A inflação brasileira permanece acima da meta mesmo com taxas de juros reais elevadas. Enquanto muitos analistas apontam o cenário fiscal como o único culpado, a eficácia dos canais de transmissão da política monetária também entra em xeque.

O mecanismo tradicional, que deveria esfriar a demanda ao elevar o custo do dinheiro, enfrenta barreiras estruturais internas. Essas particularidades fazem com que o impacto esperado na economia real sofra distorções importantes, conforme divulgado pelo Estadão.

A forma como o governo gere a dívida e como o crédito é ofertado no país criam um cenário onde o aumento da Selic não freia o consumo da maneira prevista pelos livros de economia, gerando um debate urgente sobre a real potência monetária.

Entendendo os canais de transmissão da inflação

O chamado canal da riqueza prevê que juros altos reduzam o valor de ativos, tornando famílias mais cautelosas. No Brasil, contudo, metade da dívida pública possui títulos pós-fixados à Selic, que rendem mais conforme os juros sobem.

Dessa forma, o investidor não perde patrimônio, mas aumenta sua renda financeira. Isso acaba por estimular o consumo em vez de contê-lo, contrariando a lógica clássica que deveria atuar no resfriamento da demanda agregada da economia.

A baixa sensibilidade ao crédito

Para o consumidor final, o crédito livre possui taxas exorbitantes, superando 60% ao ano. Em casos de rotativo de cartão de crédito, os juros ultrapassam 400%, tornando irrelevante qualquer variação pequena na taxa Selic.

Como o tomador já paga valores astronômicos, um ajuste de poucos pontos percentuais no custo básico da economia não altera sua decisão de compra, limitando drasticamente a eficácia do Banco Central em conter a inflação via consumo.

O impacto real nas empresas brasileiras

A situação é oposta para as empresas, onde o crédito é mais sensível e custa cerca de 25% ao ano. Aumentos na Selic comprometem diretamente o fluxo de caixa, elevando o custo de endividamento e gerando forte estresse financeiro nas companhias.

Isso penaliza o investimento produtivo com mais severidade do que o consumo das famílias. O custo de desinflacionar torna-se, assim, mais elevado e ineficiente, prejudicando o crescimento das empresas em vez de equilibrar a demanda de forma homogênea.

Necessidade de um debate mais amplo

O combate aos desequilíbrios fiscais é essencial, mas não deve ser o único foco das autoridades. A estrutura do sistema financeiro nacional exige atenção para que a política monetária ganhe maior precisão em sua atuação no mercado interno.

Para alcançar um controle efetivo da inflação, o país precisa discutir a eficiência dos mecanismos de transmissão dos juros. O futuro da economia depende não apenas do nível da Selic, mas de como ela chega a cada setor da sociedade brasileira.

A fonte original é o Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo.

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