O economista José Roberto Mendonça de Barros diz quais serão os primeiros setores afetados pelos ataques ao Irã.
Foto: Evelson de Freitas/EstadãoJosé Roberto Mendonça de Barrossócio da MB Associados
A política externa dos Estados Unidos é casuística e o ataque ao Irã foi meramente oportunista, diz o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. Isso porque haverá uma série de efeitos nocivos para os próprios americanos, além de aumentar a energia e os recursos despendidos com o exterior − preocupação abominada pelos eleitores do MAGA (Make America Great Again), o slogan com o qual Donald Trump venceu as eleições.
O impacto dos contra-ataques iranianos só será sentido caso a guerra efetivamente dure mais do que algumas semanas. Porém, já começou a afetar os mercados de petróleo e gás, além do setor aéreo. E pode vir a impactar as áreas de fertilizantes e seguros. “O fato de o Irã ter atacado os vizinhos foi surpreendente, mas foi obviamente intencional, para aumentar esse tipo de dano”, diz Mendonça de Barros.
Ele falou sobre esses e outros assuntos, na entrevista a seguir:
Os ataques ao Irã foram mais graves do que outras decisões surpreendentes de Trump?
Foi uma decisão oportunista. Pelas declarações do ministro das relações exteriores de Omã, as conversas entre os dois países vinham avançando, com concessões do Irã, quando o serviço de segurança dos Estados Unidos detectou uma reunião de cúpula e decidiram pelo ataque na hora. Foi simplesmente oportunismo. Também foi exatamente o oposto em relação aos discursos anteriores de Trump, que fez campanha dizendo que era o homem que ia acabar com as guerras. Mas, inequivocamente, iniciou mais uma. É algo surpreendente em muitos aspectos, mas a política externa americana tem sido assim: com decisões pontuais, sem ter uma estratégia deliberada.

Aviões da Emirates, após ataques iranianos próximos ao aeroporto de Dubai: reação surpreendente contra vizinhos Foto: Altaf Qadri/AP
O que pode acontecer do ponto de vista econômico?
Além de ser uma decisão oportunista, os americanos esperavam que isso detonaria uma rebelião popular, levando a uma mudança de regime, mas sem colocar invasores no terreno, já que o Irã é um país grande, com 90 milhões de habitantes. Ouvi de várias pessoas que não tem na história um exemplo de mudança de regime só com ataque aéreo. Então nossa hipótese é que não haverá uma mudança de regime e, portanto, essa situação de conflito deve durar mais tempo do que simplesmente aquele outro evento, de um ataque só. Não tenho a menor ideia da duração mas, se for mais do que três ou quatro semanas, já é suficiente para produzir resultados econômicos efetivos. Nesta hipótese, achamos que existem alguns efeitos realmente relevantes.
Quais são eles?
É interessante observar que o Estreito de Ormuz na prática foi fechado sem que existisse uma ação anunciada de fechamento. É quase um perigo de gol passar lá. Todos os grandes transportadores decidiram usar o Cabo da Boa Esperança e isso não vai mudar. Assim, é razoável a gente imaginar primeiro um efeito de alguma expressão no preço do petróleo. O cenário de petróleo, exceto por razões de segurança e muito ligadas ao Oriente Médio, é de abundância de oferta. A Agência Internacional de Energia mostra que o aumento de oferta em 2025 foi de quase 3 milhões de barris e a projeção para 2026, é de 2,5 milhões. O aumento de demanda em 2025 foi de algo como 700 mil barris e a projeção para este ano é de 800 e poucos mil barris. Logo, é de um aumento de estoques e pressão para baixo de preços. Não fossem as questões de segurança, o preço estaria bem abaixo dos US$ 70, indo buscar os US$ 60. É razoável supor que, se durar um mês, esse aumento de preço de petróleo vai ficar por um certo tempo.
Quais outros efeitos?
Há uma pressão no preço do gás natural porque o Irã fez uma coisa para mim surpreendente que foi atacar os vizinhos. Não era algo esperado. Obviamente que foi intencional, para aumentar o tipo de dano. O Catar é o maior produtor de gás natural do mundo e, ao atacá-lo, o Irã fechou a produção. Com os ataques em Dubai houve uma ruptura no transporte aéreo. Doha é um hub de enorme importância, não é só turismo, é também negócios, tem de tudo. Pode ter um efeito importante em cima de negócios e turismo que, normalmente, não acontece, mas lá é, de fato, muito grande. Se a guerra prevalecer por mais de um mês, os preços dos seguros internacionais, evidentemente, vão subir. No mínimo porque vão andar mais para levar a mesma carga e o risco é maior. O último grupo de produtos a considerar é o de fertilizantes e matérias-primas de fertilizantes. Pelo Estreito de Ormuz passam entre 20% e 50% de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e enxofre. É um efeito grande.
Isso pode virar uma dor de cabeça para o governo americano?
Sem dúvida. Suponha que aumente o preço do petróleo e isso vá para a bomba, com impacto para todos os consumidores americanos, que vão saber imediatamente que a causa é a guerra. A capacidade de compra no consumidor americano já virou o principal item da eleição de novembro. A capacidade de compra afeta 80% da população americana e afeta três aspectos. O primeiro e o mais importante é a cesta básica, na qual se pode incluir a gasolina. No ano passado, com as tarifas a outros países impostas por Trump, aumentou o ovo, a carne, o café e tudo mais. Foi um problema visível para a população inteira, como a gasolina também é. A segunda questão da capacidade de compra é que as casas subiram muito de preço, bem como o custo da hipoteca. O casal jovem não pode comprar casa e o do meio do caminho não pode trocar por uma maior porque não consegue substituir uma hipoteca com um juro barato por uma com um juro muito alto. O mercado imobiliário está travado. A última questão nessa categoria é que faz parte da estrutura financeira de todas as famílias americanas um uso relativamente intensivo do cartão de crédito. O cartão de crédito nos EUA tem uma taxa de juros típica de 22%, quase tão cara quanto a brasileira.
Mas o impacto da inflação depende da duração da guerra, certo?
Depende 100% e é a hipótese mais difícil de prever, sobre a duração do conflito. A sensação que a gente tem aqui é que, do jeito que começou, com o Irã sendo um produtor de drones, ele tem um poder grande de ameaçar os vizinhos. Mais do que Israel e Estados Unidos por via aérea. Por essa perspectiva, acho que durará pelo menos um mês, não é um negócio para três dias. Até porque, mesmo tendo eliminado o líder (com a morte de Ali Khamenei), a estrutura religiosa e militar iraniana é muito horizontal, não depende de uma pessoa. O que significa que a estrutura de poder e de força deve continuar. Eles são brutais na repressão. Não me parece que tenha condição de haver um levante popular ou qualquer coisa parecida. Se for assim, dá para durar. Agora, o Irã vai sair mais fraco.
Por que?
Ele depende muito de importações. O grosso da exportação brasileira de milho, por exemplo, vai para o Irã. É razoável a gente imaginar que o Irã depende da importação de alimentos e, portanto, dá para aguentar um certo tempo, mas isso tem limitações até montar, se é que tem jeito de montar, uma estrutura alternativa de abastecimento.
O sr. disse que a política externa dos EUA está sendo feita de maneira meio oportunista. É possível fazer um paralelo entre os ataques ao Irã e as tarifas globais, nesse sentido?
Minha impressão é que sim. O Trump queria ganhar o prêmio Nobel da Paz porque teria acabado com oito guerras. Agora, começou uma guerra para valer, no lugar mais quente do globo. Isso não faz parte de nenhum plano. Em relação às tarifas, ele fez desta forma malucada, inclusive passando a imagem de que fazer um acordo com os Estados Unidos não tem grande valor. Europa, Japão e Coreia, que negociaram e pagaram caro, se deram pior do que outros países. É algo que não tem uma estratégia evidente e é muito ruim do ponto de vista econômico porque aumenta a incerteza. Só não aparenta estar pior nos EUA porque a inteligência artificial tem levado investimentos de fato, real, gigantesco, que põem a economia para cima. Se não, estaria aparecendo toda essa incerteza. Minha sensação é que é uma política feita um pouco ao acaso, muito casuística e, nesse caso, teve uma coisa de oportunismo.
E o eleitor americano parece não estar se importando muito…
É até mais complicado porque parte importante dos eleitores americanos é isolacionista. Não quer nada disso, não quer saber de se meter em conflito externo e está horrorizado. É isso que é mais surpreendente e dá para ver como é improvisado. Porque se depender do MAGA, a política externa tinha de ter pouca expressão. E, apesar disso, está sendo feito o oposto. Por isso que é politicamente tão espinhoso, se de fato começar a aumentar o preço da gasolina. Tem um casuísmo mesmo, com tudo acontecendo e correndo um risco gigantesco. Porque a história mostra que as intervenções americanas no Oriente Médio terminaram muito mal.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







