Juros x Inflação: Entenda a relação entre eles
Crédito: Larissa Burchard/Laís Nagayama
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano, iniciando um ciclo de cortes após quase dois anos. A decisão, divulgada em 24 de março, visa ajustar a política monetária diante de incertezas geopolíticas e econômicas. O Copom destacou a importância de manter a inflação dentro da meta e a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas. A desaceleração do PIB e o impacto da política monetária restritiva foram ressaltados como fatores críticos para a economia brasileira.
BRASÍLIA – O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central afirmou, na ata de sua mais recente reunião, que a magnitude e a duração do ciclo de cortes da taxa Selic serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações sejam incorporadas à análise. O documento foi divulgado nesta terça-feira, 24.
“Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras”, disse.
O colegiado reforçou que mantém o compromisso fundamental de garantia da convergência da inflação à meta dentro do horizonte relevante para a política monetária.
Na última quarta-feira, 18, o Copom reduziu a Selic de 15% para 14,75% ao ano, o primeiro corte da taxa após quase dois anos.

Copom prevê alta de 3,9% para o IPCA em 2026 Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Na ata, o colegiado ponderou que considerou que os eventos recentes não impediriam a materialização da sinalização dada na reunião de janeiro, de que começaria o ciclo de cortes da taxa básica de juros, baseado nas evidências dos impactos da política monetária sobre o nível de atividade e sobre a inflação. Diante disso, detalhou que foram analisadas as opções para o ritmo de início do ciclo, concluindo que, neste momento, a redução de 0,25 ponto porcentual seria a mais adequada.
O Copom também relembrou que a sinalização dada em janeiro foi de que a calibração da política monetária manterá seu caráter restritivo, de modo a assegurar a convergência da inflação à meta.
Passos futuros
O Copom reforçou que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros poderão incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo, diante do “forte aumento da incerteza”.
O colegiado não explicitou qual deve ser o ritmo de “calibração” da Selic, nem qual o orçamento total para cortes da taxa básica de juros.
Na ata, o colegiado também reafirmou que, em meio ao “forte aumento da incerteza”, irá conduzir o processo de calibração com “serenidade e cautela”. “Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”, emendou.
O Copom repetiu as projeções para a inflação já apresentadas no comunicado. O colegiado prevê alta de 3,9% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026 e 3,3% no terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária — ligeiramente acima do centro da meta, de 3,0%. Para os preços livres, projeta altas de 3,7% em 2026 e 3,3% no terceiro trimestre de 2027. Para os administrados, prevê altas de 4,3% e 3,2%, respectivamente.
Todas as projeções partem do cenário de referência, com trajetória de juros do Relatório Focus (publicado em 16 de março) e bandeira amarela de energia elétrica em dezembro de 2026 e 2027. A taxa de câmbio começa em R$ 5,20 e evolui conforme a paridade do poder de compra (PPC). Os preços do petróleo seguem aproximadamente a curva futura por seis meses e, depois, sobem 2% ao ano.
Balanço de riscos
O Copom informou que chegou a debater uma alteração no seu balanço de riscos para a inflação na reunião da última quarta-feira, mas optou por não promover mudanças, diante da “incerteza elevada” no cenário. No comunicado da última reunião, o colegiado informou apenas que os riscos de alta e baixa “se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio.”
“Após debater alterações no balanço de riscos, o comitê julgou apropriado seguir com serenidade e reunir mais informações ao longo do tempo, em função da incerteza elevada em relação à evolução de seus elementos”, explica o colegiado na ata.
Economistas do mercado chegaram a considerar a possibilidade de o Copom tornar o seu balanço de riscos assimétrico para cima no último encontro, diante da disparada dos preços de petróleo no mercado internacional após os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, que resultaram no fechamento do Estreito de Ormuz. A autoridade monetária, no entanto, preferiu incorporar os efeitos pelo canal da incerteza.
O Copom continua mencionando três riscos de alta e três riscos de baixa para a inflação. Entre os vetores para cima, destaca:
- Desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado;
- Maior resiliência da inflação de serviços, por causa de um hiato do produto mais positivo;
- Conjunção de políticas domésticas e externas com impacto inflacionário, por exemplo, via câmbio.
Entre os riscos para baixo, o comitê voltou a citar:
- Eventual desaceleração mais forte da economia doméstica;
- Desaceleração global mais pronunciada por causa do choque de comércio mundial e de um cenário de maior incerteza;
- Redução dos preços de commodities com efeitos desinflacionários.
Expectativas de inflação
O Copom avaliou que as expectativas de inflação, que seguiam em trajetória de declínio, subiram após o início dos conflitos no Oriente Médio, permanecendo acima da meta de inflação em todos os horizontes. Também ressaltou que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas.
“O Comitê avalia que perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária favorecerão a continuidade desse movimento, importante para a convergência da inflação à meta com menor custo”, disse.
Na sequência, acrescentou que a principal conclusão obtida foi de que, “em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”. Essa conclusão, ressaltou, foi compartilhada por todos os membros do Comitê.
Petróleo
O Copom observou que as projeções no cenário de referência para o IPCA consideram uma trajetória decrescente para o petróleo no segundo semestre de 2026.
“O preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura pelos próximos seis meses e passa a aumentar 2% ao ano posteriormente, conforme governança usual. Dada a curva de futuros do Brent observada, essa governança se traduziu em trajetória decrescente ao longo da segunda metade do ano, após forte alta no curto prazo”, disse.
Ainda sobre o cenário de referência, o comitê detalhou que continuará acompanhando os dados para calibrar e refinar os impactos da medida de ampliação da isenção do imposto de renda sobre as projeções.
O Copom reiterou que a inflação brasileira continua pressionada pela demanda, o que exige a manutenção da taxa Selic em um nível contracionista. Por outro lado, afirmou que a política monetária tem contribuído para um arrefecimento do IPCA.
“As leituras recentes até o início dos conflitos (no Oriente Médio) indicavam algum arrefecimento da inflação que abrangia tanto o índice cheio quanto em aberturas e medidas subjacentes”, diz a ata.
Segundo o comitê, a combinação entre um real mais apreciado e o alívio nos preços de commodities antes dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã — que levaram a uma disparada do petróleo no mercado internacional — vinha contribuindo para a desaceleração nas inflações de bens industrializados e alimentos.
Na mesma linha, a inflação de serviços — mais sensível à atividade econômica e à política monetária — continuava “resiliente”, mas com alguma moderação, acompanhando a desaceleração da atividade doméstica.
Políticas fiscal e monetária
O Copom enfatizou que uma política fiscal que atue de forma contracíclica e contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta.
“A política fiscal tem um impacto de curto prazo, majoritariamente por meio de estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros”, alertou.
O comitê emendou que manteve a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade.
“O Comitê mantém a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê reforça, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”, reforçou.
PIB
O Copom afirmou que a desaceleração no ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no fim do ano passado, mais acentuada em componentes cíclicos, tornou “evidentes” os efeitos defasados da taxa de juros restritiva sobre a atividade econômica.
Na última quarta-feira, o colegiado cortou a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual. O Copom havia afirmado que as evidências de transmissão da política monetária restritiva para a atividade haviam criado condições para essa “calibração”.
“A atividade econômica doméstica manteve trajetória de moderação no crescimento, tal como antecipado pelo comitê”, diz a ata publicada nesta terça-feira. “O comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta.”
O Copom destacou que a moderação no ritmo de crescimento tem sido heterogênea, com maior desaceleração em mercados sensíveis às condições financeiras. Isso, segundo o comitê, é compatível com o estágio atual da política monetária. Os indicadores disponíveis até agora sinalizam aceleração da atividade no começo de 2026, o que também está dentro do esperado e é compatível com um PIB positivo este ano, diz a ata.
A cúpula do BC reforçou que continua acompanhando “detidamente” o mercado de trabalho brasileiro, diante do desemprego historicamente baixo e da tendência de aumento dos rendimentos acima da produtividade.
“O comitê segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade do aprofundamento dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia”, diz a ata.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







