Diretor do BC à PF diz que BRB deveria ter identificado fraudes nas carteiras do Master
Em audiência no STF em 30 de dezembro, Ailton de Aquino diz que governança do banco tinha como ter detectado problemas. Crédito: Imagens: STF
BRASÍLIA – O Banco Central pode aplicar uma espécie de “cartão amarelo” no Banco de Brasília (BRB), com a adoção de “medidas prudenciais preventivas”, caso o governo do Distrito Federal (DF) não faça aportes no banco até o dia 31 de março — data-limite para a divulgação do seu balanço. A necessidade de aporte para aumentar o patrimônio do banco é uma consequência dos negócios feitos com o Master e que vão abrir um rombo no balanço no BRB.
Segundo apurou o Estadão, o BC pode adotar a Resolução 4019, de 2011, a mesma que recaiu sobre o Master, e que impõe uma série de restrições à instituição financeira, como o impedimento de abrir novas agências, explorar novos negócios e impor limites operacionais ao banco.
Procurado, o BRB informou que foram propostas ao Banco Central “diversas alternativas para eventual recomposição patrimonial” e que o BC “concedeu um prazo para que as medidas fossem implementadas” (leia mais abaixo).
O BC e o governo do DF não se manifestaram.

Nova gestão do BRB trabalha para consolidar um plano até o dia 31 de março que envolve três frentes: aporte de capital, geração de liquidez e recuperação de imagem e reputação Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
A medida é vista no mercado como uma espécie de “ultimato” com um prazo para que o banco melhore os seus indicadores, sob pena de sanções ainda mais severas, como intervenção e liquidação, em um cenário mais extremo, e até mesmo federalização — alternativa descartada pelo novo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, em entrevista ao Estadão.
“A medida impõe uma série de restrições ao banco, até que ele consiga recompor o seu índice de Basileia. Na prática, ele tem de reduzir a atividade, fechar agências, fica impedido de conceder aumento de salários para administradores, pagar dividendos, distribuir lucros e operar com determinados produtos de crédito”, explicou Luis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Ratings.
O BRB comprou R$ 12,2 bilhões de créditos podres do Banco Master, segundo investigações do BC e da Polícia Federal. Posteriormente, esses papéis foram trocados por outros ativos, que a nova direção do BRB ainda tenta vender para bancos no mercado financeiro.
Agora, o banco estatal precisa cobrir esse rombo, cujo valor final ainda não foi calculado. Em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou que o buraco pode ultrapassar R$ 5 bilhões — mas o rombo pode ser maior, podendo chegar a R$ 9 bilhões, afirmam pessoas próximas.
As opções do governo do DF
O governo do Distrito Federal, liderado por Ibaneis Rocha (MDB), estuda fazer um aporte no BRB e colocou algumas opções na mesa para levantar o dinheiro: venda de imóveis do DF, lançamento de um fundo imobiliário com esses imóveis e empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a bancos privados oferecendo os ativos imobiliários como garantia.
As opções foram levadas pelo BRB ao Banco Central e precisam de aval da Câmara Legislativa do DF. Ibaneis chegou a marcar há um mês uma reunião com deputados da base aliada para apresentar o plano, mas o encontro foi cancelado e ainda não aconteceu. O presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, também foi escalado para uma conversa com os parlamentares, que ainda não ocorreu.
Conforme o Estadão apurou, o governo fez chegar aos deputados a informação de que o BRB poderia vender ativos próprios para outros bancos e cobrir o rombo sem a necessidade de comprometer o patrimônio do DF — mas especialistas apontam que isso não é suficiente (leia mais abaixo).
Segundo aliados, Ibaneis espera ganhar tempo e empurrar a discussão até ter uma solução final para a instituição financeira. Ainda não há consenso sobre mandar um projeto para a Câmara. Um aporte preocupa o governo estadual, que começou o ano sem dinheiro em caixa para honrar compromissos e fazer novas despesas, como mostrou o Estadão.
No Banco Central, por outro lado, há o entendimento de que o prazo de 31 de março é uma data-limite para o BRB e a autoridade monetária não hesitará em aplicar as medidas restritivas da resolução 4019. Segundo apurou a reportagem, porém, a princípio, há uma boa avaliação da parte do BC sobre a nova administração do banco após a saída do ex-presidente Paulo Henrique Costa, investigado pela Polícia Federal no caso Master.
Em 2025, o DF ficou com a nota C de Capacidade de Pagamento (Capag) do Tesouro Nacional, que analisa a situação fiscal dos Estados e municípios com base em endividamento, poupança corrente e índice de liquidez — ao lado de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Acre. Essa nota impede o DF de contrair novos empréstimos com garantia da União.
O BRB também enfrenta uma crise de confiança por conta de seus negócios com o Master e passou por duas ondas de saques de correntistas, desde a liquidação do banco de Daniel Vorcaro, que o obrigaram a vender R$ 5 bilhões em carteiras para melhorar os seus índices de liquidez, conforme revelou o Estadão.
Os ativos vendidos para bancos privados incluem carteiras de crédito consignado e de antecipação de saque-FGTS. Conforme a reportagem revelou, o BRB também negociou a venda de quase R$ 1 bilhão em carteiras de empréstimos concedidos a Estados e municípios, com garantias do Tesouro, para Itaú e Bradesco. Isso fez o banco levantar mais R$ 730 milhões — valor presente das carteiras.
Venda de ativos não resolve problema patrimonial do BRB
O problema patrimonial do BRB não se resolve com a venda de ativos próprios, e dependerá de aportes feitos pelo controlador, segundo pessoas próximas consultadas pelo Estadão.
Os ativos já estão lançados no balanço e a sua venda não significa “dinheiro novo” na instituição. Nesse caso, o BRB apenas troca ativo por dinheiro, sem aumentar o capital total. O risco é a venda acontecer com deságio, ou seja, por um valor abaixo do que estava precificado — como acontece quando a instituição precisa levantar recursos rapidamente.
Os recursos “novos”, vindos do controlador, são cruciais para tapar o rombo provocado pelos negócios com o Master e também para cobrir prejuízos com a venda de carteiras com deságio.
Como o BRB precisa recompor seus índices de liquidez, e tem a necessidade de vender rapidamente os seus ativos, os compradores exigem um desconto (deságio) para adquirir os papéis — o que acaba se transformando em prejuízo. Isso agrava o Índice de Basileia, um indicador de prudência exigido pelo Banco Central. A solução, nesses casos, depende dos aportes do controlador para melhorar esse índice.
“Há ativos, como carteiras de crédito consignado de servidores públicos, que já têm precificação a mercado, por serem bem avaliados, como uma commodity. Nesses casos, o risco de deságio é menor. Para outras classes de ativos, com menos liquidez, esse risco aumenta”, explicou Santacreu.
No Banco Central, existe uma preocupação de que a proximidade das eleições desestimule Ibaneis Rocha a encontrar uma solução mais rápida. O entendimento é de que, quanto maior o prazo para resolver o problema, maior será a conta a ser paga pelo governo do DF.
A nova gestão do BRB trabalha para consolidar um plano até o dia 31 de março que envolve três frentes: aporte de capital, geração de liquidez e recuperação de imagem e reputação. A estratégia é publicar nessa data o balanço de 2025 mostrando a situação real do banco e comunicar, de forma conjunta, uma solução para o capital da instituição.
O que diz o BRB
Veja a íntegra da nota do Banco de Brasília:
O BRB informa que, conforme plano de capital preventivo apresentado recentemente ao Banco Central, foram propostas diversas alternativas para eventual recomposição patrimonial. O regulador concedeu um prazo para que as medidas fossem implementadas.
Entre as opções avaliadas estão soluções de mercado, como a venda de carteiras e ativos, estruturação de fundo com imóveis e contratação de linha junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ou consórcio de bancos. O aporte é uma das possibilidades consideradas, e não a única medida em avaliação.
O Banco mantém interlocução permanente, técnica e transparente com o Banco Central. A instituição segue prestando informações de forma tempestiva e colaborativa, inclusive no que se refere ao acompanhamento de ativos específicos e ao monitoramento de indicadores prudenciais.
Ressalta, por fim, que seguem operando normalmente, com atendimento em todas as agências e canais digitais, sem impactos sobre a continuidade operacional nem sobre a execução de sua estratégia de negócios.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







