A estratégia do “rematamento” e o futuro econômico da Amazônia
Trabalhar na Amazônia há 25 anos permite observar que a luta pela preservação sempre teve dois pilares fundamentais. O primeiro é o combate direto ao desmatamento, e o segundo é a criação de incentivos econômicos para manter a floresta em pé.
Enquanto o Brasil mostrou eficiência em reduzir a derrubada de árvores, a transformação da economia local ainda caminha a passos muito lentos. Essa falta de progresso econômico gera resistência política e ameaça as conquistas ambientais já alcançadas.
Especialistas apontam que é preciso ir além da repressão e investir na restauração produtiva de áreas que já foram degradadas. Essa nova abordagem busca integrar lucros e preservação, conforme divulgado pelo Estadão.
Avanços e retrocessos no combate ao desmatamento
Nas últimas décadas, o Brasil viveu dois grandes ciclos de redução na perda de vegetação nativa. O primeiro ocorreu entre 2004 e 2012, quando a queda chegou a 83%, saindo de 28 mil km² para menos de 5 mil km² anuais.
O segundo ciclo teve início em 2022, com o retorno de políticas ambientais mais rigorosas. No entanto, o desmatamento voltou a subir em períodos de alternância de poder, atingindo picos preocupantes como os 13 mil km² registrados em 2021.
A hostilidade no Congresso Nacional também cresce, com projetos que facilitam a grilagem e o uso de agrotóxicos. Isso demonstra que a proteção da Amazônia não pode depender apenas de ações de fiscalização e comando do governo federal.
O mito da bioeconomia e os desafios reais
Existe uma percepção equivocada de que a bioeconomia amazônica já é um sucesso absoluto. Eventos e prêmios constantes criam uma ilusão de progresso, mas a realidade dos pequenos produtores de açaí e cacau ainda é de muita fragilidade.
A maioria dos negócios da floresta é pequena e carece de representação setorial. “Não há nada errado em celebrar pequenas conquistas. O que atrapalha é quando a celebração vira cortina de fumaça”, aponta o especialista Salomão Coslovsky.
O sucesso é impedido pela falta de bens públicos, custos elevados e regras burocráticas que não protegem o produtor. Sem resolver esses problemas estruturais, as iniciativas de comércio justo e crédito não conseguem escala para transformar a região.
O potencial do “rematamento” em áreas degradadas
Uma das ideias mais inovadoras para o desenvolvimento regional é o chamado “rematamento”. O termo refere-se à restauração produtiva de parte dos 85 milhões de hectares que já foram desmatados e hoje servem como pasto de baixa qualidade.
A intensificação da pecuária poderia liberar cerca de 37 milhões de hectares para outros usos econômicos sustentáveis. Essas terras já possuem acesso a estradas, o que evitaria a necessidade de abrir novas frentes de exploração na mata fechada.
Países como China e Vietnã já realizaram esforços massivos de reflorestamento, gerando milhares de empregos. A Amazônia pode seguir esse caminho, utilizando terras degradadas para criar uma nova fronteira de desenvolvimento econômico e social.
Uma coalizão para o futuro da floresta
Para que essa transformação ocorra, é necessário montar uma coalizão que inclua não apenas ambientalistas e povos tradicionais, mas também a elite econômica e política regional. O diálogo entre grupos diferentes é essencial para o sucesso.
No passado, seringueiros e povos indígenas superaram divergências para liderar a conservação. Agora, o desafio é convencer os setores produtivos de que o uso inteligente da terra desmatada é mais lucrativo do que a expansão predatória.
O Brasil já provou que sabe proteger a floresta, mas agora precisa aprender a dar utilidade econômica às áreas onde a vegetação já foi retirada. O foco deve ser a eficiência produtiva aliada à regeneração da natureza.
A fonte original desta notícia é o Estadão, e você pode ler a matéria completa no link: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo.






