O autônomo Marcelo Reche, de 37 anos, trocou Pedregulho, cidadezinha de 15 mil habitantes em que morava no interior de São Paulo, pela chuvosa e nublada Londres, que supera 8 milhões de moradores. Na época, viajou com £ 500 disposto a passar somente alguns meses para experimentar o clima e conhecer a cultura. Mas decidiu ficar e, desde então, são quase oito anos no Reino Unido, onde vivem cerca de 230 mil brasileiros, segundo dados mais recentes do Itamaraty.
A Inglaterra foi o “plano B” do brasileiro. O Canadá havia sido o país escolhido para ter uma vida nova, mas o visto foi negado. Foi a partir daí que optou pela terra da família real britânica por considerar a entrada mais “fácil”, já que não exigia visto prévio. O brasileiro entrou com liberação para intercâmbio e restrição para trabalhar. Ao longo dos meses, o dinheiro começou a ficar curto. Sem reserva financeira, foi atrás de emprego que não exigisse documentação.
O primeiro trabalho foi em uma obra, na qual a diária valia £ 50 (cerca de R$ 355). Em determinados dias, só fazia uma refeição. “É comum ver brasileiro que chega disposto a trabalhar em tudo por um pagamento baixo”, revela Marcelo. Depois, migrou para delivery de comida como motoboy.
O brasileiro Marcelo Reche, de 37 anos, mora no Reino Unido há pouco mais de oito anos Foto: Arquivo pessoal
Durante a transição entre os empregos, Marcelo conheceu a ex-esposa, que, por ter cidadania espanhola, conseguiu regularizar a situação dele no país. Atualmente, com as mudanças após o Brexit, as normas para casais com cidadania europeia, a exemplo da espanhola, são mais rígidas. Hoje, depende do tempo de residência do cidadão da UE (se anterior à saída do Reino Unido do bloco europeu) ou da aplicação padrão de vistos de imigração britânica.
Hoje, a principal renda do brasileiro é com entrega de material de construção. Geralmente, a jornada de trabalho gira em torno de oito horas por dia. Em paralelo, faz edição de vídeos para terceiros e produz conteúdo para o YouTube, no qual compartilha a rotina em Londres. Com isso, consegue faturar entre £ 2 mil e £ 3,5 mil por mês. Somente de aluguel desembolsa £ 1,4 mil. Por outro lado, diz que o baixo custo com alimentação acaba compensando o valor da moradia.
Assim como Marcelo, historicamente os imigrantes brasileiros estão em setores de serviços, como restaurantes, bares, hotelaria, construção civil, transporte, faxina e, nos últimos anos, entregas por aplicativo em Londres e outras metrópoles do Reino Unido. É o que afirma a brasileira Yara Evans, professora da Open University e pesquisadora da Queen Mary, Universidade de Londres. Ela vive há mais de quatro décadas no Reino Unido e há pelo menos 20 anos estuda comunidades brasileiras, no qual integra o Grupo de Estudos sobre Brasileiros no Reino Unido.
Evans explica que o crescimento do mercado de delivery na última década se tornou uma porta de entrada para recém-chegados e não documentados. “São setores que movem a sociedade, mas não são reconhecidos em termos de salário e condições de trabalho. É como se estivessem à margem”, afirma.
Mesmo com a “brecha”, até áreas que costumam empregar não documentados ficaram mais restritas. Marcelo conta que algumas empresas de entrega, inclusive a que trabalha, passaram a exigir dois ou mais reconhecimentos faciais por dia para confirmar a identidade do entregador. O objetivo é coibir o empréstimo de contas, prática comum entre imigrantes em situação irregular. Desde fevereiro de 2024, o órgão de controle migratório triplicou as multas por trabalho ilegal para empregadores. A primeira infração saltou de £ 15 mil para £ 45 mil por trabalhador. Em caso de reincidência, de £ 20 mil para £ 60 mil.
Brasileiros qualificados assumem ‘sub-emprego’
A maioria dos brasileiros que decidem imigrar para o Reino Unido possui diploma universitário, ressalta a professora Yara Evans. Mesmo assim, muitos não conseguem emprego na área de atuação por causa da barreira do idioma e do não reconhecimento da formação profissional do país de origem. Por isso, a alternativa é o chamado “subemprego”. “Você é médico no Brasil, mas, sem domínio do inglês suficiente para ser médico aqui, não vai atuar”, pontua Evans.
É o caso de uma advogada brasileira, de 35 anos, que preferiu preservar a identidade na reportagem. Natural de Serrinha, cidade no interior da Bahia, mudou-se para Londres há pouco mais de três anos com o intuito de aprimorar o inglês e fazer uma reserva financeira. Desde que chegou, trabalha como faxineira em residências de segunda a sábado. Foi o único setor onde conseguiu emprego sem visto de trabalho, em que recebe por hora trabalhada, em torno de £ 10 (R$ 71).
Ela diz que planeja regularizar a situação no país, ainda que não tenha garantia de ter o visto de permanência aprovado, já que as regras estão mais rígidas. A partir de abril deste ano, o tempo de residência permanente passou de 5 para 10 anos ou mais, com sistema por mérito e possíveis reduções ou ampliações. Há exceções para profissões em escassez, como médicos, enfermeiros, professores e o que o Reino Unido considera como “talentos globais”.
Apesar da pouca possibilidade de conquistar a documentação, a brasileira não estima um retorno para o Brasil. Evans confirma que a área de limpeza recruta mão de obra de profissionais imigrantes que detêm nível superior e estão irregulares no país. Inclusive, houve um movimento de empreendedorismo feito por imigrantes, principalmente mulheres, à frente. Brasileiras que antes trabalhavam sozinhas montaram equipes.
“É um trabalho organizado por redes de indicação. Você começa em uma casa, é recomendada para outra e vai formando sua semana de trabalho”, descreve.
Custo de vida aumentou, mas qualidade de vida compensa
Já os profissionais que deixam o Brasil com contratação prévia no Reino Unido fazem parte de uma minoria do fluxo brasileiro, avalia Yara Evans, acrescentando que a maioria migra em busca de oportunidades. “O que vemos majoritariamente é gente procurando brechas para entrar no mercado de trabalho”, explica.
Aqueles que entram com visto adequado, emprego na área de atuação, domínio do idioma e validação profissional encaminhada conseguem ter mais qualidade de vida.
A quase 100 quilômetros de Londres, vive o casal de brasileiros Natalia Porta e Lucas Fronza, ambos de 31 anos, em Oxford. Eles fazem parte do pequeno grupo de brasileiros contratados antes mesmo da chegada na terra da família real. A mudança veio em 2019, enquanto ainda moravam no Brasil, após Lucas ser selecionado em uma empresa de TI sediada em Londres.
O casal de brasileiros Lucas e Natalia vivem no Reino Unido desde 2019 Foto: Arquivo pessoal
O plano inicial, porém, não era a Inglaterra. Eles também buscavam vagas no Canadá e em outras regiões da Europa. Entre as dezenas de processos seletivos para os quais Lucas se candidatou, ele foi selecionado para a vaga no Reino Unido. “Teve um final de semana em que apliquei para mais de 100 vagas. Consegui oito entrevistas e passei em uma”, relembra.
Hoje, os dois trabalham remotamente na área de tecnologia. No início, o regime era presencial, agora são apenas idas esporádicas ao escritório. A flexibilidade e o equilíbrio com a vida pessoal foram as principais diferenças em relação à cultura de trabalho do Brasil.
“Eles são bem flexíveis com horário. Eu não tenho hora para começar nem para acabar, faço meu horário”, relata Natália, que conseguiu se inserir no mercado de trabalho após a chegada. Eles também sentem que são menos microgerenciados com assuntos da vida pessoal. “Se você precisa sair para resolver algo, ninguém olha torto”, comenta.
O fato de terem chegado com emprego garantido impactou o padrão de vida. Eles avaliam que possuem renda acima da média e conseguem manter uma rotina confortável. Além de conseguir financiar a casa própria, a renda permite investimentos em viagens, principal hobby do casal que mantém um canal no YouTube para compartilhar a rotina na Inglaterra.
Ainda assim, o casal sente o aumento do custo de vida nos últimos anos, principalmente com relação à alimentação e moradia. Em Londres, onde viveram nos primeiros anos, o aluguel consumia parcela significativa do salário.
Para o brasileiro Marcelo Reche, a renda que vive hoje não é suficiente para o financiamento de uma casa, mas pretende se dedicar a desenvolver o inglês para migrar de área. “O que ganho não envio para o Brasil, escolhi viver com qualidade”, diz.
A professora Yara Evans lembra que os brasileiros que sustentam famílias no país de origem, enviando recursos do Reino Unido para saúde, educação e moradia, prolongam o tempo de estadia. “Isso acaba esticando a volta, porque há pessoas dependendo desse dinheiro”, resume.
Ela estima ainda que a entrada como turista deve continuar afrouxada. No entanto, as regras para permanência e trabalho tendem a ficar mais restritas. “Não existe uma base lógica que sustente o argumento de que os imigrantes estão causando estrago à sociedade britânica. A imigração virou tema central na política, os imigrantes são os bodes expiatórios”, analisa, ressaltando que serviços britânicos dependem da força de trabalho estrangeira.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







