Foto: Fabio Motta/Estadão

Armando Castelar Professor da FGV Direito Rio

Professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, Armando Castelar avalia que, se o conflito do Irã se estender por período prologado e consolidar os preços do petróleo num nível mais elevado, os juros nos Estados Unidos e no Brasil podem recuar menos do que o esperado atualmente pelos analistas.

“Agora, se de fato for um conflito mais demorado, fazendo com que os preços aqui dentro também passem a subir, o espaço para reduzir ao longo do ano também diminui um pouco. Podemos acabar com a Selic mais na faixa de 12,5% ou até 13%, em vez de alguma coisa na faixa entre 11,5% e 12%”, afirma Castelar.

Na avaliação dele, embora o Brasil possa sofrer com juros mais altos, o aumento dos preços do petróleo pode contribuir com as exportações do País e com o desempenho da atividade econômica, dado que a commodity ganhou relevância na economia do Brasil.

“O cenário inicial que se tinha para este ano era de um petróleo mais baixo, na sequência do que tínhamos visto em 2025, mas isso está se revertendo”, diz Castelar.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estadão.

Qual pode ser o impacto econômico desse conflito no Irã?

Obviamente, o impacto maior é no petróleo. O preço do petróleo subiu bastante como reação. Era esperado. Já tinha subido porque havia expectativa (do conflito). O cenário inicial que se tinha para este ano era de um petróleo mais baixo, na sequência do que tínhamos visto em 2025, mas isso está se revertendo. Como há bastante pressão inflacionária nos Estados Unidos, isso reforça esta preocupação: ‘Será que o Fed tem como reduzir os juros mesmo?’ Para o Brasil, não chega a ser de todo ruim, porque o País se tornou, nos últimos anos, um grande exportador de petróleo. O efeito do petróleo, em si, é até positivo para o Brasil, do ponto de vista de exportações e de atividade econômica, mas, obviamente, bate na inflação. Se isso for repassado para o preço dos combustíveis domésticos, reduz o espaço para a inflação cair.

Como o Fed (Federal Reserve, BC dos EUA) deve se comportar diante de todo esse cenário?

Eu acho que vai haver uma espera, porque as questões geopolíticas dos últimos anos, os conflitos no Oriente Médio, entre outras coisas, têm tido um impacto de curto prazo nos preços. Eles não têm se sustentado. A coisa acontece, é uma coisa forte, mas depois volta. Eu entendo que a expectativa será de esperar para ver o que acontece, se haverá um impacto mais demorado ou não. A questão está colocada muito em termos geopolíticos: ‘Será que vai haver uma mudança de governo no Irã ou não?’ A visão é de que o lastro para essa iniciativa americana de bombardear o Irã, com Israel, é de que haveria uma mudança de governo e uma situação mais parecida com o que se viu na Venezuela, com um governo menos conflituoso com os EUA e uma situação um pouco mais favorável à queda do preço do petróleo. Agora, se houver um conflito mais demorado, fechando o canal de Ormuz, eu acho que vai limitar um pouco o espaço do Fed. O Fed não deveria cortar (os juros), porque a inflação está acima da meta há bastante tempo. Na semana passada, o mercado estava precificando dois cortes. Eu acho que, no mínimo, isso deveria cair para um, se a visão for de que será um impacto sobre o mercado de petróleo mais extenso.

No caso do Brasil, como fica o Banco Central diante desse cenário conflituoso?

O que acontece com a inflação? Depende muito do aumento dos combustíveis domésticos. A gasolina, em particular, é um componente que tem um peso grande no IPCA. Se subir tudo isso, vai impactar, mas também acho que a tendência é de esperar para ver. Eu acho que não muda a situação para o Banco Central. A taxa de juros está bastante alta no Brasil, não há nenhum questionamento de que deva cair na próxima reunião. Depois de o IPCA-15 ter surpreendido para cima, começou uma discussão se corta 0,50 (ponto porcentual) ou se faz 0,25 (ponto porcentual), mas acho que a tendência ainda é cortar meio ponto. Agora, se de fato for um conflito mais demorado, fazendo com que os preços aqui dentro também passem a subir, o espaço para reduzir ao longo do ano também diminui um pouco. Podemos acabar com a Selic mais na faixa de 12,5% ou até 13%, em vez de alguma coisa na faixa entre 11,5% e 12%.

O tamanho do impacto vai depender da duração do conflito…

Eventos semelhantes no passado tiveram impactos curtos. Há a leitura de que, com as eleições parlamentares nos Estados Unidos, em novembro, também não interessa muito ao governo americano fazer algo que afete ainda mais a capacidade de compra das famílias. Um combustível mais alto vai pesar ainda mais no bolso do consumidor americano. Existe uma certa confluência de interesses para que esse aumento não seja, pelo menos na magnitude que a gente viu até agora, muito permanente. Lembrando que o petróleo estava abaixo de US$ 60 (o barril) na virada do ano e agora está a quase US$ 80 — bateu acima de US$ 80 hoje (segunda-feira). É bastante significativo.

Nos últimos anos, o número de conflitos pelo mundo tem crescido. Qual a consequência desse cenário para a economia global?

A consequência é mais geopolítica. Você vai ver um realinhamento, como vimos agora, da própria posição, por exemplo, europeia em relação à atitude americana no Irã. Já há um pouco de atrito. Vai haver esse reposicionamento geopolítico. Isso acaba trazendo consequências para onde você investe. O preço do ouro está alto pela visão de que o mundo está mais arriscado. O mundo não é mais o que era há dois anos. Isso vai fazer com que mais dinheiro vá para outros lugares. As reservas vão mais para commodities, vão mais para o ouro. E esse movimento até tem ajudado o Brasil, porque os preços das commodities, principalmente minerais, têm subido. É um mundo que vai ser percebido como mais arriscado, mais incerto e mais inflacionário, porque tudo isso gera pressão do ponto de vista do gasto público e sobre a política monetária. O mundo vai ficar diferente que era: pelo ambiente de investimento ser mais arriscado, pelo dólar e pelos ativos americanos serem menos interessantes. Por exemplo, está todo mundo em um esforço de definir sistemas de pagamento como alternativas ao Swift. Os Brics estão tentando fazer um projeto chamado Brics Pay, por exemplo, que seria alternativo ao Swift como meio de pagamento. A China tem investido bastante nessa área também. Tem todo o desenvolvimento que dizem respeito à economia, ainda que originalmente possam ter uma motivação mais geopolítica. Vamos ver mais disso. Mais briga por quem controla o acesso a recursos minerais. O Brasil, obviamente, também aparece novamente aí, mas não é só o Brasil, a África também aparece claramente como uma área de disputa. Todas essas questões batem na economia por esse caminho da disputa e por um ambiente de investimento mais arriscado.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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