Desde o ano passado, praticamente só se fala do tarifaço do Trump, de toda confusão criada e das incertezas trazidas pelo vai e volta do presidente americano. Aparentemente, isso provocou inveja aqui no Sul. No início deste mês o governo resolveu “recalibrar” alíquotas e aumentou o imposto de importação para 1.252 tipos de produtos.

A justificativa oficial é que, frente ao avanço das importações, está-se buscando a recomposição do “espaço” para a indústria nacional, sobretudo em máquinas/equipamentos e tecnologia. O governo não está só “subindo tarifa”.

No mesmo período, houve também redução a zero de alíquotas para importação de insumos específicos e aplicação de direitos antidumping em alguns casos. Mesmo, entendendo que há diferenças nas práticas comerciais com Trump, que usa as tarifas como ferramenta central de geopolítica e de política industrial, não há como deixar de ver semelhanças, afinal as tarifas estão sendo usadas como instrumento de política econômica.

O cenário é o mesmo: uso ativo do Imposto de Importação; discurso de “defesa da indústria nacional”; e reação ao ambiente global mais protecionista.

No nosso caso, quem ganha são os setores com similar nacional que competem com importados e as cadeias já instaladas, que montam seus produtos localmente.

Pelo lado dos perdedores estão os consumidores, porque haverá repasse aos preços principalmente de itens de tecnologia e bens importados. Perdem também as empresas que investem em máquinas, equipamentos e em tecnologia, que ficarão mais caros.

Deve ficar mais caro também para quem opera com infraestrutura digital — como data centers e redes — devido ao aumento de custo de hardware que pode colidir com planos de expansão e digitalização. Existe, potencialmente, efeitos sobre a inflação e a balança comercial.

A literatura econômica traz evidências de que a redução tarifária esteve associada a ganhos de produtividade às empresas (eficiência, adoção tecnológica, realocação). E nós podemos estar entrando no risco clássico nessa questão: a tarifa sobe, a competição externa cai, certas margens e participações de mercado “respiram”, mas a pressão por eficiência e inovação diminui, o custo de insumos/máquinas importadas pode subir e a produtividade fica menos urgente e mais cara.

Em resumo, se a medida protege hoje, pode adiar a produtividade amanhã. Nós não estamos imitando Trump ou um governo específico. O mundo inteiro voltou a usar tarifas — mas os países avançados fazem isso para acelerar a inovação. Ao elevar tarifas sem um plano explícito de inovação e competição, corremos o risco de transformar proteção em acomodação — e encarecer a própria modernização.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

You May Also Like
Por que o pessimismo virou o novo disfarce da preguiça intelectual

Por que o pessimismo virou o novo disfarce da preguiça intelectual

Pense por um instante nas reuniões das quais você participou recentemente. Quantas…
Supersalários e penduricalhos: É impossível conter gasto sem sacrifício também do ‘andar de cima’

Ajuste fiscal e fim de privilégios: como o Brasil pode enfrentar o déficit público equilibrando o sacrifício entre o andar de cima e o gasto social

Especialista aponta que o controle do déficit de 8% do PIB exige enfrentar supersalários e benefícios exclusivos do setor público
Guerra de Trump é grave, mas juros já poderiam ter caído mais, diz Haddad

Fernando Haddad critica patamar da taxa Selic e aponta necessidade de juros mais baixos no Brasil mesmo diante de instabilidades no cenário mundial

Ex-ministro da Fazenda defende ritmo maior de queda na taxa Selic e rebate críticas sobre o desempenho da economia brasileira sob a gestão atual
Modelo de rede neutra não avança no Brasil e teles voltam atrás

TIM Compra I-Systems por R$ 950 Milhões: Fim das Redes Neutras no Brasil Após Fracasso Total da Vivo e Outras Teles

Modelo de redes neutras decepciona e operadoras voltam atrás, restando só V.tal e American Tower no mercado