Em Brasília, o ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, atendeu a pedidos do banqueiro Daniel Vorcaro, determinando uma inspeção urgente no Banco Central para investigar a liquidação do Banco Master. Vorcaro, preso e negociando delação, buscava proteger seus bens e questionar a liquidação. A inspeção gerou crise entre TCU e BC, levando a uma revisão para uma diligência mais amena. A área técnica do TCU não encontrou irregularidades no BC, mas o processo segue sob vigilância.

BRASÍLIA — O ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), atendeu a pedidos do banqueiro Daniel Vorcaro ao determinar uma inspeção no Banco Central para investigar o processo de liquidação do Banco Master, conforme mostram documentos do processo na Corte de Contas.

O banqueiro solicitou, em dezembro de 2025, após a liquidação do Master, que o TCU suspendesse atos do Banco Central, impedisse a venda de bens do conglomerado, realizasse uma inspeção no BC e ainda decretasse sigilo absoluto no processo, segundo relatório da área técnica da Corte de Contas.

Procurados, a defesa do Vorcaro, o ministro e o TCU não se manifestaram.

Os documentos mostram que o ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso no TCU, seguiu os pedidos de Vorcaro na sequência, quando citou a possibilidade de o tribunal interferir no processo de liquidação do Master e determinou uma inspeção com a “máxima urgência” no Banco Central.

Segundo o processo, Daniel Vorcaro pediu no dia 16 de dezembro:

  • uma inspeção no Banco Central para verificar “se os procedimentos internos foram adequadamente seguidos na análise do pleito de ingresso do BRB no capital social e no grupo de controle do Banco Master”;
  • uma investigação sobre as razões da decretação da liquidação do Master com foco em possível descumprimento da legislação e dos precedentes da próprio Banco Central;
  • proibição, até a conclusão do processo no TCU, de qualquer decisão do Banco Central que autorize o liquidante do Master a vender bens do conglomerado, salvo se houver anuência do ministro Jhonatan de Jesus
  • revisão dos atos do presidente do Banco Central envolvendo o Banco Master, incluindo a decretação da liquidação; e
  • o sigilo absoluto do processo no TCU, mantendo informações acessíveis apenas ao presidente do BC, ao liquidante, aos advogados de Vorcaro e ao ministro Dias Toffoli, então relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF).

Vorcaro alegou que pretendia evitar que os ativos do Master fossem “arruinados” e pediu que o TCU determinasse ao liquidante a execução somente de medidas necessárias à manutenção e ao custeio da estrutura do banco, inclusive pagamento de funcionários, e que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) seguisse pagando os consumidores finais para que a população não tivesse “nenhum tipo de prejuízo.”

No dia 18 de dezembro, dois dias depois, Jhonatan de Jesus emitiu um despacho afirmando que vislumbrava a possibilidade de adotar medidas cautelares contra o Banco Central, incluindo uma determinação para que o órgão não promovesse a venda de bens do Master e realização de uma inspeção no BC.

Em 5 de janeiro, Jhonatan emitiu um novo despacho, alertando novamente para a possibilidade de impedir a venda de bens de Vorcaro no âmbito da liquidação e determinando uma inspeção com a “máxima urgência” na autoridade monetária.

Os documentos mostram que o ministro não citou Vorcaro, mas atendeu o que foi pedido por ele. A área técnica da Corte de Contas sugeriu que o tribunal admitisse apenas o ingresso de Vorcaro como parte interessada, mas sugeriu a negativa de todos os demais pedidos “por extrapolarem o objeto delimitado nos autos”.

A inspeção provocou uma crise entre o TCU e o Banco Central e levou o ministro a recuar, mudando a inspeção para uma diligência mais amena.

A área técnica do tribunal concluiu que não foram identificadas “impropriedades, omissões ou negligência” por parte do Banco Central. Jhonatan suspendeu o processo na terça-feira, 24, mas manteve o BC sob vigilância e disse que aguardará o andamento das investigações.

Conforme o Estadão mostrou, a decisão do TCU de fazer uma inspeção no Banco Central fazia parte da estratégia da defesa de Vorcaro para favorecer o empresário, questionar a liquidação do Master, proteger seus bens e abrir espaço para pedidos de indenização à União mesmo se a liquidação não fosse revertida. O banqueiro está preso e começou a negociar uma delação premiada.

Fonte: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo

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