
Ricardo KnoepfelmacherSócio da RK Partners
O anúncio da recuperação extrajudicial de duas gigantes brasileiras num mesmo dia, o Grupo Pão de Açúcar e a Raízen, uma joint venture entre Cosan e Shell, pode ser um prenúncio de tempos difíceis para o setor corporativo. Na avaliação de Ricardo Knoepfelmacher (mais conhecido como Ricardo K.), sócio da RK Partners, nos próximos dois anos, grandes empresas vão enfrentar importantes processos de reestruturação (extrajudicial ou judicial) para diminuir o tamanho de suas dívidas.
Segundo ele, 24% das empresas brasileiras hoje não conseguem gerar caixa para pagar os juros da dívida. Boa parte desse endividamento não é nova. Vem de uma época que a taxa Selic estava na casa de 5%. Hoje está em 15%. “Muitas não acreditavam que a taxa iria subir tanto.”
Veja a seguir trechos da entrevista:
Hoje 24% das empresas brasileiras não conseguem gerar o caixa necessário para pagar o juro da sua dívida. Isso é uma pesquisa que a gente atualiza trimestralmente. Acompanhamos e fazemos análise de 282 empresas de capital aberto. Dessas, 69 estão com alavancagem alta e não geram Ebitda suficiente para pagar os juros anuais da sua dívida.
Por que?
Vemos que algumas empresas ficaram com uma alavancagem elevada diante de uma taxa Selic muito alta. Até 2022, tínhamos em média 25 empresas de grande porte pedindo recuperação judicial e extrajudicial por trimestre. Agora estamos com um patamar de 50 empresas. Essa é uma tendência enquanto a Selic tiver alta. As empresas estão com o balanço muito machucado. Vão ter de fazer um esforço para reestruturar o capital. 47% das empresas têm alavancagem superior a três vezes a relação Dívida Líquida/Ebitda anual e 24% tem alavancagem acima de 6 vezes.
O que isso significa?
Significa que quase metade das empresas hoje tem um endividamento muito alto e vão acabar não conseguindo pagar o juro da dívida. Vão ter de reestruturar a dívida. Isso é um número muito alto.
Por que chegaram nessa situação? Por que estão tão alavancadas?
Algumas dessas dívidas não são tão novas. A taxa Selic que você tinha em 2021 estava abaixo de 5%. Agora ela é de 15% ao ano. Essa taxa guia o custo de capital que os bancos cobram, e, de fato, hoje o custo da dívida está muito alto. Hoje está muito difícil das empresas pagarem uma dívida. Elas imaginaram que o juro ia continuar baixo. Aí os planos de negócio não deram certo. Várias dessas empresas também cometeram erros de estratégia, compraram ações de empresas que não tinha a ver com o seu core-business. Então é uma mistura de erros de execução, mas principalmente de um custo da dívida muito alto.
Essa deterioração vem ocorrendo desde quando?
De janeiro de 2016 a dezembro de 2024, o número de empresas com, pelo menos, um compromisso vencido era de 6% ao ano. No último ano, esse número aumentou para 30%. Isso mostra que está doído pagar o juro da dívida.
A expectativa é que o Banco Central inicie o processo de redução da taxa Selic na próxima semana. Isso ameniza a situação?
A maior parte das empresas vai continuar tentando resolver o seu problema sem precisar entrar numa recuperação judicial. Em 10 anos, fizemos 130 reestruturações e em menos de 20% foi necessário entrar com recuperação extrajudicial ou judicial. Então, a grande maioria ainda vai tentar negociar diretamente com os bancos uma solução menos traumática do que uma recuperação judicial. Esse é o primeiro ponto. Mas, mesmo que o Banco Central comece a redução da taxa de juro, será um processo gradual. Estamos falando que a taxa pode cair de 15% para 13% em 2 anos. Ela continuará num patamar muito alto com uma taxa de juro real altíssima, uma taxa de juro real acima de 7%. Então, acreditamos que não vai refrescar muito. O movimento será grande. Os bancos estão ativamente procurando as empresas que podem ter problemas no futuro justamente para não ter uma previsão muito grande de uma vez.

Das 10 maiores reestruturações no País, oito foram feitas pelo escritório de Ricardo K. Foto: Felipe Rau/Estadão
Quais os setores estão mais pendurados?
O setor de varejo vive um momento complicado. O agronegócio também está muito preocupante, porque houve um aumento grande dos custos, dos insumos e uma queda do preço das commodities. Então o setor do agribusiness, que durante vários anos surfou uma onda muito boa, está em grandes dificuldades. Há também algumas indústrias que estão com problemas. O que vemos é que há problemas específicos de alguns setores e de algumas empresas e outros com questões estruturais.
Que tipo de problema? No varejo, seria a questão do aumento das vendas online?
O varejo está precisando se reinventar. A forma como as pessoas compram está mudando muito rapidamente, muito mais rápido do que eles imaginavam. Acho que esse é um grande problema estrutural. No agribusiness, tem um problema de aumento dos fertilizantes e dos insumos e da queda do preço das commodities. No setor petroquímico, o preço da nafta está muito alto e acaba atrapalhando muito o setor. As grandes empresas que usam nafta estão com uma desvantagem competitiva grande. Outro problema é o setor dentro do agronegócio, que é o setor sucroalcooleiro, com 390 empresas. Mas, nesse caso, temos de ver o que vai acontecer com a guerra no Irã. O valor do preço do barril do petróleo tá oscilando muito e causa algumas distorções. Por outro lado, você também tem um problema que é o etanol de milho entrando com muita força, com mais produtividade e atrapalhando quem usa cana-de-açúcar.
Como tem sido a demanda do escritório por reestruturações?
Somos uma butique que faz apenas os grandes casos brasileiros. Dos últimos 10 maiores casos, a gente estava envolvido em oito. Pegamos poucos casos por ano. Mas diria que o número de consultas quadruplicou nos últimos dois meses.
Por que nos últimos dois meses?
Acontece o seguinte: as empresas fecharam o balanço do fim de ano e ficaram preocupadas porque os números passam a ficar disponíveis para os bancos. E aí eles terão uma radiografia muito clara de como as empresas estão em dificuldade. Por isso, várias dessas empresas estão procurando assessoria porque vão soltar o balanço já já.
O que esperar daqui para frente?
Nos próximos dois anos, vamos ter um crescimento significativo das reestruturações financeiras do capital das empresas, mesmo que a taxa de juro caia para 13%.
Essas reestruturações vão envolver nomes conhecidos?
Sim.
Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo







