P3C debate novo ciclo de infraestrutura e caminhos para atrair investimentos

No encontro do setor de PPPs e concessões, especialistas discutem expansão logística, segurança jurídica e os impactos da reforma tributária nos contratos. Crédito: Imagens: Léo Souza e Deividi Correa/Edição: Laís Nagayama

O Brasil parece estar no caminho para, pelo menos, mitigar um dos seus principais gargalos históricos: o investimento em infraestrutura. Após um período de forte retração, marcado sobretudo pelos efeitos da Operação Lava Jato, o País entrou num ciclo de expansão dos volumes aplicados no setor. Esse movimento é explicado por uma agenda mais robusta de concessões rodoviárias e pelos avanços trazidos pelo marco regulatório do saneamento básico. Desde 2021, o volume de investimentos somou R$ 1,4 trilhão – volume 37% superior aos seis anos anteriores.

Esse avanço deve culminar em um novo recorde de investimento neste ano, de R$ 300 bilhões (os dados não levam em conta os números do setor de óleo e gás), sendo boa parte vinda da iniciativa privada.

Mas, apesar do número exuberante, o volume ainda está longe de ser o ideal. No ano passado, foram R$ 280 bilhões investidos em todo o País, entre recursos públicos e privados, segundo estimativa da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Nos cálculos da entidade, o investimento necessário seria de quase R$ 500 bilhões para modernizar a infraestrutura.

Hoje, o Brasil ainda investe cerca de 2% dos 4% ou 5% do PIB necessários para modernizar o setor. Mas, segundo especialistas, o avanço dos últimos anos é um alento diante do recuo verificado na década passada. “Esse novo ciclo de investimento é inédito”, afirma Roberto Guimarães, diretor de economia e planejamento da Abdib.

Os montantes destinados à infraestrutura no País têm crescido ano após ano e revelam uma clara retomada no setor, turbinada por projetos de diferentes níveis de governo e pelo aumento do aporte da iniciativa privada.

Na série histórica da infraestrutura brasileira, houve crescimento de recursos aportados entre 2010 e 2014, mas essa melhora foi interrompida pela combinação da crise econômica e política de 2015 e 2016, período no qual o Produto Interno Bruto (PIB) caiu mais de 3% em cada um desses anos. O investimento ficou praticamente estagnado até a pandemia de covid, em 2020.

“Com as sucessivas crises, houve um hiato de investimento entre 2016 e 2020. E, a partir de 2021, começa a retomada”, afirma Eduardo Corsetti, diretor de infraestrutura e energia do Itaú BBA.

A agenda do investimento em infraestrutura tem avançado não só por causa da União, mas também por causa das prefeituras e dos governos estaduais. No último levantamento da Abdib, por exemplo, em 2025, o Brasil tinha 469 projetos e iniciativas de investimento em infraestrutura. Desse total, 147 eram do governo federal e 322, de Estados e municípios.

“Não tem mais o ranço ideológico (dos políticos)”, afirma Guimarães. “São projetos novos e que estão sendo estruturados. Eles totalizam quase R$ 800 bilhões.”

Ao longo dos últimos anos, vários fatores contribuíram para o atual momento da infraestrutura, como marcos regulatórios mais maduros, taxas de retorno mais realistas, diversificação das fontes de financiamento e aumento da participação privada nos projetos – em 2025, dos R$ 280 bilhões, R$ 235 bilhões vieram do investimento privado.

“Em 2025, encerramos um ano muito forte e estamos com perspectivas também de um novo crescimento relevante para este ano”, diz José Rudge, também diretor de Infraestrutura & Energia do Itaú BBA.

“Transportes e saneamento foram o grande destaque pela quantidade de leilões, especialmente em rodovias. E, talvez, o setor de energia tenha ficado mais tímido, digamos assim, apesar de ainda representar um pedaço importante”, acrescenta.

Com o marco do saneamento, sancionado em 2020, os Estados e municípios têm promovido uma série de leilões das empresas estatais para tentar cumprir a meta de universalização dos serviços de água e esgoto no Brasil até 2033.

De 2020 até 2025, o investimento público e privado em saneamento subiu de R$ 18,1 bilhões para R$ 44,5 bilhões, segundo a Abdib. No mesmo período, os aportes de recursos da iniciativa privada aumentaram de R$ 3,2 bilhões para R$ 29,8 bilhões.

“Com todas essas novas concessões e a obrigação de universalizar, há um volume recorde de investimento e muita coisa ainda por vir”, diz Eduardo.

No setor de transporte e logística, também houve um crescimento expressivo dos investimentos públicos e privados nos últimos anos – eles saltaram de R$ 30,7 bilhões para R$ 76,5 bilhões entre 2020 e 2025.

Em rodovias, os leilões de otimização, que permitem levar contratos problemáticos para uma nova licitação, têm ajudado a atrair investimentos. “Isso também melhorou muito o ambiente para o setor”, afirma Corsetti.

Para este ano, a expectativa do governo federal é fazer 13 leilões de concessões rodoviárias, num total de R$ 149 bilhões. As concessões de ferrovias também devem ser retomadas com oito projetos de R$ 140 bilhões.

Investimento necessário

Embora tenha crescido, o montante investido em infraestrutura está abaixo do necessário. Segundo a Abdib, o País tem de investir cerca de R$ 497,7 bilhões por ano pelos próximos 10 anos.

Atualmente, portanto, segundo a associação, o hiato anual de investimento em infraestrutura no Brasil, considerando os setores de transporte e saneamento básico, é de 1,74% do PIB (ou R$ 217,8 bilhões). Em 2022, essa diferença era de 2,11% do PIB.

Ao longo do tempo, devido ao envelhecimento e à defasagem da infraestrutura do País, parte dos investimentos foi destinada apenas à reposição da depreciação do capital fixo (da infraestrutura do setor). Isso ajuda a explicar a dificuldade de modernizar a infraestrutura, já que uma parte significativa dos investimentos novos é usada apenas para compensar perdas causadas pelo tempo e pelo uso intenso, explica o especialista Claudio Frischtak, da consultoria Inter.B, em relatório do setor.

“A infraestrutura é um vetor claramente fundamental e central para o crescimento econômico do país. A gente entende que o Brasil reúne aqui condições muito propícias para isso, considerando esse déficit histórico de investimento em infraestrutura que existe no País”, diz Rudge.

No setor de transporte e logística, o hiato é de 1,65% do PIB. Os investimentos ficam abaixo do necessário em ferrovias (0,45% do PIB), no sistema aquaviário (0,42% do PIB) e aeroportuários (0,04% do PIB), em rodovias (0,36% do PIB) e em mobilidade urbana (0,38%).

“São setores que demandam recursos públicos. Não se faz metrô, obras de mobilidade urbana ou ferrovias sem dinheiro público. Aqui e no mundo inteiro”, diz Guimarães, da Abdib.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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