O Brasil vive um paradoxo econômico raro: nunca tivemos desemprego tão baixo nem renda média tão alta — e, ainda assim, seguimos produzindo praticamente o mesmo por trabalhador há décadas. Os números recentes mostram uma economia que melhora no curto prazo, com mais pessoas ocupadas, renda em máximas da série recente e queda da pobreza extrema.

Mas uma leitura superficial desses indicadores pode sugerir que os grandes desafios nacionais foram superados. Não foram.

Por trás da melhora visível permanece uma base estrutural frágil, marcada pela baixa produtividade e por níveis insuficientes de investimento, que limitam a capacidade de transformação econômica de longo prazo.

Por outro lado, outros aspectos socioeconômicos também são vistos por alguns como redutores das desigualdades existentes em nossa sociedade. A universalização do smartphone — hoje perto de 90% dos brasileiros têm celular. A internet está presente em 92,5% dos domicílios no País — a informação, streaming e comércio digital estão massificados.

O custo da participação econômica de classes menos privilegiadas foi reduzido graças a canais como Pix, e-commerce e fintechs. Essa democratização tecnológica favorece a convergência comportamental. Além disso, meios como os serviços de streaming, fast-fashion e plataformas digitais levam a certa padronização cultural.

Todos esses aspectos trazem a percepção de que houve redução de diferenças visíveis. O Brasil não ficou menos desigual — mas ficou mais parecido no que consome. Dito de maneira objetiva: a distância entre classes continua enorme.

Isso cria uma sensação social paradoxal — todo mundo parece mais parecido, mesmo que a estrutura econômica continue extremamente desigual. O Brasil é um laboratório perfeito desse fenômeno que tem se mostrado mundial.

No entanto, o País apresenta um índice Gini de rendimento domiciliar per capita, calculado pelo IBGE, em queda em 2024, atingindo cerca de 0,50, o menor nível da série histórica.

O 1% mais rico de nossa população concentra perto de 40% da riqueza total do País. E os 50% mais pobres detêm apenas 2% dessa riqueza. A desigualdade patrimonial entre os brasileiros é ainda enorme – mas cada vez menos nos carrinhos de compras.

Bens de consumo e hábitos globalizados criaram uma aparência de convergência social que não elimina a distância estrutural entre ricos e pobres. O Brasil pode parecer mais igual visualmente, mas não estruturalmente.

Quando o consumo converge mais rápido que a renda, surge a sensação de igualdade sem necessariamente estabilidade econômica. O Brasil parece avançar — mas enquanto a base não muda, o rumo continua o mesmo.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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