Petróleo e gás disparam; Bolsas operam em queda após ataques ao Irã
Guerra lançada pelos EUA e Israel contra o Irã afeta a economia mundial. Hoje, preço do petróleo e do gás dispararam enquanto as Bolsas operavam em queda. Crédito: Crédito: AFP
CORRESPONDENTE EM NOVA YORK – Em meio à guerra com o Irã e aos temores sobre seus efeitos na inflação, as perdas no mercado de trabalho dos Estados Unidos em fevereiro roubaram a cena em Wall Street, que só tem tido olhos para os conflitos no Oriente Médio. A fraqueza dos dados, uma reviravolta frente à fortaleza de janeiro, pode recolocar a situação laboral no foco do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em um momento delicado para a autoridade quanto às taxas de juros no país.
Os EUA perderam 92 mil vagas em fevereiro, em termos líquidos, informou o Departamento do Trabalho do país. O resultado ficou muito distante das estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast, que variavam de corte de 9 mil vagas a criação de 90 mil postos, com mediana de 55 mil. Em janeiro, o país havia criado 126 mil vagas, cerca do dobro do que as previsões apontavam, conforme o dado ajustado hoje.
Por sua vez, o índice de desemprego nos EUA subiu para 4,4% em fevereiro, contra 4,3% em janeiro. O indicador também decepcionou Wall Street, que esperava manutenção no período.

Queda de emprego traz mais um motivo de preocupação para a economia americana Foto: Mario Tama/AFP
Os dados fizeram o payroll (relatório da folha de pagamento) voltar ao foco de Wall Street, que até então vinha se concentrando mais nos conflitos no Oriente Médio e os temores quanto aos seus efeitos na inflação dos EUA e do mundo. Além de amargar as perdas no pré-mercado, os principais índices de Nova York seguem em queda de cerca de 1% na tarde desta sexta-feira.
Para economistas, o relatório de empregos nos EUA em fevereiro veio cheio de ruídos, assim como o de janeiro. Dentre os fatores que podem ter pesado, estão o clima severo no país, que enfrentou duas tempestades de neve em algumas regiões, greves no setor de saúde e as duras políticas migratórias do presidente Donald Trump.
“Assim como o payroll de janeiro exagerou qualquer força emergente no mercado de trabalho, os dados de fevereiro dão uma falsa impressão de deterioração das condições do mercado de trabalho”, diz a economista-chefe da Oxford Economics, Nancy Vanden Houten.
Relatórios ‘com muito ruído’
O economista americano Paul Krugman, vencedor do prêmio Nobel de 2008, disse que também não acredita nem nos relatórios de janeiro e fevereiro, e que ambos têm “muito ruído”. “Provavelmente, considerando todos os números juntos, a verdadeira história é que o crescimento do emprego está mais ou menos estagnado”, diz ele, ao comentar os dados, nesta manhã.
Apesar disso, o payroll de fevereiro intensificou a volatilidade das expectativas do mercado para os juros dos EUA, que vinham oscilando em razão da guerra no Oriente Médio. A reação imediata de Wall Street foi recolocar julho como provável início dos cortes, antes previstos para setembro. No início da tarde, o ponteiro do mercado voltou a mirar junho – patamar observado antes do início dos bombardeios na região, conforme a plataforma CME Group. Depois, tornou a apontar para julho.
O TD Bank chamou o payroll de fevereiro de “Stranger Things”, em referência à série de eventos sobrenaturais. Para o banco canadense, o conflito no Oriente Médio, aliado a um cenário incerto no mercado de trabalho, manterá o Fed em compasso de espera no curto prazo. “É provável que o Fed ignore um relatório de emprego ruim, especialmente quando o lado inflacionário de seu mandato está em risco”, diz o estrategista-chefe de macroeconomia dos EUA do TD Bank, Oscar Muñoz.
Na visão do time de economistas do Bradesco, liderado por Fernando Honorato, o payroll de fevereiro reforça a perda de força do mercado de trabalho americano. Além disso, avaliam, surpreendeu pela fraqueza generalizada em diversas categorias.
No início deste ano, empresas de diferentes setores anunciaram cortes nas folhas de pagamento: a Nike informou que demitiria cerca de 775 em janeiro, ou 1% de sua força de trabalho, enquanto o Morgan Stanley está dispensando 2,5 mil, revelou o The Wall Street Journal nesta semana.
“O Fed, que vinha sinalizando um retorno ao foco exclusivo em seu mandato de controle da inflação, terá de voltar a considerar também a evolução do emprego em suas decisões”, alerta Honorato, do Bradesco.
Se, antes, pressões dos dois lados do duplo mandato do Fed já dividiam as opiniões dos dirigentes da autoridade monetária mais vigiada do mundo, o conflito no Oriente Médio e o payroll de fevereiro só tornam o momento ainda mais delicado às vésperas da troca de comando da instituição. Jerome Powell encerra seu mandato em maio e deve ser substituído por Kevin Warsh, indicado por Trump.
A presidente do Fed de São Francisco, Mary Daly, disse hoje que os detalhes do relatório de empregos dos EUA de fevereiro tornam o documento difícil de interpretar e recomendou cautela. Antes dos dados, o diretor Christopher Waller já havia reforçado a preocupação com o mercado laboral nos EUA.
O diretor do Conselho Econômico da Casa Branca, Kevin Hassett, afirmou que é preciso olhar a média dos números de emprego e defendeu que há “um empate” no payroll, em entrevista para a Bloomberg TV, nesta sexta-feira.
Para o banco americano Jefferies, os dados mantêm a porta aberta para um corte de juros já na reunião de abril do Comitê Federal do Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês). Segundo a instituição, a decisão dependerá do desempenho de março, do impacto dos conflitos com o Irã sobre a inflação e da rapidez com que o Senado dos EUA confirmar Warsh na presidência do Fed. “Caso contrário, esperaríamos que o próximo corte ocorresse em junho”, diz o economista-chefe do banco para os EUA, Thomas Simons.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







