Parece inevitável concluirmos que agora vivemos em um mundo no qual a presença da inteligência artificial irá tornar-se, em pouco tempo, tão ubíqua quanto a presença da eletricidade ou de redes de dados. Negócios de todos os tamanhos e setores — industriais, governamentais, de serviços, agrícolas — dificilmente irão existir sem utilizar os recursos da IA.
Da mesma maneira que não imaginamos uma fábrica sem eletricidade, ou um escritório de engenharia, ou uma escola, também será razoável assumir o uso desta tecnologia em maior ou menor grau em todos os segmentos. Mas, se questões relativas ao uso de energia, recursos naturais, ou arquitetura de software e hardware são importantes, deveríamos estar convencidos de que a resultante final de um mundo caracterizado pela presença da IA será positiva. Será que temos essa certeza?
Para explorar essa questão, vamos procurar buscar uma visão equilibrada a respeito do impacto desta tecnologia, apresentando quatro argumentos “otimistas” e quatro “pessimistas”.

O avanço da IA em todos os campos amplia debate (na terça-feira, 3, um robô serve comida e bebida em um estante do Congresso Mundial de Dispositivos Móveis, em Barcelona, na Espanha) Foto: Josep Lago/AFP
O time dos otimistas acredita que a IA não é apenas uma nova ferramenta (falamos disso aqui), mas sim uma plataforma que irá acelerar o progresso em praticamente todos os campos do conhecimento humano.
Já os pessimistas argumentam que a preocupação vai além de um simples temor da tecnologia: afinal, estamos falando de sistemas que combinam autonomia com capacidade de processamento e armazenamento superiores às humanas, cujo funcionamento não compreendemos plenamente e cujo alinhamento com nossas intenções não é garantido — um cenário que naturalmente gera apreensão.
O primeiro argumento do time dos otimistas envolve, claro, a economia: a inteligência artificial atuará como motor para o crescimento global. A implementação da IA no ambiente empresarial vai alterar a forma como os negócios operam e como a mão de obra é utilizada, além de criar novos mercados e redefinir dinâmicas já existentes: mais produtividade, eficiência, e oferta de produtos, e serviços.
As estimativas sobre o impacto econômico da IA evoluem com a tecnologia. Se em um relatório de setembro de 2018 a McKinsey projetava um acréscimo de 1,2% ao ano no PIB global até 2030 (cerca de US$ 13 trilhões), em 2023 a consultoria aumentou suas estimativas para um aumento anual de US$ 2,6 a US$ 4,4 trilhões — potencialmente, o equivalente à economia de um país como o Reino Unido.
Já a Accenture estimou, em 2024, impacto em nada menos que 44% de todas as horas trabalhadas nos EUA, com melhorias de produtividade capazes de gerar mais de US$ 10 trilhões no PIB global até 2040. O crescimento seria consequência de um impacto não apenas nos ganhos de produtividade (com novas tecnologias, automação e melhorias nos processos) como também no aumento da demanda dos consumidores, interessados em produtos personalizados e inteligentes.
Já o primeiro argumento do time dos pessimistas contra um futuro próspero com a inteligência artificial está ligado ao risco existencial que passamos a correr com a criação de uma IA Genérica, capaz de aprender e evoluir de forma autônoma e desalinhada dos objetivos que nós, seres humanos, temos. Já falamos aqui deste problema central na agenda de IA.
O chamado problema do controle está ligado à dificuldade de fazer uma entidade mais inteligente que seus criadores (caso de um IA Genérica) obedecer ordens quando sua capacidade de planejamento estratégico é bem superior à nossa. Pesquisadores acreditam que, nesse estágio, a IA iria desenvolver inclusive objetivos ligados à sua autopreservação para ser capaz de atingir seus objetivos.
E isso nos leva ao problema do alinhamento, no qual os objetivos que nós estabelecemos para a IA podem parecer óbvios para nós mas que, em função da forma literal e da falta de contexto e profundo entendimento da natureza humana, podem ser mal interpretados pela máquina. Um exemplo envolve uma instrução para eliminar o câncer da face da Terra e, para isso, o plano envolve eliminar todos os seres que podem desenvolver a doença.
Nossa discussão prossegue na próxima coluna. Até lá.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







