Duquesa de Tax: A história do eleitor de Trump que apoiou as tarifas e agora se arrepende
No programa ‘Fala, Duquesa!’ desta quarta-feira, 6, a colunista reage ao comentário de um produtor americano que acreditava que não seria afetado pelas tarifas. Crédito: Edição: Jefferson Perleberg/Estadão
Em 2025, as tarifas de Donald Trump não reduziram o déficit comercial dos EUA, que atingiu US$ 901 bilhões. As importações cresceram 4,7%, enquanto as exportações aumentaram 6,2%. As tarifas impactaram o comércio com a China, mas o déficit com outros países asiáticos, como Vietnã e Índia, aumentou. As tarifas elevaram preços para consumidores e afetaram exportadores, especialmente agricultores. A eficácia das políticas de Trump em revitalizar a indústria americana permanece incerta, segundo economistas.
O presidente americano, Donald Trump, prometeu repetidamente que suas altas tarifas reduziriam as importações americanas, diminuiriam o déficit comercial e levariam a uma revitalização da indústria manufatureira americana.
Até agora, ocorreu o contrário.
As importações americanas cresceram no ano passado, e o déficit comercial de bens atingiu um recorde histórico, segundo dados divulgados nesta quinta-feira, 19. As políticas do presidente Trump desestabilizaram o comércio, mas não o interromperam completamente.
Isso está em consonância com outros dados que sugerem que as empresas redirecionaram pedidos e reformularam as cadeias de suprimentos para contornar as tarifas, mas até o momento não trouxeram a produção de volta aos Estados Unidos de forma massiva. Os fabricantes americanos cortaram mais de 80 mil empregos no último ano.

As importações americanas cresceram no ano passado (na foto, o Porto de Seattle) Foto: Ruth Fremson/NYT
Altas tarifas e políticas imprevisíveis provocaram grandes oscilações no comércio no ano passado. As empresas estocaram produtos antes da entrada em vigor das tarifas e, em seguida, interromperam as importações. Investidores americanos compraram e venderam grandes quantidades de ouro estrangeiro como proteção contra a volatilidade dos mercados.
Mas, embora as altas tarifas tenham diminuído um pouco as compras de carros importados, eletrodomésticos e outros bens, o comércio dos Estados Unidos com o mundo permaneceu relativamente robusto.
Do chip ao remédio para emagrecer, importações saltam
Os Estados Unidos importaram chips para abastecer novos centros de dados de inteligência artificial, e os americanos compraram medicamentos estrangeiros para emagrecer, contribuindo para impulsionar o comércio internacional.
O déficit comercial total, incluindo o comércio de bens e serviços, diminuiu ligeiramente no ano passado, com o crescimento das exportações superando por pouco o crescimento das importações. Mas isso se deveu inteiramente ao aumento do superávit comercial no setor de serviços.
O déficit comercial de bens físicos, foco de Trump em sua tentativa de usar tarifas para revitalizar o setor manufatureiro americano, na verdade aumentou. Em 2025, as importações totais de bens e serviços aumentaram 4,7%, atingindo US$ 4,3 trilhões, enquanto as exportações cresceram 6,2%, para US$ 3,4 trilhões. O déficit comercial — a diferença entre as importações e as exportações — foi de US$ 901 bilhões, ante US$ 903 bilhões em 2024.
O déficit comercial cresceu acentuadamente no final do ano, aumentando 32,6% em dezembro, com o aumento das importações e a queda das exportações.
As tarifas levaram a mudanças drásticas nos países com os quais os Estados Unidos comercializam. As importações de bens da China caíram quase 30%, atingindo o nível mais baixo desde 2009, à medida que as empresas passaram a produzir em fábricas em outras partes do mundo.
Mas as exportações americanas para a China caíram quase na mesma proporção, já que o país — diferentemente de muitos outros parceiros comerciais dos EUA — retaliou contra as políticas de Trump. O déficit comercial de bens com a China diminuiu para US$ 202 bilhões em 2025, o menor em mais de duas décadas e, pela primeira vez na história, menor do que o déficit com a União Europeia.
Mas, à medida que os americanos compravam menos da China, compravam mais do resto do mundo. Os déficits comerciais com o Vietnã, o México, a Índia e outros países foram os maiores já registrados.
Os dados suscitaram dúvidas sobre se a política comercial de Trump está reestruturando os Estados Unidos para torná-los menos dependentes de importações, ou se, na verdade, está apenas redistribuindo o comércio.
Trump afirmou que tarifas elevadas e novos acordos comerciais impulsionarão a produção industrial americana, tornando o país menos dependente de produtos estrangeiros. Muitos importadores reagiram às tarifas e à ameaça delas ajustando o cronograma de entregas e os países de onde compram, a um custo e inconveniente consideráveis .
O impacto no bolso do consumidor americano
As tarifas também aumentaram os preços para os consumidores americanos, embora em menor grau do que alguns economistas inicialmente temiam. Um estudo deste mês, realizado por economistas do Fed (o Banco Central americano) em Nova York, constatou que as empresas e os consumidores americanos arcaram com a maior parte do custo das tarifas.
Os exportadores americanos, principalmente os agricultores, também foram afetados pelas guerras comerciais de Trump. As exportações de soja dos EUA caíram drasticamente no ano passado, já que a China boicotou a cultura e, em vez disso, comprou do Brasil e de outros países como retaliação às tarifas de Trump. Os produtores americanos de soja exportaram apenas US$ 17,5 bilhões de seu produto em 2025, uma queda em relação aos US$ 25,8 bilhões de 2024.
A China interrompeu as compras de produtos agrícolas americanos durante a maior parte do ano passado, até que autoridades dos EUA e da China concordaram com uma trégua comercial no final de outubro.
Como parte desse acordo, a China se comprometeu a comprar 12 milhões de toneladas de soja no ano passado e 25 milhões de toneladas em cada um dos próximos três anos. As 25 milhões de toneladas estão em linha com o que a China tem comprado nos últimos anos.
Para ajudar os agricultores a lidar com as consequências da guerra comercial, o governo Trump forneceu a eles US$ 12 bilhões em ajuda federal.
Mas, se essas políticas levarão a menores importações, maiores exportações e um déficit comercial menor a longo prazo, ainda parece uma questão em aberto.
Bernard Yaros, economista-chefe da Oxford Economics, afirmou que “ainda é cedo demais para dizer quais serão os impactos duradouros das políticas comerciais de Trump”.
Ele afirmou que as importações americanas agora estão abaixo da tendência da década anterior ao segundo mandato de Trump. Parte disso se deve ao aumento expressivo das importações no início do ano passado; e parte, ao impacto das tarifas sobre o preço relativo das importações.
“Ainda precisamos ver como as importações se estabilizarão depois que o ‘efeito de estoque’ resultante da formação maciça de reservas no início de 2025 se dissipar”, acrescentou.
Após a eleição de Trump, as empresas correram para trazer mercadorias para o país antes que as tarifas entrassem em vigor, fazendo com que as importações e o déficit comercial disparassem.
As importações começaram a recuar depois que Trump anunciou tarifas globais em abril, incluindo taxas draconianas sobre a China. O presidente suspendeu temporariamente a maioria dessas tarifas para permitir negociações comerciais, mas as reimpôs em níveis mais baixos em agosto.
Média tarifária mais alta em 94 anos
Em 19 de janeiro, os consumidores americanos enfrentavam uma taxa tarifária média geral de 16,9%, a mais alta desde 1932, de acordo com cálculos do Yale Budget Lab.
O déficit comercial sofreu uma queda acentuada em outubro e atingiu o menor valor mensal desde junho de 2009. No entanto, grande parte dessa queda parece ter sido resultado de flutuações temporárias no comércio, particularmente no mercado de ouro. O déficit comercial apresentou uma leve recuperação em novembro, antes de voltar a crescer em dezembro.
O presidente americano há muito tempo considera os déficits comerciais como um sinal de uma economia americana fraca e argumenta que altas tarifas incentivariam uma maior produção industrial nos EUA, reduzindo o déficit comercial. Muitos economistas discordam dessa visão exclusiva, afirmando que o déficit comercial pode diminuir por diversos motivos, nem todos positivos.

O déficit comercial do país de Trump com a China, de Xi Jinping, diminuiu Foto: Mark Schiefelbein/AP
As tarifas também alteraram as relações comerciais dos EUA com diversos países. Em particular, o déficit comercial com a China diminuiu, uma vez que as empresas reestruturaram suas cadeias de suprimentos em antecipação a tarifas mais altas sobre o país.
Mas Brad Setser, economista do Conselho de Relações Exteriores, afirmou que as tarifas americanas sobre as exportações chinesas não acabaram sendo muito mais altas do que as tarifas sobre produtos de outras partes da Ásia, o que levanta a questão de se as empresas continuarão transferindo suas cadeias de suprimentos para fora da China.
Setser afirmou que os Estados Unidos simplesmente começaram a importar mais de outros países da Ásia. A queda no déficit comercial dos EUA com a China foi praticamente compensada por um grande aumento no déficit comercial dos EUA com o Vietnã, outros países do Sudeste Asiático, Índia e Taiwan no ano passado.
Em alguns casos, as remessas para os Estados Unidos vindas de outros países da Ásia ainda provêm de empresas chinesas. Empresas chinesas instalaram novas fábricas fora da China para poderem exportar para os Estados Unidos sem pagar as tarifas mais elevadas. As estatísticas comerciais da China mostram que, embora seu superávit comercial com os Estados Unidos tenha diminuído, seu superávit comercial com o resto do mundo aumentou consideravelmente, afirmou Setser.
“O governo está tentando se apropriar demais do crédito por reorganizar um pouco as importações e caminhar para um mundo onde o conteúdo chinês chega aos EUA em voos com apenas uma escala, em vez de voos diretos”, disse ele. “As mercadorias que chegam pelo Sudeste Asiático têm quantidades extremamente significativas de conteúdo chinês.”
O comércio com a Ásia se manteve forte, em parte porque Trump optou por isentar os produtos eletrônicos das tarifas impostas no ano passado. A região continuou a fornecer aos americanos eletrônicos isentos de impostos, bem como semicondutores e outros equipamentos necessários para centros de dados.
O governo também não conseguiu impor tarifas significativas sobre produtos farmacêuticos estrangeiros, e as importações de medicamentos contribuíram para aumentar o déficit comercial.
As tarifas podem sofrer mais alterações nas próximas semanas. Espera-se que a Suprema Corte se pronuncie, possivelmente já nesta sexta-feira, 20, sobre a legalidade de muitas das tarifas que Trump impôs usando uma lei de emergência da década de 1970. Autoridades do governo Trump afirmaram que, caso essas tarifas sejam anuladas, usarão outras prerrogativas para impor novas taxas em substituição a elas.
c.2026 The New York Times Company
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Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







