Desde que a TV de tubo em preto e branco se popularizou nos anos 50 pelo mundo, a resolução de imagem melhorou significativamente a cada década. O que começou com uma resolução equivalente a 75 mil pixels aumentou para mais de 8 milhões nos televisores 4K. Era de se esperar que o movimento continuasse com uma TV que oferecesse 33,2 milhões de pixels. Mas não foi isso que aconteceu, pegando as fabricantes de eletrônicos de surpresa.

Nomes como TCL, Sony e LG deixaram o segmento sem novos produtos. Entre os grandes nomes do mercado, apenas a Samsung permanece com TVs 8K. O motivo? O consumidor não viu uma diferença significativa na nova resolução de imagem como viu no salto entre a TV HD para a Full HD e depois para a 4K.

As primeiras TVs com imagem 8K começaram a ser vendidas globalmente em 2019, mas, em vez de ter uma trajetória de crescimento de vendas consistente, o declínio veio em quatro anos. De acordo com dados da consultoria Omdia, o ápice de vendas dos televisores 8K ocorreu em 2022, quando foram vendidas 386,8 mil unidades no mundo, sendo 22,4 mil na América Latina. No ano passado, esses números foram para 87 mil e 6,6 mil, respectivamente.

Para efeito de comparação, o mercado global de TVs, considerando todos os tamanhos e resoluções de imagem, é de mais de 200 milhões de unidades por ano.

“O 8K é um formato que está morrendo. Os consumidores não veem vantagens. Nenhum conteúdo é produzido devido aos custos de produção muito altos, e a tecnologia chegou a um beco sem saída”, afirma Patrick Homer, líder de pesquisa de TVs na Omdia.

Outros motivos apontados por especialistas para o fracasso da TV 8K são a velocidade limitada da conexão de internet no País, a dificuldade de percepção de diferença em relação à imagem em 4K e o custo de produção elevado dos produtos, resultando em preços altos.

Para Marco Aurélio Rodrigues, professor de pós-graduação em economia criativa, estratégia e inovação da ESPM, o dilema que impediu o sucesso comercial da TV 8K é grande, envolvendo falta de filmagens na resolução, falta de infraestrutura para transmissão desses conteúdos e a qualidade limitada de internet do consumidor.

“Se a infraestrutura de internet do usuário não for veloz e acessível o suficiente, é pouco provável que ele seja convencido a desembolsar uma pequena fortuna para comprar uma TV 8K. Tudo que ele vai ver são aquelas bolinhas girando, pedindo para ele aguardar mais alguns segundos para o filme ou a série começar”, diz Rodrigues.

O professor lembra que a falta de conteúdo não se limita aos filmes e séries, mas também atinge a indústria de games.

“Há ainda uma oferta muito baixa de games que rodam nessa resolução, porque os próprios desenvolvedores não querem arcar com os custos para produzir jogos com essa qualidade, uma vez que a base instalada de consumidores com essa TV ainda é muito pequena”, afirma Rodrigues.

Segundo Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, a baixa adesão de mercado somada ao alto custo de fabricação e à falta de conteúdo evitaram o barateamento da TV 8K como aconteceu com os televisores Full HD e 4K. “A empresa precisa cobrar muito caro para poder ter alguma espécie de retorno. Como pouca gente compra, não tem os ganhos de escala. Com isso, não chega a criar um ciclo virtuoso que poderia gerar redução no preço”, afirma. “Só a Samsung continua investindo na TV 8K e é muito mais (por causa de) um posicionamento de marca. A LG abandonou, a TLC e a Sony”, diz.

Hoje, uma TV 8K pode ser encontrada com preços entre R$ 8 mil e R$ 50 mil. Modelos de 2020 ainda estão à venda, exemplificando a dificuldade de convencer o consumidor a adquirir esses aparelhos só por causa da resolução.

Igreja ressalta que, além da questão econômica, a percepção de diferença foi muito pequena, travando as vendas. “O público sentiu um salto importante do 1080p, o Full HD para o 4K, mas muita gente não consegue ver no 8K algo que justifique, já que falamos de dezenas de milhares de reais ou muitos mil dólares. O consumidor olha esse delta e não vê muito sentido”, diz o especialista.

Consumidor não percebe diferença

Um estudo publicado na revista científica Nature no fim do ano passado apontou que as pessoas não conseguem notar a diferença de qualidade de imagem em uma TV de resolução 8K na maioria dos casos. Isso tem a ver com o tamanho da tela e a distância entre o televisor e o consumidor, fator que é limitado pelo tamanho das casas e apartamentos dos consumidores.

Segundo o estudo, para ter a melhor visualização de imagem em uma TV com resolução 8K, ela teria de ter tamanhos de 80 a 100 polegadas e ficar a uma distância de dois metros de quem a assiste. Em tamanhos menores, de 40 e 50 polegadas, a distância cai para 1 metro. Entretanto, a maioria das TVs 8K é de tela grande.

O estudo conduzido pela Universidade de Cambridge e pela meta (dona do Facebook e do WhatsApp) apontou que uma TV 4K ou 8K em uma sala de estar comum não oferece benefício perceptível ao consumidor em termos de qualidade de imagem quando a comparação é com a tela de resolução 2K, usada em monitores e também em notebooks. O estudo foi feito com 18 participantes que fizeram os testes com metodologia científica.

Procuradas, Samsung e LG, que lançaram TVs 8K no Brasil, não responderam até a publicação da reportagem.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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