A Inteligência Artificial, ou IA, já não é mais um conceito distante, mas uma realidade que avança a passos largos em nosso dia a dia. No Vale do Silício, o entusiasmo com a capacidade transformadora da IA no mercado de trabalho é quase um consenso, com a promessa de redefinir carreiras e processos.

Porém, a reação dos economistas costumava ser diferente. Historicamente céticos, eles encaravam o impacto da IA com uma dose de displicência, atribuindo mudanças no emprego a fatores macroeconômicos e desdenhando previsões alarmistas como falhas em compreender revoluções tecnológicas anteriores.

Essa postura, no entanto, está mudando. Embora a maioria ainda não veja evidências massivas de que a Inteligência Artificial esteja desorganizando o mercado de trabalho de forma ampla, a seriedade com que a possibilidade de uma disrupção iminente é tratada cresceu consideravelmente. Há uma crescente preocupação de que os formuladores de políticas públicas possam não estar preparados para o que virá, conforme divulgado pelo Estadão.

O Impacto da Inteligência Artificial: De Ceticismo à Urgência nas Previsões Econômicas

Durante muito tempo, quando o tema era a Inteligência Artificial e suas consequências para a economia, a resposta dos economistas era de cautela. As demissões atribuídas à tecnologia eram vistas como ‘AI-washing’, uma forma de empresas culparem a IA por sua má gestão, e o desemprego juvenil era creditado a juros altos. Agora, o cenário é outro, com a comunidade econômica começando a levar a sério os potenciais efeitos da IA.

Daniel Rock, economista da Universidade da Pensilvânia, especialista no impacto econômico da inteligência artificial, declarou: “Não acho que a IA já tenha atingido o mercado de trabalho, nem que já tenha mudado radicalmente a produtividade das empresas, mas acho que isso está por vir.” Essa mudança de perspectiva é crucial, pois sinaliza que a comunidade econômica reconhece que a transformação é inevitável.

Um estudo recente, que consultou economistas sobre as perspectivas para os próximos cinco e 25 anos, mostra que, embora esperem um crescimento econômico um pouco mais rápido com o avanço da IA, um cenário mais drástico é vislumbrado caso a tecnologia evolua rapidamente. Este inclui crescimento acelerado, maior desigualdade e o desaparecimento de milhões de empregos. “Os economistas certamente estão levando a IA a sério,” afirmou Ezra Karger, economista do Federal Reserve de Chicago e coautor da pesquisa.

A Mudança de Paradigma na Economia

A virada no ceticismo de muitos economistas começou a tomar forma com o lançamento de ferramentas cada vez mais sofisticadas. Alex Imas, economista da Universidade de Chicago, que inicialmente via o ChatGPT como poderoso, mas limitado, teve sua percepção alterada no final de 2024, quando a OpenAI lançou um modelo capaz de “raciocinar”, ou seja, resolver problemas passo a passo.

Para Imas, essa foi uma verdadeira mudança de paradigma. “Foi realmente uma mudança de paradigma para mim, e então comecei a pensar: isso pode ser um evento do tamanho de uma revolução industrial, ou até maior,” disse ele. Outros economistas tiveram o mesmo sentimento com o surgimento de ferramentas como o Claude Code da Anthropic, que escreve códigos, e a disseminação de “agentes” de IA, sistemas autônomos que executam tarefas.

A disseminação da Inteligência Artificial na economia é mais rápida do que outras inovações históricas. Dados do Census Bureau dos Estados Unidos indicam que quase uma em cada cinco empresas já utiliza IA, e em alguns setores, essa taxa dobra. Os próprios trabalhadores também relatam um uso crescente, muitas vezes por iniciativa própria, o que aponta para uma adesão orgânica da tecnologia no cotidiano profissional.

Mesmo que a IA ainda não tenha impactado fortemente as estatísticas agregadas, seus efeitos começam a ser percebidos. Pesquisadores da Stanford University, em um estudo do ano passado, notaram uma queda no emprego de trabalhadores em início de carreira em funções altamente expostas à Inteligência Artificial. Erik Brynjolfsson, um dos autores, ressaltou que, ao contrário de avanços tecnológicos anteriores que levavam décadas para se manifestar em ganhos de produtividade, “Não acho que desta vez vá levar décadas.”

Previsões Contrastantes e o Desafio da Transição

Enquanto alguns economistas ainda adotam uma postura mais moderada, as previsões de líderes do Vale do Silício são alarmantes. Dario Amodei, chefe da Anthropic, alertou que a IA pode eliminar 50% dos empregos iniciais em escritórios em poucos anos. O investidor Vinod Khosla previu que a IA substituirá 80% dos empregos até 2030, e Elon Musk chegou a afirmar que a tecnologia tornará o trabalho “opcional.”

Muitos economistas, contudo, rejeitam essas projeções extremas e defendem que o foco do debate deve ser o período de transição. Gimbel, um economista, questiona: “A questão urgente é: ‘Haverá um choque tecnológico, quão doloroso ele será?’” A disseminação da IA não significa, necessariamente, a perda de um grande volume de empregos, já que se estima que até 70% das vagas sejam expostas à tecnologia, mas não totalmente substituídas.

Um relatório recente da Boston Consulting Group estimou que mais da metade dos empregos nos Estados Unidos será “reconfigurada” pela Inteligência Artificial nos próximos dois a três anos, mas uma parcela muito menor será completamente substituída. Isso ocorre porque a maioria dos trabalhadores executa diversas tarefas, e a IA só consegue realizar uma parte delas de forma confiável. Além disso, as empresas agem com cautela na substituição total, priorizando a validação humana.

A velocidade da revolução da IA é um fator crucial. Se a transformação for gradual, haverá tempo para a adaptação, permitindo que trabalhadores mais velhos concluam suas carreiras e os mais jovens adquiram novas habilidades ou mudem de profissão. Mas, uma transformação ampla e rápida, deixaria pouco tempo para se adaptar, com poucos refúgios para se proteger. “Se a velocidade for lenta, há tempo para o emprego se ajustar e novos papéis surgirem,” disse Alex Imas, “Mas, se for rápido, coisas bem estranhas podem começar a acontecer.”

Como se Preparar para o Futuro Impulsionado pela IA

Diante da iminente transformação que a Inteligência Artificial pode causar no mercado de trabalho, economistas enfatizam a necessidade urgente de os formuladores de políticas públicas agirem. É fundamental modernizar os programas que auxiliam trabalhadores deslocados e garantir que a rede de proteção social esteja apta a lidar com os desafios que virão.

Programas existentes, como o seguro-desemprego, por exemplo, muitas vezes excluem os recém-formados, que são justamente o grupo que provavelmente será um dos primeiros a ser afetado pela IA. Além disso, os programas de requalificação profissional costumam ser lentos e insuficientemente financiados, o que os torna inadequados para uma transição rápida e massiva.

Contudo, a preocupação se estende à capacidade dessas ferramentas em lidar com uma disrupção de grande escala. Anton Korinek, economista da Universidade da Virgínia, adverte: “No passado, nossa rede de proteção social foi desenhada para lidar com choques transitórios. Este pode ser, na verdade, um choque mais permanente.” A preparação, portanto, deve ser abrangente e considerar um novo paradigma para o futuro do trabalho.

Este artigo foi elaborado com base em informações publicadas originalmente pelo Estadão, disponível em Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo.

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