Pense por um instante nas reuniões das quais você participou recentemente. Quantas ideias já morreram ali? Não porque fossem ruins, mas porque alguém na sala, quase sempre uma pessoa experiente ou respeitada, explicou com muita eloquência por que elas não funcionariam.
Depois de quase duas décadas observando executivos e empresas, aprendi a reconhecer essa cena antes mesmo que ela termine.
Uma ideia surge. Ainda imperfeita, como quase todas as ideias novas.
Então alguém assume o papel do “realista” e começa a listar os motivos pelos quais não vale a pena tentar. A reunião continua. A ideia morre. O pessimismo sobrevive. E quase ninguém percebe o que acabou de acontecer.
Toda geração acredita viver o período mais incerto da história. E talvez esteja certa. O curioso é que, diante da incerteza, organizações costumam reagir de forma previsível: passam a valorizar cada vez mais as pessoas capazes de explicar por que as coisas não vão funcionar.
O que raramente se diz em voz alta é que o pessimismo crônico se tornou, silenciosamente, um disfarce confortável para a preguiça intelectual.
Ser pessimista não exige criatividade. Não exige risco. Não exige a vulnerabilidade de apostar em algo e errar.
O pessimista nunca se decepciona porque nunca esperou nada melhor. Nunca precisa se comprometer com um caminho porque já demonstrou, com dados e argumentos, que nenhum caminho funciona.
Há ainda um benefício colateral poderoso: em muitas culturas organizacionais, o ceticismo permanente soa sofisticado. Apontar problemas parece inteligência ou experiência. Propor soluções, às vezes, parece ingenuidade.
O mundo corporativo não inventou esse fenômeno. Apenas encontrou uma forma de recompensá-lo.
Executivos não são pagos apenas para mapear riscos; líderes são pagos para lidar com a incerteza e, ainda assim, encontrar um caminho Foto: AZIZAH ART Ai/Adobe Stock
Durante décadas, as organizações ensinaram uma lição sutil: errar é mais perigoso do que não tentar.
O executivo exemplar era aquele que entregava o que prometia, sem surpresas, dentro do orçamento e dentro do prazo. Errar parecia uma falha de caráter tanto quanto de competência.
Essa equação nem precisa ser declarada. Ela é aprendida por observação.
O profissional que viu um colega ficar exposto depois de um projeto ousado que fracassou não precisa de manual de sobrevivência corporativa. Ele aprendeu.
Nesse contexto, o pessimismo deixa de ser apenas uma postura intelectual e se torna uma estratégia racional de proteção. Se eu nunca defendo o novo, nunca sou responsável pelo fracasso do novo.
O problema é que organizações construídas sobre esse pacto silencioso param de evoluir. Não de forma dramática, nem da noite para o dia, mas de forma gradual e quase invisível. Uma ideia enterrada de cada vez.
Quando finalmente percebem que perderam a capacidade de se reinventar, a explicação raramente aponta para a cultura que construíram. Aponta para o mercado. Para a concorrência. Para o momento. Para tudo, menos para as reuniões onde o futuro foi descartado antes de ter chance de existir.
Existem, claro, realistas genuínos. Pessoas que enxergam o ambiente com clareza, nomeiam os riscos sem dramatizar e, ainda assim, buscam caminhos.
O problema é que todo pessimista se apresenta como realista.
A frase costuma vir em alguma variação de “não estou sendo negativo, estou sendo realista” ou “só estou dizendo com base na minha experiência”.
E, em parte, é verdade. Os problemas apontados raramente são inventados.
O que falta não é diagnóstico.
O que falta é a segunda parte da conversa: e agora, o que fazemos?
O psicólogo Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia, mostrou que nosso cérebro processa informações negativas com intensidade duas a três vezes maior do que positivas equivalentes. Esse viés foi um mecanismo de sobrevivência brilhante para nossos ancestrais.
O problema é que o mesmo sistema cognitivo que nos protegia de predadores na savana hoje opera nas reuniões de planejamento estratégico.
A pergunta, então, não é apenas sobre os outros na sala.
É sobre você.
Quando foi a última vez que você usou “sendo realista” como prefácio para encerrar uma conversa que ainda poderia ter continuado?
Existe uma diferença importante: análise e liderança não são a mesma coisa.
A análise descreve o problema com precisão.
A liderança parte dele em busca de uma solução.
Executivos não são pagos apenas para mapear riscos. Muitos analistas fazem isso muito bem. Líderes são pagos para algo mais difícil: lidar com a incerteza e, ainda assim, encontrar um caminho.
Existe outro fenômeno que observo com frequência. O que a experiência faz com nossa capacidade de acreditar.
Quando somos jovens, apostamos com certa imprudência. Acreditamos, às vezes sem razão suficiente, que as coisas podem funcionar.
Com o tempo, acumulamos cicatrizes. Projetos que não decolaram. Apostas que não se confirmaram. Entusiasmos que a realidade frustrou.
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E aqui mora um paradoxo silencioso da vida profissional.
A experiência que deveria ampliar nossa visão de possibilidades, muitas vezes apenas amplia nossa lista de razões para não tentar.
O cinismo chega devagar. Começa a soar como maturidade. Ganha o nome de experiência.
Até que um dia você percebe que virou exatamente a pessoa que um dia prometeu a si mesmo que nunca seria.
Aquela que explica, com enorme eloquência, por que as coisas não vão funcionar.
O maior equívoco ao falar de liderança positiva é confundi-la com ingenuidade.
Não se trata de ignorar problemas. Nem de fingir que tudo vai dar certo.
O que distingue líderes eficazes é algo mais difícil: a capacidade de olhar a realidade com brutal honestidade e, ainda assim, sustentar um racional genuíno de esperança.
Não uma esperança vaga. Uma esperança com plano.
O líder que as organizações precisam é aquele que consegue dizer, com credibilidade: estamos nessa situação, eu a enxergo com clareza e acredito, com razões concretas, que podemos chegar a um lugar melhor. Para isso, precisamos de um plano real e do engajamento de todos.
E quando chegarmos lá, veremos um horizonte ainda mais amplo à frente. Porque cada novo patamar revela possibilidades que antes não estavam visíveis.
Entre o profeta do colapso e o arquiteto das possibilidades, todo líder faz uma escolha.
Quando a próxima ideia surgir na sala, qual dessas duas pessoas você será?
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







