Estadão.
Segundo Roberto Waack, presidente do conselho do instituto, essa proporção equivale a uma área superior a um quinto do continente europeu. No total, o Brasil possui 507 milhões de hectares de florestas, com 475 milhões sob proteção legal, divididos entre áreas públicas e privadas, estas últimas protegidas por meio das Reservas Legais e das Áreas de Preservação Permanente (APPs).
O sucesso dessa conservação é atribuído em grande parte ao Código Florestal, em vigor desde 2012. Apesar de ser desrespeitado em algumas regiões, especialistas concordam que a lei conseguiu integrar a produtividade agrícola à necessidade de manter a floresta em pé, criando um modelo de negócio onde a natureza preservada valoriza o ativo rural.
Por que a conservação virou um bom negócio
A preservação dentro das propriedades não é apenas uma questão de conformidade legal, mas uma estratégia de resiliência. Conforme explicou Waack, lavouras cercadas por matas nativas sofrem menos com os efeitos severos das mudanças climáticas, beneficiam-se de polinização natural e garantem melhor estabilidade hídrica, o que se traduz diretamente em maior produtividade agrícola.
Esse cenário atrai grandes fundos de investimento e instituições financeiras de peso, como Santander, Rabobank e Pátria. O interesse do mercado mostra que o produtor que mantém a floresta em pé é mais competitivo. Hoje, a demanda global por produtos de baixo carbono coloca o Brasil em uma posição privilegiada para liderar a produção de bens sustentáveis em larga escala.
Reflorestamento e a economia de baixo carbono
Empresas como a Re.Green exemplificam como esse mercado funciona na prática. Elas atuam arrendando terras degradadas de produtores rurais para realizar o reflorestamento com espécies nativas. Além de recuperar a vegetação, o negócio gera créditos de carbono que são adquiridos por corporações globais como Microsoft, Vivo e Nestlé, garantindo renda extra ao dono da terra.
Em 2023, o Ministério da Agricultura e Pecuária estimou que o país possuía 82 milhões de hectares com algum nível de degradação. O desafio atual é converter esse passivo em florestas produtivas. Para especialistas, o Brasil tem potencial para ver o PIB da bioeconomia na Amazônia saltar de R$ 12 bilhões para R$ 38,6 bilhões até 2050 com investimentos adequados.
O exemplo prático do café amazônico
Em Rondônia, produtores como Juan Travain de Souza provam que o modelo funciona. Em sua propriedade de 220 hectares, apenas 30% são ocupados por lavouras de café amazônico, enquanto o restante é mantido como floresta preservada. “A floresta cria um microclima que é o ganho que faz nosso café ser especial”, afirma.
Apesar do sucesso, especialistas como Beto Veríssimo, do Imazon, ressaltam que o setor ainda enfrenta obstáculos. A falta de regularização fundiária na Amazônia e no Pará é um gargalo central. Sem títulos de terra, a grilagem prospera e desestimula produtores que buscam atuar dentro das normas ambientais vigentes no país.
Desafios e o futuro da produção sustentável
O consenso entre as entidades envolvidas no estudo é que o produtor que preserva precisa de incentivos mais claros. Isso inclui acesso a linhas de crédito com juros menores ou benefícios financeiros diretos por serviços ambientais prestados. Esse tipo de política ajudaria a equilibrar a concorrência entre produtores de diferentes regiões que enfrentam exigências legais distintas.
Em última análise, a preservação ambiental passou a ser uma peça estrutural para a economia nacional, influenciando desde a atividade agrícola até o setor elétrico. A fonte original desta matéria é o [Estadão](https://www.estadao.com.br/economia/quase-metade-das-areas-conservadas-de-floresta-sao-propriedades-rurais/).







