A nossa anatomia humana atual é o resultado de milhões de anos de adaptação ao mundo físico, às nossas limitações energéticas e à necessidade de manipularmos o ambiente externo com eficiência.

Por exemplo, o polegar opositor humano levou cerca de dois milhões de anos para chegar à sua forma atual. Foram dezenas de milhares de gerações para que a seleção natural acertasse o comprimento dos dedos, a curvatura do arco do pé, o ângulo dos joelhos e a largura da pelve que nos permitissem caminhar gastando 75% menos energia do que se engatinhássemos pela savana africana.

Cada centímetro do nosso corpo carrega a história de uma negociação evolutiva entre o que o ambiente externo exigia e o que a biologia conseguia entregar dentro de um orçamento energético muito apertado.

Entretanto, o nosso corpo não apenas se adaptou ao mundo. O mundo também se adaptou ao nosso corpo. Maçanetas ficam a noventa centímetros do chão porque é ali que a mão repousa com naturalidade. Os degraus têm dezoito centímetros de altura porque esse é o limite confortável para a extensão do joelho na direção vertical.

Volantes, corrimãos, interruptores de luz, torneiras, tesouras e até a largura dos corredores de supermercado foram dimensionados para um bípede que tem em média 1,70 metro e duas mãos com cinco dedos.

Esse duplo legado coloca a robótica atual diante de um dilema fascinante. Se o objetivo é construir robôs generalistas para operar em ambientes humanos já existentes, copiar parcialmente a forma humana talvez seja o caminho mais econômico.

Redesenhar toda a infraestrutura física do planeta para acomodar robôs com rodas ou tentáculos custaria muito mais do que projetar um robô que conseguisse abrir uma porta, subir uma escada e abrir uma garrafa de vinho como qualquer pessoa faria.

Só que a evolução não otimizou de verdade o corpo humano, apenas o tornou bom o suficiente para sobreviver. A dor lombar crônica é a principal causa de afastamento do trabalho, e uma consequência de uma coluna que não foi projetada para sustentar um bípede em pé o dia inteiro. O canal de parto é também estreito demais, herança de uma pelve que precisou se reorganizar às pressas quando nossos ancestrais ficaram de pé.

Um robô não precisa carregar nenhuma dessas heranças complicadas. Ele pode ter três braços se a tarefa exigir, rodas e pernas ao mesmo tempo, ou trocar de mão como quem troca de ferramenta. Robôs cirúrgicos já operam com seis ou oito braços e os robôs de resgate se parecem com cachorros porque quatro patas passam por escombros melhor do que duas pernas. Os atuais robôs de inspeção de dutos são basicamente serpentes mecânicas.

A principal razão para os robôs atuais se parecerem conosco é que o mundo já está pronto para nós. E essa razão, por enquanto, é poderosa o suficiente para que as maiores empresas de tecnologia apostem bilhões em máquinas com a nossa aparência. A ironia é que, quanto mais robôs humanoides habitarem o mundo, mais o mundo será mantido no formato humano, perpetuando a vantagem de uma forma que emergiu de uma savana africana por nenhuma outra razão muito profunda além de gastar um pouco menos de calorias ao caminhar de pé.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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