O agronegócio brasileiro, motor essencial da economia, enfrenta um momento delicado. Com dívidas acumuladas e juros em patamares elevados, o setor, que contribui significativamente para o PIB nacional, vê seus desafios se intensificarem.

A deflagração da guerra entre EUA, Israel e Irã, há pouco mais de um mês, emerge como uma nova e preocupante “âncora”. O conflito no Oriente Médio impacta diretamente os custos de insumos vitais, como combustíveis e fertilizantes, elevando a pressão sobre produtores e distribuidores rurais.

Especialistas alertam que este cenário agrava a situação de quem já lida com margens apertadas e incertezas. A falta de visibilidade sobre o fim do conflito e a escalada de preços tornam o futuro ainda mais incerto para o agronegócio brasileiro, conforme divulgado pelo Estadão.

Conflito no Oriente Médio Acelera Desafios e Eleva Custos para o Agronegócio Brasileiro

“É tudo o que o agronegócio não precisava neste momento”, afirma José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. O setor, responsável por cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, lida com um período de ajustes significativos.

Embora não se trate de uma crise generalizada, com segmentos como proteínas, café e açúcar apresentando bom desempenho, os elos ligados aos grãos vivem sucessivos reveses. Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, ressalta que a guerra do Irã é mais um fator que segura a retomada.

A alta nos custos de produção, supersafras que derrubaram lucros e a escalada dos juros, que resultou em um número recorde de recuperações judiciais, já fragilizavam o campo. Uma crise energética, impulsionada pela guerra no Irã, pode agravar drasticamente a situação de quem já se encontra em dificuldades.

A Breve Era de Ouro e as Primeiras Mudanças no Campo

No início da década, o agronegócio brasileiro parecia viver uma temporada de prosperidade contínua. Após salvar o PIB durante a pandemia, com um crescimento de 24,3% em 2020, o setor se beneficiava de um câmbio favorável às exportações, novas tecnologias e juros baixos globalmente.

Com a Nova Lei do Agro em 2020, o governo buscou reduzir a dependência do Plano Safra. Foram criados os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), isentos de Imposto de Renda, e incentivados os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).

O resultado foi uma injeção massiva de capital. O patrimônio líquido dos Fiagros saltou de R$ 10 bilhões em 2022 para R$ 38 bilhões em 2026, atraindo 750 mil investidores. O estoque de CRAs também cresceu de R$ 65 bilhões em 2021 para R$ 180 bilhões no ano passado, mostrando a força do mercado financeiro.

Fundos de private equity também investiram na consolidação de redes varejistas e atacadistas de insumos, buscando escala e eficiência. Lojas padronizadas e vendedores no campo visavam otimizar a negociação com grandes produtores e oferecer crédito.

O Impacto da Guerra da Ucrânia e a Crise dos Custos

A primeira reviravolta veio com o ataque da Rússia à Ucrânia em 2022. De repente, o preço do cloreto de potássio, fertilizante crucial para soja, milho e cana, disparou de US$ 250 para US$ 1 mil a tonelada. Este evento revelou a vulnerabilidade do Brasil à dependência internacional de fertilizantes.

Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, explica que o país, apesar de sua produtividade, sempre dependerá de importações para a correção do solo. Pouco depois, em 2023, o Brasil colheu sua maior safra, com mais de 300 milhões de toneladas, principalmente de milho e soja.

Contudo, a boa notícia se transformou em prejuízo. Com custos de produção elevados, os produtores receberam menos por suas colheitas, enfrentando restrições financeiras. José Roberto Mendonça de Barros compara a situação a ciclos passados, onde o comportamento de endividamento se repete.

Em 2024, os custos com fertilizantes caíram, mas o preço da produção despencou ainda mais devido a safras recordes nos EUA e Argentina. As enchentes no Rio Grande do Sul também causaram perdas totais de safras, deixando agricultores com dívidas e juros altos para pagar.

Dívidas Crescentes e o Recorde de Recuperações Judiciais

A nova variável na equação foi o pagamento de empréstimos captados junto ao mercado financeiro. Diferentemente das crises anteriores, que podiam ser dribladas com concessões governamentais, o problema agora era com as taxas de juros do mercado, baseadas em indicadores como o CDI.

Rafael Pesce, sócio da consultoria Arm Gestão, especializada em reestruturação, observa que “houve uma superoferta de crédito no período em que o agro crescia”. Isso levou a um cenário de produtores muito endividados, que colocaram suas fazendas como garantia, resultando em execuções por parte dos bancos.

Enquanto o Plano Safra para médios produtores (Pronampe) cobra cerca de 10% de juros ao ano, os CRAs para médias e grandes empresas podem ter taxas de CDI (atualmente 14,65%) mais um adicional de 5% a 10%. “Imagine o quanto de retorno uma empresa agrícola tem de alcançar para pagar um empréstimo de CDI mais 8%”, questiona Serigati.

O impacto desses juros altos fez com que o setor fechasse 2025 com quase 2 mil solicitações de recuperação judicial, um crescimento de 56,4% em relação a 2024. Esse efeito cascata atingiu também as distribuidoras consolidadas por private equity, como a Agro Galaxy, que pediu recuperação judicial em 2024 com dívidas de R$ 4,6 bilhões.

O Novo Desafio da Guerra no Irã: Preços e Abastecimento

A guerra no Irã surge como um agravante para um setor já fragilizado. “Não será um aumento pequeno e já está se dando em fertilizantes e no diesel”, alerta Mendonça de Barros. A região do Oriente Médio é crucial, produzindo 30% dos fertilizantes mundiais e fornecendo 15% a 18% dos usados no Brasil.

Cesar de Castro Alves destaca que a dependência do gás da região para a produção de fertilizantes e o impacto em refinarias, terminais petrolíferos e campos de gás impedem uma normalização rápida dos preços. A tendência é que os custos se inflem ainda mais.

Embora produtores brasileiros possam adiar a compra de insumos até meados do ano, ao contrário dos do hemisfério norte, a preocupação com a próxima safra é iminente. O custo para o plantio da soja no fim do ano, por exemplo, “está muito mais elevado, principalmente por conta dos fertilizantes”, afirma Castro Alves.

A expectativa é de um impacto inflacionário significativo, com a preocupação principal sendo o abastecimento, que seria “muito pior do que a inflação dos combustíveis”, segundo Serigati. A falta de visibilidade sobre o fim do conflito mantém especialistas cautelosos e preocupados com o futuro do agronegócio brasileiro.

Este artigo foi elaborado com base em informações divulgadas pelo Estadão. Para detalhes adicionais, acesse a matéria original em Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo.

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