Vorcaro revelou à PF ter tratado da venda do Master com governador do DF Ibaneis Rocha

Banqueiro confirmou em depoimento que assunto foi levado ao conhecimento do governador do Distrito Federal.

BRASÍLIA — O escritório de advocacia do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), vendeu pelo menos R$ 85,5 milhões em honorários para fundos ligados ao Banco Master e à Reag Investimentos — investigados por fraude na Operação Compliance Zero.

Os negócios foram feitos entre 2019 e 2024, ou seja, desde o início do mandato de Ibaneis como governador até o começo das negociações do Banco de Brasília (BRB), controlado pelo DF, com o Master, do banqueiro Daniel Vorcaro.

Procurada, a assessoria do governador direcionou os questionamentos para o escritório de Ibaneis. A banca de advogados afirmou que as negociações foram regulares (leia mais abaixo). A defesa de Vorcaro e a Reag também foram procuradas, mas não comentaram.

Conforme o Estadão revelou, o próprio governador encabeçou uma das negociações, representando o escritório na venda. Ibaneis diz ter se afastado da banca de advogados em 2018, quando se elegeu, mas os documentos mostram que ele participou diretamente das operações. Desde 2022, um dos sócios do escritório é o filho de Ibaneis, o advogado Caio Barros.

Os honorários envolvem processos movidos por servidores públicos contra a União em que Ibaneis e os sócios são advogados. As ações geram precatórios (dívidas judiciais), que são valores pagos aos servidores, e uma parcela é repassada à defesa em forma de honorários. São esses honorários que o escritório de Ibaneis vendeu para os fundos ligados ao Master e à Reag, que passaram a ter direito de receber o dinheiro.

A Reag é investigada nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto por esquemas de lavagem de dinheiro e ligações com o crime organizado. O Master é investigado por fraude financeira e, segundo a Polícia Federal, vendeu R$ 12,2 bilhões em créditos falsos ao Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do DF.

Cronologia das operações

Em dezembro de 2019, Ibaneis vendeu R$ 4,4 milhões em honorários para o Fundo BLP PCJ VII. O negócio foi revelado pela colunista Malu Gastar, do jornal O Globo. O fundo era administrado na época pela Planner, do empresário Maurício Quadrado, sócio de Vorcaro entre 2020 e 2024. Hoje, quem administra é a Trustee, também de Quadrado.

Em setembro de 2023, Ibaneis cedeu outros dois honorários para o Fundo Laguz I, administrado pela Reag, investigada no caso Master. Um dos repasses, revelado pelo Estadão, foi de R$ 10,4 milhões. O nome do governador aparece como representante do escritório e signatário no ato. O outro foi de R$ 32,5 milhões.

As duas vendas para o Laguz I, que totalizaram R$ 42,9 milhões, aparecem em informações enviadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeira (Coaf) à CPI do Crime Organizado, que começou a investigar o caso Master. As movimentações foram registradas por envolverem operações de valor superior a R$ 50 mil, que por lei devem ser comunicadas ao Coaf.

Em maio de 2024, o escritório de Ibaneis, já administrado pelo filho do governador, repassou R$ 38,1 milhões para o Fundo Reag Legal Claims, também da Reag. No mês seguinte, o Banco de Brasília, controlado pelo governo do Distrito Federal, começou a negociar carteiras de crédito com o Master.

Somando os valores informados pelo escritório, a banca de Ibaneis faturou R$ 25,5 milhões com a venda de honorários para os fundos ligados à Reag, dos quais R$ 6,3 milhões foram repassados ao escritório do advogado Engels Muniz, sócio do secretário da Casa Civil do DF, Gustavo do Vale Rocha, parceiro nos processos judiciais. O escritório não informou quanto ganhou do fundo da Planner, ligada ao ex-sócio de Vorcaro.

Escritório de Ibaneis diz que vendeu honorários e nome do governador foi ‘erro material’

Em nota, o escritório Ibaneis Advocacia afirmou que a venda teve como objetivo a antecipação, com deságio (desconto em relação ao valor avaliado) praticado pelo mercado, de honorários advocatícios devidos ao escritório pela União.

O grupo de advogados disse que não recebeu qualquer pagamento da Reag, administradora dos fundos, e “sempre recebeu pagamentos diretamente dos fundos com os quais firmou contratos de cessão de crédito”.

A banca afirmou ainda que Ibaneis não assinou nenhum dos documentos e que o nome do governador foi inserido “por erro material, uma vez que o mesmo já estava afastado da gestão da sociedade”. Segundo o grupo, o contrato e o termo de cessão foram assinados digitalmente pela gerente administrativa do escritório.

O empresário Maurício Quadrado disse, por meio da assessoria, que nunca participou das decisões de investimento do fundo BLP PCJ VII e, portanto, não foi envolvido na negociação de qualquer título ou ativo da carteira do fundo. “Importante esclarecer que Mauricio Quadrado não conhece e nunca teve nenhum tipo de relacionamento com Ibaneis Rocha”, afirmou.

Coaf aponta irregularidades na venda de ativos do Master para o BRB

O Coaf apontou irregularidades na venda de ativos do Banco Master para o BRB entre 2024 e 2025, conforme o Estadão mostrou, incluindo a oferta de créditos de empresas abertas em nome de pessoas de baixa renda e que receberam auxílio emergencial.

O Fundo Laguz I, que comprou a maior parte dos honorários do escritório de Ibaneis, era presidido na época por Silvano Gersztel. Ele representou outros fundos da Reag na compra de uma parcela da participação dos irmãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli no resort Tayayá, no Paraná.

Hoje, o diretor do fundo é Marcos Ferreira Costa, o mesmo representante da Reag que apadrinhou dois indicados de Ibaneis no Conselho Fiscal do BRB, como revelado pelo Estadão. Após a reportagem revelar o caso, os conselheiros renunciaram.

O Laguz I tem um único cotista, o Banco Original, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, desde sua constituição, em 2021. Como cotista, a instituição é beneficiada com os rendimentos do fundo. Procurado, o Original não comentou. Na quarta-feira, 17, a CPI do Crime Organizado quebrou os sigilos do Laguz I.

Em depoimento à Polícia Federal, o banqueiro Daniel Vorcaro disse que conversou pessoalmente com Ibaneis sobre a venda do Banco Master, como revelou o Estadão. O governador negou que tenha tratado com ele sobre a negociação. Ibaneis agiu pessoalmente para aprovar a venda do Master para o BRB, mas o negócio foi rejeitado pelo Banco Central em setembro e hoje é investigado pela Polícia Federal.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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