Como a inteligência artificial ameaça postos de trabalho no Brasil
Especial do ‘Estadão’ desvenda qual é o potencial risco da IA substituir profissionais que executam tarefas operacionais e repetitivas. Crédito: TV Estadão
Nos últimos anos, o Brasil acelerou os passos na corrida da inteligência artificial com direcionamento de investimentos pesados na tecnologia. Pelo menos 94,4% das organizações tratam o assunto como prioridade estratégica, conforme pesquisa da Fundação Dom Cabral (FDC) e da CI&T. Com o avanço da automação na rotina de trabalho, surge também o temor de que a ferramenta substitua funções antes executadas por humanos.
Já outras empresas não dizem com clareza se as reduções de equipes foram motivadas pelo boom da ferramenta.
O Estadão reuniu empresas com operação no País que já substituíram – ou planejam – parte da força de trabalho por IA. Além de companhias que fizeram declarações dúbias sobre o impacto da tecnologia na mão de obra.
Lufthansa
Em dezembro, o CEO da companhia aérea alemã Lufthansa, Carsten Spohr, confirmou ao Estadão o corte de 4 mil postos de trabalho até 2030 em áreas automatizadas pela IA nos setores administrativos, de atendimento ao cliente e de manutenção preditiva.
“Fechamos um call center (no Canadá) porque o atendimento ao cliente já foi aprimorado pela IA. Veremos isso também no planejamento de mercado e na gestão de receita das classes de reserva. No futuro, acredito que a IA também desempenhará um papel nessas áreas”, disse.
Carsten Spohr é Presidente Executivo e CEO da Deutsche Lufthansa AG Foto: Divulgação/Lufthansa
Na época, pessoas ligadas à empresa ouvidas pelo Estadão apontaram que a companhia está investindo para também aprimorar o site e o aplicativo com uso de IA para aumentar os ganhos de eficiência.
IBM
A IBM encerrou o laboratório de pesquisa no Brasil, o único na América Latina, resultando no desligamento de contratos de 100 funcionários nos escritórios de São Paulo e no Rio de Janeiro no final de 2025.
O laboratório funcionou por 15 anos e era focado em tecnologias para IA, nuvem e computação quântica. Ao Estadão, a multinacional alegou que a decisão refletiu uma consolidação de atividades em locais já existentes e que o ajuste não impacta a direção estratégica das operações brasileiras nem tem relação com a adoção da IA.
No mesmo período em que anunciou o fechamento do laboratório no País, a fornecedora de tecnologia também comunicou a previsão de demitir milhares de funcionários no mundo, à medida que muda o foco para negócios de maior crescimento em consultoria e software de IA.

IBM estima que 7,8 mil profissionais devem ser afetados pela IA Foto: Mary Altaffer/AP Photo
O CEO da IBM, Arvind Krishna, declarou durante entrevista ao Wall Street Journal que a empresa já substituiu funcionários de RH por inteligência artificial e passou a reduzir contratações em áreas administrativas mais expostas à automação. Apesar dos cortes, há contratações na empresa. O CEO mencionou que há demanda para profissionais em IA, computação quântica, programação e vendas.
Ele estimou que até 7,8 mil empregos na empresa poderiam ser afetados pela automação. Segundo Krishna, a expectativa é que até 30% das funções administrativas possam ser substituídas por IA e automação em um período de cinco anos.
Em nota, a IBM confirmou a extinção de algumas funções, mas disse estar recapacitando os profissionais para outras áreas, enquanto contrata “de maneira intensiva” em setores ligados à IA. A empresa afirma aplicar a tecnologia para “transformar a forma como o trabalho é realizado”.
As mudanças estão focadas em realocações em vez de eliminações generalizadas de cargos, o que mantém o número de funcionários estável, de acordo com a companhia. “À medida que a demanda se desloca para competências em IA, dados e engenharia, o aprimoramento e a recapacitação permanecem centrais para que os funcionários façam a transição para novas oportunidades”, acrescenta.
HP
A empresa americana HP também anunciou no final do ano passado uma redução de 4 mil a 6 mil funcionários no quadro global da companhia. A mudança está associada a um plano de adoção de IA para aumento de produtividade. Os cortes devem ser feitos até 2028, segundo o relatório divulgado.
A estimativa é economizar US$ 1 bilhão a partir da redução de custos na “força de trabalho e na simplificação de plataformas”, calcula o relatório. O encolhimento representa cerca de 10% do número total de funcionários.
O Estadão entrou em contato com a organização para entender os cortes e se houve impacto na operação local, mas a empresa não respondeu até a publicação desta reportagem.
Amazon
Em janeiro deste ano, foi a vez da Amazon anunciar a demissão em massa de 16 mil funcionários no mundo. Foi a segunda rodada de cortes em menos de três meses.
Conforme mostrou o Estadão, a vice-presidente sênior de Pessoas, Experiência e Tecnologia, Beth Galetti, afirmou que as demissões decorrem de um processo iniciado em outubro de 2025 com a finalidade de “eliminar a burocracia”.
Em nota enviada à reportagem, a Amazon ressaltou que investe em IA há mais de 25 anos. Segundo a companhia, o objetivo “sempre foi utilizar a tecnologia para potencializar o trabalho dos funcionários nas múltiplas frentes de negócios.”
Neste momento, a estratégia do uso de IA, de acordo com a empresa, é capacitar funcionários com foco na eficiência e produtividade. Há assistentes GenAI para vendedores, otimização de logística e ferramentas de análise para tomada de decisões.
Nesse contexto, os últimos pronunciamentos do CEO da multinacional sugerem uma possível redução nos cargos, além da criação de outros por causa da IA. Em 2025, Andy Jassy, afirmou que a IA daria possibilidade para a empresa ter equipes mais enxutas nas atuais funções e um maior número de pessoas em novos cargos.

Andy Jassy disse que a IA seria uma oportunidade para ter equipes mais enxutas nas atuais tarefas Foto: Jordan Strauss/Jordan Strauss/Invision/AP
A empresa argumentou que, além de investir em automação, também mantém novas contratações. “Temos planos ambiciosos e de longo prazo para a operação no Brasil. Ao mesmo tempo que seguimos expandindo, inovando em produtos e serviços e nosso uso de tecnologias e IA, seguimos contratando em ritmo acelerado”, disse em nota.
Atualmente, 36 mil trabalhadores atuam no Brasil. No entanto, a empresa não informou qual foi o impacto da demissão mais recente na operação do País, nem mesmo quantos foram desligados nessa rodada.
Mercado Livre
O Mercado Livre demitiu 119 funcionários na América Latina, sendo 38 no Brasil. As demissões aconteceram em janeiro deste ano em meio a um processo de ampliação de IA em algumas áreas da companhia.
Na época, a empresa enviou uma nota em que não confirma nem nega a substituição de humanos por IA, deixando em dúvida as razões exatas das demissões. No documento, afirmou estar “evoluindo os perfis” na área de experiência do usuário (UX), com o objetivo de integrá-la de forma mais eficaz nas áreas de design e conteúdo e “fomentar estruturas mais ágeis”.

Centro de distribuição do Mercado Livre, em Cajamar Foto: Werther Santana/Estadão
Os profissionais mantidos passaram a ter acesso a novos recursos de IA. A expectativa é que designers assumam parte das tarefas antes desempenhadas pelos escritores de UX. A empresa alega ter realizado 42 mil contratações na América Latina em 2025 e que as demissões de janeiro foram pontuais.
A reportagem entrou em contato com o Mercado Livre, mas a empresa optou por não se pronunciar a respeito dos motivos dos desligamentos estarem associados ao uso da IA nem esclareceu se houve substituição de funções antes desempenhadas por pessoas.
Meta
Ainda neste ano, a Meta, dona do Facebook e do WhatsApp, planeja uma rodada de demissões que pode atingir 20% ou mais de sua força de trabalho global. A medida ocorre em meio ao esforço da companhia para compensar os altos custos de infraestrutura de inteligência artificial e aumentar a eficiência com trabalhadores assistidos por IA.
O Estadão procurou a empresa para confirmar se de fato há previsão de demissão em massa em 2026, mas até o momento não houve retorno sobre o assunto.

Meta planeja demitir 20% da força de trabalho com boom da IA Foto: Tony Avelar/AP Photo
No início de 2025, a empresa havia demitido cerca de 4 mil funcionários em diversos escritórios ao redor do mundo, após um aviso do CEO Mark Zuckerberg de que o ano seria “intenso”. Os cortes foram comunicados por e-mail. Não houve confirmação sobre cortes no Brasil.
Naquele mesmo período, um memorando interno obtido pela agência de notícias Reuters indicou que a Meta também iniciou um movimento de contratação de profissionais especializados em aprendizado de máquina e outras áreas ligadas ao desenvolvimento de produtos de IA.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







