Mineração 4.0: a revolução industrial do setor

Drones, satélites, 5G, gestão de dados e veículos autônomos já estão na operação da Vale, Rio Tinto e BHP; para especialistas é a revolução industrial do setor. Crédito: Estadão

A Vale convive, em vários estágios, com a presença de tecnologias digitais em suas operações de mineração no Sudeste e Norte do País, principalmente na produção de minério de ferro. Uma referência global na commodity do aço, com produção anual de 330 milhões de toneladas, a companhia deu os primeiros passos na Mineração 4.0 em 2017 ao criar um Centro de Inteligência Artificial. No ano passado, a Vale inaugurou o quarto centro de IA em Belém.

Também grande produtora mundial de cobre e níquel, a companhia fez em 2024 seu maior investimento em novas tecnologias para suas minas. A Vale fechou a compra de um lote grande de caminhões autônomos para ampliar sua atual frota, de 14 veículos fora de estrada autônomos, na produção do minério de ferro na região de Carajás, no Pará.

Esses veículos mastodontes — com capacidade de até 400 toneladas — prescindem de motoristas para circular dentro das minas: todo o controle é feito em uma central de operações, em ambiente refrigerado.

A expansão da frota será gradual, até 2028, somando 90 caminhões autônomos nas unidades de produção da Serra Norte e Serra Sul de Carajás. A empresa busca maior eficiência operacional, padrões de segurança e de sustentabilidade. Ao mesmo tempo, vai desenvolver e preparar um grupo de empregados para atuar em funções no ambiente digital.

Essa é uma das frentes de transformação digital dentro da companhia, disse em entrevista ao Estadão o diretor de tecnologia e engenharia da Vale, Carlos Eduardo Boechat. O executivo acompanha desde 2011 a evolução da indústria digital, quando fazia seu mestrado na Alemanha. “Há uma lista grande de ganhos que as mineradoras estão buscando ao aplicar os princípios da 4ª revolução industrial, a Indústria 4.0 no negócio de mineração”, afirma.

Como as concorrentes — BHP, Rio Tinto, companhias chinesas e outras gigantes do setor no mundo —, a mineradora brasileira almeja ter operações mais inteligentes usando ferramentas de inteligência artificial (IA), internet das coisas (IoT), drones, sistemas de análise de dados, conectividade, frotas de caminhões autônomos, centrais de operação à distância, instalações de beneficiamento de minério integradas por IA, ferrovias e portos conectados. “As tecnologias transformam a mina em organismo inteligente e conectado”, afirma Boechat.

Há dois anos na Vale, o executivo diz que a empresa tem buscado inspiração na implantação das tecnologias digitais na Austrália, país que é o maior produtor de minério de ferro, e na China, gigante no consumo e um grande produtor de minerais. “É onde esses processos na mineração estão mais avançados”, afirma, acrescentando que na transformação digital do setor a Vale sobressai como uma companhia benchmarking (referência).

A Vale, informa o executivo, já obtém resultados relevantes. O foco está em segurança, competitividade e sustentabilidade, lastreado por uma série de iniciativas que vão sendo implantadas nas operações da companhia. A Vale também opera fora do Brasil — no Canadá (níquel e cobre), Ásia (China, Indonésia e Malásia, em minério, níquel e logística) e Oriente Médio (Omã, em operações de logística e portuária).

Com os caminhões autônomos, a companhia já conseguiu ganho de 15% em rendimento operacional e redução de 7,5% em consumo de combustível. Os primeiros veículos autônomos estrearam no Sistema Norte, em 2019.

Toda essa frota, diz o executivo, vai conviver com o sistema truckless (sem caminhões), formado por uma rede de correias transportadoras de longa distância (17 km na mina S11D) que leva o minério de um ponto a outro sem gasto de combustível e redução de emissões de carbono.

Segundo a Vale, o programa de caminhões autônomos teve início em 2018 com os primeiros veículos na mina de Brucutu, em Minas Gerais. Inaugurada em 2006, essa mina está situada no município de São Gonçalo do Rio Abaixo, com capacidade de produzir mais de 30 milhões de toneladas por ano. É a maior mina de ferro no Estado e a segunda do País, só perdendo para Carajás.

Do centro de operações em Brucutu a Vale opera também os caminhões autônomos da mina Capanema, que fica na região central de Minas, entre os municípios de Santa Bárbara, Ouro Preto e Itabirito, não muito distante de Brucutu. Até o ano passado, diz a empresa, sua frota de equipamentos autônomos em operação, incluindo caminhões, perfuratrizes e máquinas de pátio, passava de 70 unidades no Brasil.

A mineração 3.0 trouxe a automação industrial, robótica e conectividade, destaca Boechat, e a 4.0, as tecnologias digitais. “Começamos a viver, na Vale, uma nova era, que vai além da 4.0, com inteligência artificial, ESG e as pessoas no centro da transformação”, afirma. Na companhia, acrescenta, há locais (das operações) já nesse estágio e algumas caminhando para a 4.0. “Dificilmente, há alguma mineradora na América Latina com o nosso nível de maturidade tecnológica.”

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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