A política monetária no Brasil (e no mundo) não vai ficar indiferente à guerra no Irã. A alta do petróleo é um típico caso de choque adverso de oferta, que pode ter efeitos estagflacionários. A inflação sobe desde o primeiro momento, mas a perda de renda (mais gastos com energia) acaba tendo efeitos recessivos.
No manual dos bancos centrais, esse é um tipo de choque em que se acomoda o efeito inflacionário direto (a alta da energia), mas se combate os efeitos secundários, isto é, a propagação dessas altas para os outros preços da economia.
No caso brasileiro (e de outras economias emergentes), há uma preocupação adicional, que é o impacto no câmbio da maior aversão a risco global trazida pelo conflito. Se o câmbio se desvalorizar fortemente – a depreciação no caso do Brasil foi modesta até agora -, isso aumenta o risco de propagação da alta da energia para os outros preços.
O problema com a guerra no Irã é que há muita incerteza sobre como vai se desenrolar. O fato de Donald Trump não ter até agora dado nenhuma ideia clara dos seus objetivos para além de castigar o país persa com bombardeios contribui para a imprevisibilidade do conflito. É difícil afirmar se vai durar semanas ou meses.
Até agora, já ocorreram a destruição de infraestrutura de energia na região e a paralisia do transporte marítimo (afetando diretamente o petróleo) pelo estreito de Ormuz. Não se tem ideia de quanto tempo a interrupção do transporte vai durar nem do tamanho do estrago de infraestrutura que ocorrerá. Assim, é muito difícil fazer previsões sobre até onde irá a alta de petróleo, gás e fertilizantes, e sobre quanto tempo vai durar.
Os bancos centrais terão de fazer hipóteses e atribuir probabilidades a diversos cenários possíveis dos desdobramentos do conflito. Se o choque adverso de oferta se revelar persistente, vai afetar as expectativas inflacionárias e o “orçamento” de cortes da Selic terá que ser repensado.
Na situação anterior ao início do conflito, o BC estava se preparando para uma calibração do atual aperto monetário, movimento congruente com os ganhos de desinflação dos últimos seis a 12 meses. A ideia era levar a taxa básica de juros de um nível muito contracionista para um patamar apenas contracionista. O mercado interpretou esse plano de voo como um orçamento de corte por volta de 250 a 300 pontos base a partir do nível atual de 15% da Selic.
A disposição do BC de calibrar a política monetária não muda com a guerra no Irã, mas é bem possível que um grau a mais de conservadorismo entre nas deliberações da autoridade monetária.
Em relação à decisão da reunião do Copom de 17 e 18 de março, a guerra fez com que se pensasse que o BC poderia iniciar os cortes com 0,25 ponto porcentual em vez do 0,5pp que era a aposta dominante. Na verdade, dado o altíssimo patamar da Selic, e uma inflação em 12 meses que pode cair para perto de 3% em meados do ano, parece um pouco precipitado pensar já em 0,25pp.
O BC ainda tem duas semanas para avaliar os efeitos da guerra no Irã, e possivelmente a situação estará um pouco menos nebulosa na reunião de março. Se o petróleo e a energia continuarem a subir até lá, e o câmbio se desvalorizar mais, é possível que isso pese na hora de determinar a decisão de março. Mas é difícil fazer qualquer previsão com as informações de hoje. O que é certo é que a vida do Banco Central ficou mais complicada.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ([email protected])
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/3/2026f, sexta-feira.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







