Dito e feito. Para decepção do governo, tudo indica que a demagógica isenção de Imposto de Renda (IR) para o suposto “andar de baixo”, anunciada às pressas no final do ano passado, não trará a sonhada chuva de votos no Nordeste com que contava o Planalto.

O que as pesquisas de intenção de voto no segundo turno da eleição presidencial na região vem mostrando é que, ao contrário do que esperava o Planalto, a diferença entre o desempenho de Lula da Silva e de seus opositores continua se estreitando, não obstante a intensa e escandalosa campanha eleitoral, digo oficial, que o “governo do Brasil” vem se permitindo fazer no rádio e na televisão. “Não pagar mais Imposto de Renda significa mais dinheiro no bolso para guardar, para gastar se quiser, para estudar, comprar o que você precisa, investir na moto nova e ajudar a realizar aquele sonho.”

A decepção com os efeitos eleitorais da isenção de IR no Nordeste é só mais uma evidência de quão demagógica foi a injustificável redução de impostos comandada pelo ministro da Fazenda no ano passado, para cumprir uma promessa de campanha primitiva e despropositada do presidente da República. “Na minha cabeça, salário não é renda. Renda é de quem vive de especulação. Esse, sim, deveria pagar imposto de renda”, Estadão, 12/10/2024.

Já em artigo publicado em 23/10, intitulado A geografia da isenção de IR, recorri a dados regionais para alertar que o projeto do governo pouco beneficiaria os nordestinos. Uma constatação que, à primeira vista, poderia parecer estranha aos leitores. Afinal, não se tratava de concessão de isenção de IR a contribuintes pobres? E não era o Nordeste uma das regiões mais pobres do País?

A explicação era simples. A imensa maioria de quem lá ganha a vida não tem renda suficiente para ser enquadrado entre os supostos “pobres” beneficiados pelo projeto de isenção de IR do governo. Como sua renda mensal não alcança a faixa de R$ 3 mil a R$ 5 mil, ficaria à margem das benesses da isenção.

Os “pobres” a quem o governo alardeou que beneficiaria com a isenção estão desproporcionalmente concentrados nas regiões mais ricas do País. Não é o “andar de baixo” que vem sendo isentado e, sim, o “andar do meio”. Não chega ser uma surpresa que, no Nordeste, a espalhafatosa isenção de IR não esteja tendo os efeitos que o governo esperava sobre as intenções de voto em Lula no segundo turno da eleição presidencial.

Além de injustificável, a demagogia revelou-se eleitoralmente inepta.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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