Ana Paula Padrão gravou um vídeo. Teve 30 mil likes no Instagram. Lá, ela diz que o futuro é feminino. Era um comentário sobre o aumento de feminicídios (que não ocorreu), visto por Ana como uma reação dos homens à independência feminina. Seu exemplo é o de mulheres estarem escolhendo ter menos filhos. Ela diz que as mulheres vão continuar se emancipando, que a violência masculina não irá detê-las: “O futuro é feminino”, repete.

Eu gostaria de concordar com a Ana. Mas eu tenho lido o Robin Hanson. Ele tem uma tese assustadora, que eu vou resumir assim: o futuro não é feminino. Sim, essa é a coluna da Semana da Mulher.

Hanson não é um enésimo economista preocupado com a queda nos nascimentos porque irão afetar a previdência, o PIB e blá-blá-blá. Sua preocupação é outra.

Ele crava que a escolha de ter menos filhos não é universal, mas específica das famílias mais tolerantes, por exemplo, das mulheres que estudaram mais. Mas o número de filhos continuará sendo alto nas famílias mais moldadas por dogmas religiosos.

Enquanto as famílias tolerantes estão tendo 2, 1 ou nenhum filho, as famílias dogmáticas continuarão tendo 5, 6, 7 filhos. As famílias tolerantes terão alguns netos, as dogmáticas, um monte. Ao longo do tempo, as famílias com ideologias extremas dominarão a sociedade.

A cultura ocidental irá morrer assim, quase que de seleção natural. O mundo será dos fundamentalistas religiosos. Um exemplo anedótico já incluiria o peso crescente do eleitorado haredi em Israel, base de Bibi Netanyahu. Alguém no Brasil pode apontar para neoconservadores aumentando seu peso.

O feminismo está fadado a desaparecer, porque as famílias “feministas” que carregam essa ideologia se reproduzem muito mais devagar do que as famílias intolerantes. É uma visão trágica, que alcançaria o próprio liberalismo de forma ampla.

Como salvar a cultura liberal? Como fazer as pessoas “certas” terem mais filhos? É a pergunta de Hanson. O problema é que nenhum país conseguiu ainda reverter tendências de natalidade para ninguém – como reforça um estudo publicado no último mês pela Associação Americana de Economia.

Os EUA criaram as “contas Trump” para bebês e vão ajudar com FIV. Outros países discutem creches, isenção de impostos, licenças parentais, transferências de renda. O futuro do feminismo dependerá de nós feministas termos mais filhos?

Para Hanson, a solução pode estar fora da economia, na cultura, com menos embate contra grupos de maior natalidade que não são extremistas. Precisaremos ser mais simpáticos com a “família em conserva”?

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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