É preciso ver algo mais importante no setor agropecuário do Brasil do que puramente os recordes sucessivos de produção. Trata-se da mudança de mentalidade que se espraia a partir do interior do Brasil.

No seu sexto levantamento das safra 2025/26, a Conab acusa novo recorde de produção de grãos, desta vez de 354,5 milhões de toneladas, um avanço de 0,3% em relação à safra anterior. O IBGE aponta volume alguma coisa mais baixo, de 344,1 milhões de toneladas, 0,6% inferior à da temporada anterior.

Ainda há aqueles que veem algo negativo na pujança do agro brasileiro, especialmente nas esquerdas não recicladas. Dizem que o Brasil está se tornando um fazendão, especialista na oferta de produtos primários de baixo valor agregado, que o prostra no estágio do subdesenvolvimento e o torna cada vez mais dependente das grandes potências econômicas.

Esquecem-se ou não querem enxergar que o maior país agrícola do mundo e maior produtor de bens primários do planeta continuam sendo os Estados Unidos e nem por isso são um fazendão do Norte.

O maior equívoco desse ponto de vista é o de que o agronegócio (e não só a agropecuária) seja um setor de desenvolvimento atrasado, tocado por jeca tatus, que impede o desenvolvimento nacional. É bem o contrário. Há mais de 30 anos, ninguém mais sai por aí denunciando o chamado latifúndio improdutivo que, no passado, foi a principal justificativa para uma reforma agrária radical.

O que vai caracterizando o agro brasileiro é o largo emprego de tecnologia avançada, em genética, em preparo e conservação do solo, em novas formas de semeadura e plantio (como o plantio direto) manejo da produção e do armazenamento. O setor vai empregando cada vez mais equipamentos avançados, drones e maquinário movido por aplicativos. Enfim, o agro é tech.

Os avanços não ficam por aí. Essa mudança de mentalidade modernizadora se espraia para o setor de serviços nas cidades do interior, que apoiam essa atividade. E não se restringem aos serviços de mecânica, informática ou de construção civil. Permeia também o ensino, o comércio e os serviços pessoais, como até mesmo o dos cabeleireiros e manicures.

É preciso também entender melhor o que seja valor agregado. A maior agregação de valor se dá justamente na agricultura e na mineração. Quanto não agrega valor o plantio de uma saca de semente de soja ou de milho? Minério ou petróleo enterrado não vale nada. Mas tirado de lá vale, o que sabemos.

A exuberância das contas externas do Brasil, que nas décadas de 70 e 80 foram a causa da brutal crise da dívida, se deve principalmente às exportações da agropecuária e da mineração. Esta, por sua vez, tem a ver com a vigorosa ascensão da China, de que o Brasil tirou proveito.

Enfim, há mais do que apenas ser celeiro do mundo.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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