Daniel Vorcaro e Paulo Henrique entram em contradição sobre carteira de créditos vendida pelo Master

Sigilo dos depoimentos foi levantado pelo ministro Dias Toffoli.

BRASÍLIA – Um relatório de auditoria interna produzido pelo Banco Regional de Brasília (BRB) já havia detectado, em 4 de abril de 2025, diversos indícios de que as carteiras de créditos consignado comprados do Banco Master eram falsas. Ainda assim, o BRB continuou comprando essas carteiras até o mês de maio.

Procurado, o ex-presidente do banco, Paulo Henrique Costa, afirmou que apenas tomou conhecimento desse relatório no fim de maio e enviou as informações ao Banco Central para verificação das irregularidades (leia nota na íntegra abaixo).

Nesta quinta-feira, 26, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou, por sua vez, que em janeiro de 2025 a venda de carteiras já havia despertado a atenção da diretoria de fiscalização e, em fevereiro, foi constituído um grupo para começar a analisá-las.

No total, o BRB comprou R$ 12,2 bilhões de falsos créditos consignados do banco de Daniel Vorcaro. Após o BC iniciar uma fiscalização e apontar irregularidades, o BRB substituiu essas carteiras por outros ativos também suspeitos de serem fictícios.

O rombo ao BRB ainda está sendo calculado, mas pode passar de R$ 8 bilhões, segundo a nova gestão do banco. O número seria apresentado em um balanço a ser divulgado até o final desse mês, mas o banco tenta obter o adiamento desse prazo.

O Estadão teve acesso a detalhes inéditos desse documento, produzido por um grupo de trabalho do BRB formado para analisar os créditos. Chamou a atenção dos auditores que a base de dados entregue pelo Master ao BRB consistia em uma simples planilha com nomes, CPFs e dados dos contratantes dos créditos, completamente vulnerável a manipulações, em vez de fazer parte de um sistema de informática organizado para gerir esses créditos.

Ao verificar os dados, o relatório indicou que as planilhas estavam preenchidas com e-mails falsos e data de nascimento fictícia, de 1º de janeiro de 1901, o que significaria que o contratante do crédito consignado teria 124 anos.

“Preenchimento de dados inverídicos, realizados para evitar campos em branco, incluindo inserções manuais como a data de nascimento em 01 de janeiro de 1901 ou o endereço de email fictício ‘[email protected]’. Este procedimento compromete a integridade e precisão dos dados coletados”, diz o relatório.

As planilhas também continham clientes homônimos e contratos iguais de crédito consignado, o que indicou uma fabricação de dados somente para a captação de recursos do BRB.

Como parte desse trabalho, os auditores do BRB procuraram o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) para realizar um trabalho de checagem nos dados dos créditos consignados. Quando o Serpro verificou os CPFs da base de dados, descobriu que muitos deles não correspondiam a nenhum contrato de crédito consignado existente, o que reforçou o indício de falsidade.

Um último fator de risco detectado no relatório foi a existência de uma “alta incidência de reclamações” dos clientes que apareciam na base de dados de créditos consignados e que diziam nunca terem contratado o produto.

Relatório não foi enviado a conselho

Esse relatório foi entregue ao Comitê de Auditoria do BRB, à época presidido por Marcelo Talarico, considerado homem de confiança de Paulo Henrique Costa.

De acordo com integrantes do banco, o relatório foi encaminhado apenas à Presidência e nunca foi submetido ao Conselho de Administração do BRB. Nas atas do conselho, não consta nenhum debate sobre esse documento. Questionado, Talarico não se manifestou.

O relatório também não foi enviado aos órgãos de investigação na época. Ele foi entregue à Polícia Federal apenas no final do ano passado, após a deflagração da Operação Compliance Zero.

Posteriormente, análises da Polícia Federal e do Ministério Público Federal também apontaram as suspeitas de falsificação nas carteiras de crédito consignado compradas pelo BRB. Esse foi o principal fato sob investigação na primeira fase da operação, que resultou na primeira prisão de Daniel Vorcaro. O banqueiro foi preso novamente e agora negocia um acordo de delação premiada.

Após a operação da PF, o BRB trocou a presidência e contratou uma auditoria externa para fazer uma análise desses investimento e da situação das contas do banco. O relatório final deve ser apresentado nas próximas semanas.

Em nota divulgada por sua defesa, Paulo Henrique Costa disse que enviou as informações ao BC e negou irregularidades. Leia a íntegra da nota:

“O relatório do grupo de trabalho constituído pelo BRB em 2025 foi apresentado ao Comitê de Auditoria em 22/05/2025, momento em que as compras de carteiras de crédito vendidas pelo Banco Master e originadas pela Tirreno já haviam sido suspensas desde 15/05/2025.

Ao tomar conhecimento da existência das dúvidas sobre a integridade dessas carteiras, o ex-presidente Paulo Henrique Costa deu conhecimento ao Banco Central do Brasil em 25/05/2025, exigiu a ampliação das verificações nessas carteiras, a contratação de uma auditoria independente, a apresentação de garantias adicionais pelo Banco Master e a substituição dessas carteiras.

A atuação do ex-presidente em conjunto com a equipe do BRB, sob supervisão do Banco Central, fez com que a maior parte desses ativos fosse substituída por outros ativos, sendo que, no momento do seu afastamento, permaneciam pendentes de substituição aproximadamente R$ 2,5 bilhões, que contavam com garantias adicionais de R$ 10,5 bilhões. Além disso, as operações de cessão de crédito haviam gerado receitas de R$ 6,0 bilhões ao BRB até aquele momento.

O Conselho de Administração do BRB tinha pleno conhecimento das aquisições das carteiras de crédito, das discussões sobre substituições de carteiras e da estratégia de atuação, conforme pode ser verificado em suas atas.“

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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