Juros x Inflação: Entenda a relação entre eles

Crédito: Larissa Burchard/Laís Nagayama

A Dexco — dona das marcas Deca, Portinari, Hydra, Duratex e Castelatto — está atravessando uma longa reestruturação dos negócios, com redução da linha de produtos, fechamento de fábricas e venda de ativos. O objetivo é melhorar a margem de lucro e reduzir a dívida, que estão pesando sobre os resultados e gerando uma certa desconfiança entre analistas e investidores.

Após a publicação do balanço do quarto trimestre, as ações da Dexco caíam perto de 5% nesta quinta-feira, 5, figurando entre as maiores baixas da Bolsa. O desafio para recolocar os negócios no prumo é ainda maior diante do desaquecimento do mercado de materiais de construção e dos juros altos da economia brasileira, que elevaram bastante suas despesas com empréstimos.

“Continuamos a acreditar que o mercado precisará de maior confiança antes de se comprometer totalmente com essa tese”, afirmam os analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo, em relatório do BTG Pactual.

Na visão dos analistas, a empresa tem avançado gradualmente na redução da alavancagem por meio da venda da sua base de florestas, mas entendem que isso não será uma solução definitiva para seus problemas. Além disso, eles apontam que a reestruturação das linhas de revestimentos cerâmicos e de metais e louças sanitárias ainda é limitada. “Acreditamos que o mercado gradualmente ganhará confiança na história, desde que a execução continue melhorando”, acrescentaram os analistas do BTG.

Já o analista do Safra, Ricardo Monegaglia, considera fundamental a Dexco avançar na venda de ativos para ajudar na geração de caixa e no controle do endividamento. “Continuamos a defender a necessidade de a Dexco vender ativos para reduzir a dívida e as despesas financeiras”, afirma, em relatório.

Balanço sob pressão

A Dexco teve queda de 64% no lucro líquido na passagem de 2024 para 2025, ficando em R$ 63 milhões. Excluídos ganhos e perdas considerados não recorrentes, a contração foi menor, de 47%, para R$ 107,5 milhões. O Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado e recorrente ficou estável em R$ 1,6 bilhão, assim como a margem, em 20%. A receita líquida consolidada também não andou, estagnada em R$ 8,2 bilhões.

A dívida líquida foi a R$ 5,51 bilhões no quarto trimestre, recuo de 1,2% em relação ao terceiro trimestre. Com isso, a alavancagem (medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda) caiu para 3,35 vezes, de 3,48 vezes anteriormente. Em 2025, a companhia desembolsou R$ 936 milhões com despesas financeiras líquidas, montante que foi 54% maior na comparação anual.

Revisão dos negócios

A Dexco vem de um longo ciclo de investimentos que coincidiu com a queda nas vendas de materiais no País e a subida dos juros, o que afetou em cheio seus negócios. Com isso, passou a revisar a sua estratégia.

Na Divisão de Louças e Metais Sanitários, o grupo encerrou as atividades da fábrica da Deca em João Pessoa, na Paraíba, em julho de 2025, decidindo concentrar as operações na unidade de Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. A empresa passou também a se concentrar nos produtos de maior valor agregado e maior rentabilidade, com expectativa de melhora gradual das margens neste ano.

Na Divisão de Revestimentos Cerâmicos, a situação é parecida. A companhia suspendeu parte das linhas de produção localizadas na Região Sul. Com a base industrial mais ociosa, houve perda de escala e aumento do custo de produção por unidade, o que machucou o lucro. Mas o objetivo foi reduzir estoques e se voltar também para itens mais “premium”, em que a margem é maior.

“Reconhecemos a necessidade de acelerar ajustes internos: reduzir complexidade, endereçar ociosidade e elevar a execução em frentes críticas, desde o go-to-market (ações de vendas) à eficiência industrial, passando por desenvolvimento das fábricas e captura de produtividade”, afirmou o presidente da Dexco, Raul Guaragna, em carta anexada à apresentação de resultados. Segundo Guaragna, os indicadores financeiros estão “abaixo do potencial” da companhia. Por outro lado, ele destacou que a necessidade de mudanças já foi diagnosticada e que já há ações concretas para melhorias.

Vendas de ativos

Além da mudança nas fábricas e nas linhas de produto, a Dexco está fazendo a venda de bases florestais que não serão usadas por sua Divisão de Painéis de Madeira. Em janeiro, ela anunciou a venda de 1,2 milhão de metros cúbicos de ativos florestais. Na ocasião, o valor da transação não foi revelado. Ainda em janeiro, a Dexco obteve R$ 200 milhões com a venda de participação minoritária na subsidiária Jatobá Florestal para um investidor, via subscrição de novas ações. A Jatobá atua na exploração e na comercialização de ativos florestais e arrendamento de terras.

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A Dexco criou também um novo braço empresarial, a Duratex Negócios Florestais (DNF), com o objetivo de expandir os negócios envolvendo a sua base de florestas e a produção de madeira. A diretora de Administração e Finanças da Dexco, Lucianna Raffaini, afirmou que o grupo quer gerar mais valor com os ativos. “São novas avenidas estratégicas de crescimento que incluem o trade de madeira, a rentabilização de resíduos florestais como o cavaco, e a expansão florestal”, explicou, durante teleconferência com investidores e analistas.

A diretora também reiterou que a desalavancagem é “prioridade máxima” da companhia. A empresa anunciou que espera reduzir a alavancagem de 3,35 vezes no fechamento de 2025 para cerca de 2,7 vezes até o fim de 2026, por meio de avanço na geração de caixa e venda de ativos operacionais e não operacionais.

Guaragna comentou na teleconferência que considera também movimentos mais “estruturais”, sinalizando possível saída de algum mercado (como já fez no passado ao vender a sua linha de duchas e chuveiros). Ele ponderou, entretanto, que ainda não há uma decisão concreta nesse sentido.

“A Dexco continua apresentando resultados mistos, com situações distintas nas suas linhas de negócios”, observaram os analistas Stefan Weskott, Pedro Ferreira e Gabriel Barra, em relatório do Citi. Enquanto a Divisão de Painéis de Madeira está indo bem, a Divisão de Louças e Metais está num ponto intermediário da sua reestruturação, e a de Cerâmicos, mais atrás.

“Esperamos que a empresa gere caixa até o final de 2026 para reduzir sua dívida líquida e a alavancagem. Quaisquer vendas de ativos e monetizações de caixa realizadas pela empresa ao longo de 2026 poderão acelerar esse processo”, ressaltam.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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