Ao ter bloqueado o tarifaço de Trump, a Suprema Corte fez mais do que garantir a observância da Constituição. Por outras vias, apontou para o maior equívoco do presidente Trump, que é o de pretender recuperar a hegemonia dos Estados Unidos por meio de um falso instrumento estratégico.

Política tarifária serve para regular não apenas comércio exterior mas, também, para estimular (ou não) a produção de bens comercializáveis (“tradeables”). Não serve para obter o mesmo efeito com serviços (transportes, educação, mercado financeiro, seguros, informática etc), que, no entanto, corresponde a quase 80% do PIB dos Estados Unidos.

Se a política tarifária, a anterior ou a que viesse a substituir a que agora foi revogada, tivesse alguma eficácia, poderia até conter a desidratação da manufatura dos Estados Unidos, cuja participação no PIB não vai além dos 10%. Mas não teria musculatura suficiente para o principal objetivo do programa Maga (Make America great again), que é devolver ao país a grandeza dos velhos e bons tempos.

Desse ponto de vista, o governo Trump cai num erro comum dos países em desenvolvimento, que esperam da indústria mais do que o que ela pode dar, num momento em que a economia mundial dá muito mais importância para o setor de serviços.

Outro equívoco do presidente Trump é pretender obter novo arranque da economia por meio do acionamento preponderante de uma só política, no caso a das tarifas alfandegárias, sem dar a mesma importância para outras, como para a política fiscal.

Em consequência disso, o dólar sofre forte erosão porque o governo dos Estados Unidos gasta demais. Os títulos da dívida do Tesouro norte-americano enfrentam rejeição crescente.

Imediatamente após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, analistas de todo o mundo se puseram a examinar para que lado e com que intensidade evoluirá a atual política do presidente Trump.

Ele avisou que procuraria os mesmos objetivos pretendidos também com aumento de tarifas, só que com outra fundamentação jurídica. Parece difícil essa ideia, porque a principal consequência da decisão da Suprema Corte foi a de reassegurar que política tarifária, assim como a criação de outros impostos e taxas, é prerrogativa do Congresso, e não do Executivo.

O próprio Trump parece confuso, correndo atrás do seu boné. Aumentou por 180 dias as tarifas alfandegárias para todos os países em 10%, depois garantiu que aumentaria para 15%, mas ficou nos 10%.

O campo das incertezas se tornou uma vastidão. Como já foi mencionado na Coluna anterior, não só ficaram abertas as portas para processos de indenização pelas partes perdedoras do tarifaço anterior, como parecem afrouxados os acordos com outros governos arrancados por meio das chantagens tarifárias de Trump.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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