Armando Castelar analisa impactos do conflito no Irã para o Brasil

Magnitude do impacto econômico vai depender da duração do conflito, diz Castelar. Crédito: Eduardo Gerbelli

BRASÍLIA e SÃO PAULO – O agronegócio brasileiro será um dos setores mais expostos ao choque de custos decorrentes do conflito no Oriente Médio. A continuidade do conflito e o potencial de expansão regional impõe a elevação dos custos de produção para a próxima safra e, em última instância, põe em xeque a expansão na área plantada e os investimentos em tecnologia na safra 2026/27.

Analistas de mercado, especialistas em comércio internacional, entidades do setor e integrantes do governo ouvidos pelo Estadão/Broadcast Agro apontam a energia como principal canal de impactos ao agronegócio nacional. Isso porque os conflitos geram prêmio de risco ao petróleo com aumento dos preços do óleo bruto, o que desencadeia a alta dos preços do diesel, dos fertilizantes e do frete.

Fontes do setor convergem na avaliação de que a escalada do conflito envolvendo o Irã contamina rapidamente preços e logística globais, sobretudo via aumento do preço do petróleo e do gás natural e de rotas marítimas. Isso se traduz em aumento de custos de produção no agronegócio brasileiro e reacende a inflação do lado do fornecimento de insumos ao setor, em cenário de preços baixos de commodities e margens de rentabilidade apertadas.

Para o Ministério da Agricultura, o momento exige cautela para evitar reações exageradas do mercado. O ministro Carlos Fávaro reconhece a correlação via custos, já que o Brasil é dependente de fertilizantes nitrogenados importados, mas diz que, por ora, é “momento de acompanhar”, dado o timing de compra de insumos. “Não precisamos criar pavor”, afirmou em entrevista recente.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) concorda com o choque em custos de energia e logística, destacando que “a região do Oriente Médio é estratégica para energia, gás e ureia, e qualquer disrupção no Estreito de Ormuz pressiona rapidamente os custos globais e o mercado brasileiro”.

A entidade lista canais de transmissão que encarecem o custo no Brasil: alta da ureia pressionada pelo incremento do gás natural; encarecimento de frete, seguro e operação marítima, além da volatilidade do câmbio. No curto prazo, o peso maior é o combustível, diz a CNA. Ela alerta para a baixa disponibilidade de diesel no campo em momento de colheita, no qual há grande utilização do combustível para as máquinas agrícolas.

“A preocupação número um é com o diesel, com preços e normalidade de abastecimento”, disse o diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi. Nesta semana, produtores do Rio Grande do Sul paralisaram a colheita de soja e arroz em virtude da falta do diesel nas propriedades rurais. Lucchi também destaca o diagnóstico conjuntural do setor, com juros elevados, endividamento e margens achatadas. “O conflito é um fator que vai onerar ainda mais o produtor”, afirmou.

A Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) alerta para a pressão inflacionária nos itens mais “inelásticos” da operação, em insumos e logística. “O clima de ‘salve-se quem puder’ está se instalando”, afirmou o presidente da Abramilho, Paulo Bertolini. A associação chama a atenção para a dependência de insumos em trânsito pela zona de conflito: componentes de nitrogenados no Estreito de Ormuz “representam entre 30% e 35% do suprimento”, além de riscos para ácido sulfúrico (base dos fosfatados).

“Embora o preço do milho na B3 tenha subido, o valor não é suficiente para cobrir a alta dos fertilizantes. Do lado logístico, nem na pandemia vimos um reflexo tão drástico com aumentos de preços e falta de diesel”, acrescentou Bertolini.

O Insper Agro Global reforça, em relatório, que grande parcela do comércio global de ureia e amônia advém dos países do Golfo. “Há risco de efeito sobre a competitividade, em um contexto de margens mais estreitas, custos e juros elevados e restrições de financiamento”, observam os especialistas do Insper.

Uma normalização rápida do conflito limita a volatilidade, diz ele, enquanto o prolongamento intensifica pressões sobre fertilizantes, logística e custos operacionais.

Para o Rabobank, a inflação de custos tende a ser estrutural nos fertilizantes, enquanto grãos podem não reagir na mesma proporção – uma combinação típica de compressão de margens. O banco alerta para o descolamento, dado que o Oriente Médio é o centro de produção de nitrogênio e amônia do mundo, e os custos estão diretamente atrelados ao preço do gás natural. “A acessibilidade dos fertilizantes deve se deteriorar ainda mais, aumentando o risco de redução nas taxas de aplicação”, disse o banco holandês em relatório.

A consultoria StoneX já vê a pressão de alta aos fertilizantes se consolidando na formação de custos futuros, porque o aumento chega antes do pico sazonal de compras da próxima safra. “O impacto se dará com muito maior intensidade na formação de custos da próxima safra e o cenário não é animador para os compradores brasileiros com as relações de troca entre milho e ureia nos piores patamares dos últimos anos”, afirmou o analista Tomás Pernías. A consultoria destaca saltos já observados nos preços: nos portos brasileiros, a ureia subiu mais de 15%, e o nitrato de amônio, cerca de 28%.

Na análise do BTG Pactual, o Brasil pode não sofrer falta imediata, mas sofrerá aumento do preço dos insumos. “O problema não é acesso, mas preço”, observou o banco, mencionando que os fertilizantes já vinham inflacionados e que o choque pode elevar custos no ciclo 2026/27.

A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) afirma que o repasse dos preços dos fertilizantes já começou em bases regionais, mas tende a aparecer com mais força na próxima safra, em virtude do período de contratação dos insumos. “Os preços dos nitrogenados importados já subiram cerca de 20%. O risco está no ciclo 2026/27. Se os preços continuarem em alta, haverá elevação do custo de produção e um problema muito grande ao agricultor que pode repensar intenção de aumento de área”, afimrou o presidente da Famato, Vilmondes Tomain.

Com o conflito atuando como um choque externo de inflação de custos no agronegócio, transmitido principalmente por energia, fertilizantes nitrogenados e logística, há potencial de impacto nos preços finais repassados ao consumidor e consequentemente na inflação de alimentos.

Há convergência entre os especialistas ouvidos de que o impacto tende a ser mais relevante na formação de custos da safra 2026/27, bem como efeitos já vistos nos custos da safrinha de milho e na temporada de trigo, em um ambiente de margens pressionadas por preços de commodities, crédito mais caro e maior aversão a risco. Essa combinação amplia o risco de compressão de rentabilidade e menor investimento dos produtores no próximo ciclo, a depender do prolongamento do conflito.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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