O atual choque do petróleo é mais um episódio do que vem se tornando uma tendência: a multiplicação dos choques externos que afetam as economias nacionais e, em particular, a política monetária dos países.

Entre 1970 e 1998, o papel dos choques globais era relativamente modesto. Mas eles mais do que dobraram entre 1999 e 2019, sendo responsáveis por 1/3 da variância das taxas de juros das economias avançadas. Pós-pandemia, entre 2020 e 2024, esses choque globais passaram a explicar a metade da variação das taxas de juros, e até mais do que isso na área do euro.

Esses dados estão num estudo dos economistas Kristin Forbes (MIT), Jongrim Ha (Banco Mundial) e M. Ayhan Kose (Banco Mundial). Eles publicaram um artigo sobre o seu trabalho no site VoxEU.

Os pesquisadores fazem um paralelo interessante com ensinamentos do general e estrategista chinês Sun Tzu, do quinto século antes de Cristo. O sábio considerava necessário, para alcançar a vitória, diferenciar o que “vem do Céu”, forças fora do controle dos generais, do que “vem da Terra”, o terreno onde as batalhas são travadas. Para os autores, os choques globais são como eventos “do Céu” para os bancos centrais dos países.

Os economistas recordam que, até meados da década de 2000, os choques ainda eram predominantemente internos e de demanda, o que permitia calibrar melhor o balanço entre atividade e inflação, no período que ficou conhecido como a “Grande Moderação”.

Já os choques globais são mais frequentemente de oferta (muitas vezes ligados a petróleo e energia), elevando a inflação e freando a atividade ao mesmo tempo. A política monetária atua sobre a demanda, e não sobre a oferta, o que, de saída, já torna mais complexa a abordagem de boa parte dos choques externos.

E há vários outros aspectos dos choques globais que dificultam a vida dos bancos centrais. Eles tendem a ser mais persistentes. Um choque doméstico na inflação costuma se dissipar em cerca de um ano. Já os efeitos de um choque global duram, em média, mais de três anos.

E há mais volatilidade nos choques externos, que tendem também a ser mais fortes. Além disso, o estudo identificou que os choques globais contribuem muito mais para os ciclos de aperto monetário (subida de juros) do que para os de alívio.

O trabalho mostra ainda uma mudança na forma como os bancos centrais reagem aos choques de oferta, com destaque para os globais. Tomando-se todo o período de 1970 a 2024, os choques de oferta explicam uma parcela maior da variação da inflação do que da taxa de juros, indicando que os BCs tendem de certa forma a acomodar esses choques.

Porém, desde o fim dos anos 90, e especialmente de 2020 a 2024, os choques de oferta globais explicam uma parcela maior da variação das taxas de juros do que da inflação e do produto – o oposto ocorre com choques de oferta domésticos. Para os autores, isso indica que os bancos centrais se tornaram menos propensos a acomodar os choque de oferta globais, relativamente aos domésticos.

“À medida que as perturbações nas cadeias de suprimentos globais se tornaram maiores, mais persistentes e mais voláteis, os ‘policymakers’ parecem reagir com mais força”, escrevem os economistas.

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No Brasil, nesta semana, o Banco Central tomará mais uma decisão sobre a Selic tendo como pano de fundo um forte choque de oferta global. Embora o estudo abordado nesta coluna tenha examinado países avançados, não há razão para duvidar que o impacto desses choques em economias emergentes seja pelo menos igual, quiçá maior, do que aquele que atinge os países ricos.

Se o Copom vai reagir mais fortemente a esse choque, como o trabalho mostra que é a tendência dos BCs do mundo avançado, é uma grande interrogação. Essa questão ficará mais clara na decisão sobre a Selic amanhã (a aposta principal passou a ser a de corte de 0,25 ponto porcentual, ante 0,5pp antes da deflagração da guerra no Oriente Médio) e no comunicado, no qual a autoridade monetária pode dar pistas sobre como pretende reagir ao choque.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras ([email protected])

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/3/2026, terça-feira.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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