O Brasil vive uma inflexão na forma como estrutura seus projetos de infraestrutura. O que antes era marcado por concessões pontuais, planejamento fragmentado por modais e forte dependência de obras públicas passou a incorporar modelagens mais sofisticadas, integração logística e novas estratégias de financiamento. Esse movimento, consolidado a partir de 2023, inaugura um ciclo que combina maior participação privada, inovação contratual e centralidade da agenda ambiental.

Desde então, a Infra S.A. desenvolveu estudos que resultaram em 26 leilões no setor de transportes, somando cerca de R$ 150 bilhões em investimentos contratados em rodovias e portos. Para 2026, a carteira de projetos da empresa conta com mais de 20 empreendimentos, entre ferrovias, rodovias, hidrovias e terminais portuários. A escala é relevante, mas o diferencial está na forma como esses empreendimentos vêm sendo estruturados.

Para o diretor-presidente da Infra S.A., Jorge Bastos, esse novo ciclo representa uma transformação estrutural no planejamento da infraestrutura brasileira. “Estamos consolidando uma visão sistêmica, que integra modais, antecipa desafios regulatórios e ambientais e cria condições para ampliar a participação privada com segurança e previsibilidade. A infraestrutura precisa ser pensada como vetor de competitividade e desenvolvimento sustentável, e é isso que orienta a atuação da Infra S.A.”, afirma.

“A agenda é extremamente desafiadora. Hoje, temos inovações tecnológicas e mudanças às quais precisamos nos adaptar, considerando o presente e o cenário futuro da infraestrutura”, explicou Lilian Campos, superintendente de Inteligência de Mercado da Infra S.A., durante palestra no P3C – maior evento sobre concessões e PPPs do Brasil, realizado em fevereiro, em São Paulo.

Como principal estruturadora de projetos do governo federal na área de transportes, a Infra S.A. atua na modelagem econômica, nos estudos de demanda e na simulação de cenários que sustentam os novos contratos. “Trabalhamos de maneira meticulosa, prestando assessoramento aos Ministérios dos Transportes e de Portos e Aeroportos, considerando todos os elementos para integração e interoperabilidade”, disse Lilian.

Visão de rede

Um dos elementos centrais desse ciclo é a mudança na lógica de planejamento. Historicamente, os modais eram tratados de forma isolada. A nova abordagem parte de conectividade e complementaridade entre os modos. “Posicionar a ferrovia para o escoamento, as rodovias com o papel de distribuição de médias e curtas distâncias e o aquaviário transportando grandes volumes de carga, criando corredores verdes e multimodais”, explicou Lilian.

A visão de rede altera tanto a eficiência operacional quanto a equação ambiental. Durante o P3C, representantes do Ministério dos Transportes destacaram que, na comparação com o modal rodoviário, o transporte ferroviário, em longas distâncias, pode reduzir significativamente os custos logísticos e emissões de gases de efeito estufa. Para Lilian, esse alinhamento é estrutural. “A sustentabilidade ambiental tem que ser considerada em todos os aspectos”, afirmou.

Um exemplo é o Arco Norte. A região se consolida como rota estratégica para o escoamento da produção do Centro-Oeste, impulsionando investimentos em portos, ferrovias e acessos rodoviários. “São empreendimentos complexos, que exigem modelos econômicos bem estruturados, fornecendo sustentabilidade ambiental e financeira”, disse Lilian. “É a nossa saída que mais atrai cargas, favorecendo o crescimento de uma nova fronteira agrícola. De 2010 a 2025, o crescimento anual médio é de 4,5%.”

Ela ressalta que o crescimento da movimentação portuária e ferroviária na região é acompanhado por dados históricos monitorados pela área de Inteligência de Mercado da Infra S.A., por meio do Observatório Nacional de Transporte e Logística (ONTL), do qual é coordenadora. Além da infraestrutura física, entram em cena desafios como financiabilidade, governança e gestão de controvérsias socioambientais.

Inovação contratual

O novo ciclo também se diferencia pelo modelo das concessões. Em discussão recente, integrantes do ministério ressaltaram a adoção de projetos ferroviários no modo “greenfield”, concedidos antes da construção, com maior participação privada desde o início. Outra diretriz mencionada foi a assunção, pelo governo federal, do licenciamento ambiental prévio em projetos estratégicos.

Para Lilian, essa evolução institucional tem reflexo direto na atratividade. “Temos visto uma maturidade maior, de segurança jurídica regulatória, de controle interno e externo e de expertise das equipes técnicas”, afirmou. Segundo ela, o sucesso dos leilões recentes e a renovação de grupos participantes indicam um ambiente mais consistente. “Temos carteira recorde de investimentos no Brasil.”

Ao integrar modais, sofisticar contratos e incorporar sustentabilidade desde a modelagem, a Infra S.A. consolida seu papel na estruturação dessa nova etapa da infraestrutura brasileira. O desafio, agora, não é apenas ampliar a carteira de projetos, mas garantir que a pauta seja pensada como sistema, com previsibilidade regulatória, eficiência logística e alinhamento às exigências ambientais do século 21.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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