A pimenta-do-reino é muito mais do que um simples tempero, ela é uma das especiarias mais icônicas e valiosas da história. No Brasil, essa cultura ganhou força com o empreendedorismo de imigrantes japoneses no Pará.
Entretanto, o cenário atual revela um desafio inesperado para os produtores nacionais. Apesar de a colheita ter crescido em volume, o Brasil perdeu espaço no mercado mundial e viu sua relevância diminuir diante de novos concorrentes.
O país agora atua, em grande parte, como um subfornecedor para nações como Índia e Vietnã, que processam e revendem o nosso produto. As informações detalhadas sobre esse movimento econômico foram conforme divulgado pelo Estadão.
O paradoxo da pimenta-do-reino e a perda de espaço global
Nos anos 1980, o Brasil era um protagonista absoluto, sendo responsável por 27% da produção e 24% das exportações mundiais. Hoje, essa participação caiu para 18% e 19%, respectivamente, mesmo com o aumento da colheita.
O Vietnã assumiu a liderança global com quase 40% de participação. Enquanto isso, o Brasil passou a exportar menos para centros exigentes, como Europa e EUA, direcionando 30% da produção para países que reexportam o grão.
Essa mudança de perfil é preocupante, pois o Brasil deixa de agregar valor e perde espaço em um mercado que movimenta US$ 2,5 bilhões anuais. O país se tornou dependente de compradores que limpam e qualificam o produto brasileiro.
O avanço do Espírito Santo e a queda do Pará
Uma mudança geográfica interna também explica o cenário atual. O Pará, que detinha 90% da produção nacional, hoje responde por apenas 30%. O Espírito Santo assumiu o protagonismo e já concentra 60% da pimenta do país.
A diferença de desempenho é nítida nos números de produtividade. Enquanto os produtores capixabas colhem cerca de quatro toneladas por hectare, a média paraense caiu para apenas duas toneladas no mesmo espaço de terra cultivada.
O sucesso no Espírito Santo ocorreu pelo uso da estrutura já existente do café. Propriedades capitalizadas, sistemas de irrigação modernos e o apoio de associações organizadas permitiram um salto de qualidade e eficiência técnica.
Por que a integração técnica é o caminho para o sucesso
O governo capixaba elegeu a cultura como prioridade, oferecendo crédito e assistência técnica. Isso criou um ecossistema produtivo que envolve desde a pesquisa agronômica até a esterilização moderna dos grãos para exportação direta.
Já no Pará, a falta de mobilização de recursos e a baixa inovação resultaram em perda de qualidade. O estado não conseguiu sustentar o cultivo frente às exigências globais, perdendo o título de maior polo produtor mundial.
A experiência do Sudeste mostra que os obstáculos podem ser superados com gestão e tecnologia. A pimenta exige o que a agricultura familiar pode oferecer, sendo ideal para sistemas sustentáveis em regiões de clima tropical úmido.
O futuro da bioeconomia e a retomada na Amazônia
A pimenta-do-reino é apontada como uma candidata prioritária para gerar riqueza em áreas de desmatamento antigo na Amazônia. A planta é perene e se adapta perfeitamente aos sistemas agroflorestais que preservam o meio ambiente.
Com produtores dedicados e empresas exportadoras ainda presentes, o Pará tem potencial para recuperar o prestígio. O próximo capítulo depende da aplicação das lições aprendidas no Espírito Santo para reconquistar os compradores finais.
O mercado internacional de especiarias continua em expansão e o Brasil possui terra e água em abundância. O foco agora deve ser a qualidade e a autonomia comercial para que o país deixe de ser apenas um fornecedor de matéria-prima bruta.
A fonte original é a Estadão.







