Pessoas comemoram enquanto destroem uma placa na província de Fars, no Irã

NOVA YORK (EUA) – Os preços do petróleo podem subir para uma faixa de US$ 80 a US$ 100 por barril em meio aos desdobramentos das tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Após os ataques deste sábado, 28, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano, foi morto, enquanto o Estreito de Ormuz, por onde escoa mais de 20 % do petróleo do mundo, foi fechado, informou a agência de notícias iraniana Tasnim, ligada ao governo do país.

O Brent fechou a semana na sexta, 27, perto da máxima em sete meses, a cerca de US$ 73 por barril. O avanço reflete o maior prêmio de risco político embutido nos preços, diante do reforço militar dos EUA no Oriente Médio. Analistas de Wall Street projetam o petróleo a US$ 80, mas alertam para cotações ainda mais altas caso a tensão entre EUA e Irã aumente e o conflito se prolongue.

O Barclays avalia ser “muito possível” que o preço do petróleo suba a US$ 100 o barril – ou mais – caso ocorram grandes interrupções por conta do fechamento do Estreito de Ormuz ou impactos a campos petrolíferos sauditas. “Seria difícil substituir grande parte desse fornecimento por semanas e talvez meses, mesmo considerando os oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos”, diz o analista do banco britânico, Ajay Rajadhyaksha, em nota a clientes, neste sábado.

Nigel Green, fundador e CEO do deVere Group, diz que uma interrupção sustentada de até 1 milhão de barris por dia representaria cerca de 1% do fornecimento global. “Seria suficiente para alterar os balanços em um mercado já precificado para crescimento moderado na demanda”, avalia.

Analistas afirmam que a reação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) ao conflito será determinante para o patamar dos preços da commodity. O grupo, que se reúne neste domingo, dia 1º, pode decidir por um aumento de produção maior do que o planejado, de 411.000 barris por dia, segundo a ‘Reuters’.

“Os riscos para o fornecimento global de petróleo tornam ainda mais provável que a Opep+ opte por aumentar as cotas de produção na reunião deste fim de semana – e talvez em mais do que os 137.000 barris por dia que estão sendo especulados”, diz o economista-chefe para Mercados Emergentes da Capital Economics, William Jackson.

Inflação e economia global

Quanto aos impactos econômicos do conflito entre os EUA e Israel, analistas temem que o aumento dos preços do petróleo pese na inflação dos EUA e do mundo, reduza o ritmo de crescimento e adie a flexibilização monetária de alguns bancos centrais.

O Brasil é um dos países esperados para começar a cortar os juros em 2026 – antes dos ataques deste sábado, a previsão era de que o movimento começasse na reunião de março. Por sua vez, o mercado precifica chances majoritárias do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) voltar a baixar suas taxas a partir de junho.

Jackson, da Capital Economics, explica que, como regra geral, um aumento anual de 5% nos preços do petróleo geralmente adiciona cerca de 0,1 ponto porcentual à inflação média nas principais economias. “Portanto, um aumento do Brent para US$ 100 por barril poderia adicionar 0,6 a 0,7 ponto porcentual à inflação global”, calcula. Os preços do gás natural provavelmente também aumentariam, projeta.

Rajadhyaksha, do Barclays, calcula que cada aumento sustentado de US$ 10 por barril nos preços do petróleo pode derrubar o crescimento nos próximos 12 meses entre 0,10 e 0,20 ponto porcentual. “Se o petróleo subir para US$ 120 por barril e permanecer neste patamar, os EUA (e a economia mundial) sofreriam um impacto considerável”, afirma.

Possibilidade de aumento da instabilidade

Outro alerta diz respeito aos bancos centrais que são esperados para flexibilizarem as políticas monetárias em suas geografias, a exemplo do Brasil. Os bancos centrais que eram esperados para cortar as taxas este ano enfrentarão um cálculo “mais complicado” se a energia retroalimentar nos preços ao consumidor e nas expectativas de inflação, segundo Green, do deVere Group.

“Isso pode desacelerar o ritmo de flexibilização monetária pelos principais bancos centrais, particularmente nos mercados emergentes, onde os formuladores de políticas tendem a ser mais sensíveis às oscilações nos preços das commodities”, acrescenta Jackson, da Capital.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Para o cientista político e presidente da Eurasia, Ian Bremmer, as consequências dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, podem ser maiores e aumentar a instabilidade. No caso da Venezuela, o presidente Donald Trump teve um resultado “muito bem-sucedido”, mas os objetivos eram muito mais limitados e não de mudança de regime, explica. “Aqui, os objetivos são muito mais amplos, o Irã não está no quintal da América e há muito mais potencial para instabilidade como consequência”, alertou.

Nas últimas semanas, os mercados financeiros globais já experimentaram doses maiores de volatilidade em meio aos temores em torno da inteligência artificial (IA) e ao aumento das incertezas comerciais após o revés de Trump na Suprema Corte por conta das tarifas. Rajadhyaksha, do Barclays, diz que se a guerra durar mais do que alguns dias, deve provocar uma “reação negativa mais pronunciada” dos mercados.

Trump: bombardeios pesados continuarão ‘sem interrupção’

Donald Trump, presidente dos EUA, afirmou, em entrevista à ‘Axios’, que pode prolongar e assumir completamente a ofensiva contra o Irã ou encerrar o conflito em dois ou três dias. “Os bombardeios pesados e de precisão, no entanto, continuarão, sem interrupção, ao longo da semana ou pelo tempo que for necessário para atingir o nosso objetivo de PAZ EM TODO O ORIENTE MÉDIO E, NA VERDADE, NO MUNDO!”, escreveu ele, em sua rede social, na noite deste sábado.

O Barclays espera que o conflito entre os EUA e o Irã sirva de impulso ao dólar ao menos no curto prazo. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas fortes, acumula queda de mais de 8% em um ano. O iene japonês também pode ser beneficiado, enquanto moedas de mercados emergentes podem sofrer com o aumento da volatilidade, segundo analistas.

Quanto às ações, o Barclays diz que somente uma queda do S&P 500 acima dos 10% é um momento oportuno para os investidores irem às compras. Nas últimas semanas, fundos globais têm aportado recursos para além de Wall Street em meio às incertezas das políticas de Washington e preocupações com a IA. Até o fechamento de sexta-feira, dia 27, a participação dos EUA no valor de mercado de ações global caiu para seu nível mais baixo desde janeiro de 2024, diz o estrategista sênior de Investimentos da Charles Schwab, Kevin Gordon.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

You May Also Like
Presidente do BRB fala a deputados do DF que avalia venda de Financeira do banco por R$ 1,2 bi

Presidente do BRB fala a deputados do DF que avalia venda de Financeira do banco por R$ 1,2 bi

BRB cortará 60% do orçamento para patrocínios e estuda criar empresa à…
‘Bancões perdem R$ 80 bi na B3 após balanços indicarem crédito restritivo

Bancos perdem R$ 80 bilhões na Bolsa: Itaú, Bradesco e BB sofrem com inadimplência; entenda tudo

Entenda por que o valor de mercado dos maiores bancos do Brasil caiu após os balanços do 1º trimestre.
Lula: Sonho que vamos ter empresa distribuidora de gás e de combustível e ter outra Eletrobras

Lula sonha com nova empresa pública de gás e combustível enquanto petróleo dispara e bolsas caem após ataques ao Irã

Presidente defende criação de estatais de energia e destaca déficit das empresas estatais em cenário de alta nos precios do petróleo
Google é multado em US$ 1 bilhão pela UE por práticas que prejudicam a concorrência

Google multado em US$ 1 bilhão pela União Europeia: veja o que muda e como isso afeta você agora

A gigante Alphabet foi punida por práticas que prejudicam a concorrência no Google Play e nas buscas